A tendência foi identificada logo nos primeiros dias da pandemia, na China: os homens morrem mais do que as mulheres, quando infetados com o novo coronavírus.

Um estudo conduzido pelo Centro de Controlo e Prevenção de Doenças do país concluiu que, em 44 mil pacientes analisados, a taxa de mortalidade entre os homens, até 11 de fevereiro, foi de 2,8%, enquanto nas mulheres foi de apenas 1,7%.

A tendência verificou-se também em Itália, Alemanha, Irão, França e Coreia do Sul. Em Portugal, o número de óbitos ainda não permite fazer uma análise clara, porque é bastante mais reduzido que na maior parte dos países enumerados.

De qualquer maneira, até esta terça-feira, morreram 160 pessoas no país, vítimas da Covid-19: 96 eram homens, 64 mulheres, o que acaba por alinhar o país com a tendência internacional. Aliás, no dia 20 de março, a Organização Mundial da Saúde revelou que na Europa ocidental, os homens representavam 70% do número de mortos.

Doenças pré-existentes e comportamentos de risco

Ricardo Mexia, presidente da Associação Nacional de Médicos de Saúde Pública, confirmou à TVI que, por cá, a maior taxa de mortalidade entre o sexo masculino "tem a ver com a existência de um  número mais significativo de doenças prévias nos homens do que nas mulheres". Ainda assim, o médico de saúde pública salienta que há outro fator importante para explicar os números.

Os homens têm mais doenças preexistentes e têm mais comportamentos de risco, como o consumo de tabaco, que é mais frequente em homens do que em mulheres, especialmente em idades mais avançadas."

De facto, o hábito de fumar aumenta o risco de contrair doenças respiratórias e, tanto em Portugal, como na China, os homens fumam mais do que a mulheres. A título de exemplo, no país da Ásia, mais de 50% da população masculina é fumadora.

Em Itália, o cenário repete-se, e o Instituto de Saúde Pública garante que a probabilidade de os fumadores precisarem de cuidados intensivos e de ventilação, em caso de infeção com Covid-19, é mais do dobro quando comparada com a dos não fumadores.

Hábitos de higiene

Para além do tabagismo e das patologias preexistentes, alguns fatores comportamentais podem, também, influenciar a mortalidade entre os homens. Nos Estados Unidos, um inquérito sugere que os indivíduos do sexo masculino lavam menos as mãos do que as mulheres e, quando lavam, usam sabão menos vezes. Na verdade, lavar as mãos é uma das etapas mais eficazes na prevenção da doença.

Fatores biológicos

Alguns investigadores também suspeitam que podem existir fatores biológicos na equação das taxas de mortalidade. Um estudo feito pela Universidade de Iowa conclui que os genes do cromossoma X e hormonas como o estrogénio, comuns ao sexo feminino, podem fazer as mulheres menos susceptíveis à SARS, outro tipo de coronavírus, mas semelhante ao que agora assusta o mundo.

Relativamente às questões biológicas, o médico português entrevistado pela TVI é mais prudente: "As questões genéticas são uma possibilidade, mas não é certo".

Isto, porque apesar das hipóteses que se vão levantando, a ciência desbrava um terreno ainda muito desconhecido.

Estamos todos os dias a perceber melhor o que se passa com este vírus e, na verdade, poderá haver outros fatores."

Emanuel Monteiro