O pico de mortes por covid-19 em Portugal pode ser registado a meio do mês de dezembro, quando faltarem mais ou menos duas semanas para o Natal. A ideia foi defendida pelo epidemiologista Manuel Carmo Gomes na reunião entre especialistas e políticos no Infarmed, que decorre esta quinta-feira em Lisboa.

A estimativa feita dá conta de que, por essa altura, se possa registar uma média entre 95 a 100 óbitos diários, sendo que o máximo diário até agora verificado foi de 91 mortes.

O mesmo especialista, que é professor na Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, acredita que o máximo de casos poderá surgir já na próxima semana, entre os dias 25 e 30 de novembro, altura em que o máximo de casos pode rondar os sete mil diários, ainda que não deva ultrapassar esse número.

Manuel Carmo Gomes frisa que "não podemos baixar a guarda", mesmo que estejamos perante um abrandamento da epidemia: "À primeira oportunidade volta a subir; e mesmo a subir até ao pico, temos de manter as medidas".

Para o epidemiologista, um dos pontos chave é controlar o indíce de transmissiblidade (RT), que deve ser colocado abaixo de 1 o mais rápido possível.

Caso não haja sucesso nesse controlo, a situação pode ficar ainda mais preocupante perante a pressão hospitalar e os valores de internamentos.

O investigador Manuel do Carmo Gomes afirmou que há “uma tendência a nível nacional” de descida do índice RT, que determina quantas outras uma pessoa infetada pode contagiar.

Atualmente, o RT estará em 1,11 e nos modelos de evolução apresentados no Infarmed, deverá estar em 1 no fim de novembro e princípio de dezembro, referiu Carmo Gomes, considerando que não se pode “baixar a guarda, porque à primeira oportunidade, o R volta a subir”.

A questão, apontou, é que mesmo que se consiga uma redução do R para 1, a incidência de novos casos por dia pode manter-se em vários milhares, entrando-se “num planalto do qual não é fácil sair” e que se continuará a refletir em mais casos internados e mais mortes.

Por isso, de acordo com os modelos que apresentou, é preciso “manter o RT abaixo de 1 continuamente”.

Se se mantiver, poderá haver uma média superior a três mil novos casos por dia até meados de janeiro, referiu.

De acordo com Baltazar Nunes, do Instituto Nacional de Saúde Dr. Ricardo Jorge, o RT nacional está “a crescer há 88 dias”, verificando-se uma média diária de 6.488 novos casos (calculada com os números efetivos a sete dias), que é “seis vezes superior” ao que se verificou na primeira onda de março/abril.

Esta incidência tem tido “uma tendência positiva nas últimas semanas”, indicou, referindo que o tempo que demora a duplicar o número de novos casos diários tem vindo a aumentar.

Continuam a crescer [os novos casos por dia] mas com um crescimento menos acentuado desde o meio de outubro”, declarou.

De acordo com os modelos trazidos à reunião por Baltazar Nunes, “só com uma redução dos contactos na comunidade superior a 60 por cento e uma elevada cobertura do uso de máscara é possível trazer o RT para baixo de 1” e mantê-lo aí “por várias semanas”.

Para calcular o fator RT, entram em consideração a duração do período que uma pessoa infetada está entre a população, o número de contactos que mantem, a probabilidade de transmissão após o contacto e a suscetibilidade à infeção.

Norte com incidência sete vezes maior face a abril

A região Norte está a registar um abrandamento do crescimento da pandemia de covid-19, mas a incidência ainda é quase sete vezes superior à registada em abril, segundo um especialista da Faculdade de Ciência da Universidade do Porto.

"Temos neste momento uma situação em que em geral está a haver abrandamento de crescimento" no Norte do país, a zona onde há mais casos de infeção, afirmou Óscar Felgueiras.

Segundo o especialista, mesmo onde a pandemia está a crescer, em geral, há abrandamento e, eventualmente, onde está a descer a tendência é de descida em muitas regiões.

Ao acompanhar a média diária de casos numa janela a sete dias e numa janela de casos a 14 dias, observa-se que tem havido um crescimento grande.

Estamos neste momento com uma incidência que é quase sete vezes superior à registada em abril no momento mais alto da pandemia e recentemente a tendência foi de haver um certo abrandamento", sublinhou Óscar Felgueiras.

À semelhança do que acontece no país, as faixas etárias com maior incidência são as da população ativa dos 20 aos 49 anos, seguida dos idosos acima dos 80 anos, bem como dos 70 aos 79 anos.

Mesmo no caso dos idosos, a incidência atual é mais do sobro do que aquela que foi atingida no pico de abril", salientou.

Segundo Óscar Felgueiras, estão a surgir cerca de 200 casos diários de pessoas com 80 ou mais anos neste momento. "A verdade é que a incidência é bastante elevada".

A taxa de incidência a 14 dias aumentou na última semana 16% com tendência, no entanto, de abrandamento, sendo a variação de crescimento de menos 9%.

Em termos de faixas etárias que estão a crescer estão as crianças, mais 32%, os adolescentes, mais 24%, e os idosos com mais de 80 anos (26%) e 70 a 79 anos, mais 21%.

O especialista adiantou que as realidades na região norte não são absolutamente homogéneas.

Em Aveiro existe uma tendência elevada, mas que está em crescimento desacelerado, em Braga é mais elevada, estando o crescimento em 28%, mas também está a desacelerar o crescimento, enquanto Bragança esteja em crescimento acelerado, mas num patamar mais baixo.

O distrito do Porto é onde se está a dar alguma estabilização e que está a ocorrer sobretudo nas faixas etárias da população ativa, não tanto nos jovens e os idosos ainda estão a subir um bocadinho.

António Guimarães / com Lusa