O presidente do Conselho Regional do Sul da Ordem dos Médicos retratou este domingo a situação preocupante vivida nos hospitais portugueses e sublinhou que a pressão provocada pela pandemia de covid-19 obrigou mesmo a que se cancelasse cirurgias oncológicas.

Estamos a fechar enfermarias para abrir enfermarias especializadas a covid, já vimos situações em que temos de cancelar cirurgias oncológicas", disse Alexandre Valentim Lourenço, que também é médico do Hospital de Santa Maria.

Valentim Lourenço referiu que há hospitais que já esgotaram a sua capacidade e que agora é o tempo de "compensar os erros cometidos em dezembro", nomeadamente relativos às restrições (ou à falta delas) impostas durante o Natal e o Ano Novo.

Este novo confinamento é fruto de um objetivo de rapidamente diminuir os níveis de infeção. Tarefa impossível se a população não cumprir as regras.

Começa a ser preocupante a forma como se está a encarar este confinamento. Vejo ruas cheias, lojas com pessoas, desporto em grupo", retrata o presidente do Conselho Regional do Sul, destacando que, ao praticarmos desporto, propagamos uma quantidade maior de partículas, que não são impedidas pela máscara.

Alexandre Valentim Lourenço explica que quando temos muitas excepções, é "próprio de algumas sociedades de ir ao encontro dessas desculpas", mas apela que Portugal saiba que há sempre uma mortalidade associada à doença covid-19 e se continuarmos com 10 mil casos diários, "temos de contar com 150 mortos por dia nas próximas semanas".

O médico observa ainda que uma das grandes deficiências na resposta dos serviços de saúde à pandemia é a falta de profissionais, erro que já devia de ter sido contrariado "há mais tempo".

"Tenho colegas a trabalhar 24 horas por dia e a folgar um dia inteiro após. Eu não sei como pode ser mais dramático do que isto, consecutivamente a trabalhar 100 horas por semana nesta situação", descreve.

Para Lourenço, a curto prazo, é preciso tomar medidas práticas e logísticamente eficazes, especialmente tendo em conta o número de internamentos diários: "É preciso criar mais hospitais de campanha e requisitar estruturas para instalar doentes infetados com sintomas menos graves.

O presidente da Associação Nacional de Médicos de Saúde Pública, Ricardo Mexia, considerou este sábado “absolutamente insustentável” a situação vivida atualmente em Portugal na prestação de cuidados de saúde no âmbito da pandemia da covid-19.

É absolutamente insustentável o que se está a passar na prestação de cuidados, é uma situação dramática. Acho que é essa a descrição possível", afirmou o médico em declarações à agência Lusa, lembrando que, “infelizmente os alertas dos hospitais e de todos os envolvidos não são de agora, [já vêm] até [de] antes do Natal”.