A rotina do padeiro António Pinto, de Mora, alterou-se desde que tem covid-19. Antes levava o pão a casa da população, mas agora é à sua porta que lhe deixam o avio e “o pãozinho fresco”.

Sem pão é que não podíamos ficar”, afiança à agência Lusa a sua mulher, Bina Costa, também em isolamento em casa, com os filhos, embora tenham dado negativo nos testes.

A padaria que possuem na vila de Mora, no distrito de Évora, fechou portas, após o marido, António Maria Rijo Pinto, testar positivo para a covid-19, na sequência do surto da doença provocada pelo novo coronavírus SARS-CoV-2 na freguesia e que conta com 46 infetados, cinco deles hospitalizados (três nos cuidados intensivos).

Mas, se há coisa que não pode faltar em casa de alentejano, ainda mais na de um padeiro, é pão, confirma Bina Costa, à porta, depois de recolher os sacos do avio de hoje, levados a casa por funcionários da junta de freguesia, depois de irem a uma das poucas superfícies comerciais abertas buscar a lista de compras.

É claro que estávamos habituados a ter sempre pãozinho fresco. É um bem essencial e tínhamos de arranjar maneira de termos o pãozinho em casa”, diz, realçando que, com a doença, foram apanhados de surpresa: “Como se costuma dizer cá no Alentejo, em casa de ferreiro espeto de pau”.

Graças à Junta de Freguesia de Mora, que está a apoiar as pessoas com covid-19 ou em isolamento em casa, a quem entrega o avio das compras, medicamentos e outros bens essenciais, a família do padeiro não ficou sem “sopas” para a comida.

Ainda bem que algumas pessoas fazem o favor de nos trazer quando vão buscar o delas e que a junta nos faz as compras. A situação inverteu-se, temos uma padaria na família, no entanto, a pessoa que testou positivo era quem ia pôr o pão na vila, de porta a porta. E agora tem que ser o contrário”, admite.

No 1.º andar, António Pinto faz jus ao nome do meio, “rijo”, e vem até à janela falar ao telemóvel com a Lusa para explicar que está “isolado no quarto”, há já “oito dias”, e que a família está “noutra parte da casa”, mas não vê o dia de voltar a poder pôr “as mãos na massa”.

A mulher confirma: “O dia-a-dia dele era este, andar na distribuição e, agora, nem sabe estar em casa sequer, é um castigo. Quer é voltar” à padaria.

O presidente da junta de Freguesia, Marco Calhau, relata à Lusa que, em conjunto com a câmara municipal, foi decidido prestar este apoio, porque foi uma necessidade sentida logo no início do surto, cujos primeiros casos foram detetados no passado dia 9.

Conforme as pessoas foram ficando em isolamento, quer estivessem positivas ou não para covid-19, “não tinham quem lhes fosse buscar os bens de primeira necessidade”, porque aqueles “de quem se podiam valer também já estavam em isolamento ou tinham algum receio”, pelo que “houve esta necessidade de pormos mão à obra”, destaca o autarca.

E, além da entrega dos bens de primeira necessidade a casa dos fregueses, os funcionários da junta acabam “sempre por dar uma palavrinha de conforto, de apoio”, para “perceber como é que as coisas estão”.

Até ao aparecimento do surto da doença, Mora tinha “orgulho de ser um dos concelhos” do Alentejo “com zero casos de covid-19” e todos estavam “descansadinhos”, mas, agora que o vírus apareceu, foi “de forma avassaladora”, lamenta Marco Calhau.

Com as ruas praticamente vazias, os serviços e equipamentos municiais encerrados, quase todas as lojas, restaurantes e serviços de portas fechadas, pois, só um ou dois cafés e superfícies comerciais é que funcionam, a vila de Mora não tem movimento.

“Conseguimos passar cinco meses aqui no nosso concelho sem ter casos positivos e, de facto, numa semana, apareceram 46” pessoas com covid-19, lamenta também o presidente da câmara, Luís Simão, junto ao auditório municipal, onde foram testados cerca de 160 funcionários do município e da junta de freguesia, porque estas são instituições que têm que “continuar operacionais”.

Na vila estão “todos muito preocupados e angustiados”, mas “o comportamento das pessoas tem sido exemplar”, já que “não saem praticamente de casa” e, num concelho com uma população envelhecida, a grande preocupação é “evitar que o ‘bicho’, o vírus, chegue aos lares, o que seria uma catástrofe ainda maior”.

O vice-provedor da Santa Casa da Misericórdia de Mora, José Mariano, afiança à Lusa que essa é também a sua preocupação. As medidas de contingência foram reforçadas, funcionários e utentes estão a ser testados e as visitas, que já podiam ser efetuadas através de um vidro, foram novamente suspensas.

Situada mesmo à beira da Estrada Nacional (EN) 2, agora afamada e por onde circulam muitos turistas, este era mais um fator de dinamismo do turismo em Mora, que estava a receber “centenas de pessoas”, mas agora “não para ninguém”, com prejuízos para a economia local, realça o presidente da câmara.

Também atravessada pela EN2, a cerca de 20 quilómetros, já no vizinho concelho de Montemor-o-Novo, fica a pequena localidade de Ciborro. Com pouco mais de 600 habitantes, tem 10 casos positivos de covid-19 e, quem lá passa, não vê quase ninguém.

Grande parte das pessoas está em isolamento, porque aqui todos acabamos por ter ligação uns com os outros”, conta à Lusa a presidente da junta de Freguesia, Nélia Campino, que não sabe se estes casos estão ligados aos de Mora: “Com a questão da EN2, passam aqui centenas de pessoas todos os dias. Os entendidos na matéria estarão a avaliar e, depois, darão o resultado final”.

/ AG