Portugal mais do que duplicou a capacidade de testagem contra a covid-19 na última semana, passando de 167.050 testes na semana 13 para 348.858 na semana 14. Apesar do aumento da testagem, o país conseguiu atingir o valor mais baixo de sempre na positividade dos testes, ficando em 1,22% de testes positivos.

Com efeito, dos 348.858 testes realizados na referida semana, foram 4.271 os casos confirmados.

Segundo aquilo que foi definido pela Direção-Geral da Saúde e pelo Instituto Nacional de Saúde Doutor Ricardo Jorge, a taxa de positividade dos testes realizados é uma das linhas vermelhas que define o ritmo do desconfinamento. Esse valor não deve ultrapassar os 4%, valor que foi padronizado pelo ECDC.

Recorde-se que, para o Governo, a matriz de risco está relacionada com os eixos de transmissibilidade e incidência.

A barreira dos 4% não é ultrapassada desde a semana 7 do ano, em meados de fevereiro, altura em que Portugal ainda registava um pico de casos diários. Para se fazer um paralelismo, verificamos que essa mesma semana teve uma taxa de positividade de 5,23%, sendo que o número de testes por 100 mil habitantes foi de 1.944, enquanto que na última semana registada esse valor subiu para 3.388.

Na prática, na semana 7 do ano, Portugal testava muito menos mas tinha uma positividade muito maior.

Os valores são ainda mais díspares quando comparados com as piores semanas do ano, que foram as três primeiras, com dados que foram muito em parte motivados pelo aumento de contágios provocado pela quadra natalícia.

Foi precisamente a fase mais crítica da pandemia em Portugal. Na semana 3 o país confirmou 86.610 casos em sete dias, para na semana seguinte registar 83.208.

É verdade que foram também as semanas em que mais se testou (4.367 e 4.045 testes por 100 mil habitantes, nas semanas 3 e 4, respetivamente), mas a taxa de positividade dessas semanas atingiu os 19,26% e os 20%.

Contraciclo com a Europa

Os números do ECDC apresentam uma clara tendência em Portugal, que está a testar mais, mas a reportar menos casos na proporcionalidade. Em sentido inverso, a tendência de muitos países europeus vai para a redução da testagem, ao passo que a positividade aumenta.

É o caso da Alemanha, que continua sob medidas restritivas duras, o que explicará a baixa testagem (não faz mais de 1.700 testes por 100 mil habitantes há várias semanas). Mas preocupante será a proporção de positivos, que nas últimas semanas duplicou de 5% para 10%.

A tendência de positividade alta verifica-se também em França, que tem estado entre os 7% e os 9% nas últimas semanas. Apesar disso, e quando comparado com a Alemanha, é um país onde se está a testar muito, até porque foram identificados vários surtos em muitas das regiões, o que levou a um confinamento regional, que acabou por se alargar praticamente a todo o país.

Aqui ao lado, em Espanha, a taxa de positividade também vem numa clara tendência de subida. Nas últimas semanas passou de 4% para 7%, num país que está a testar cerca de metade em relação a Portugal.

Recuperando os 4% de positividade definidos pelo ECDC, verificamos que todos estes países estão bem acima da conta, o que reforça a ideia de que Portugal vai em contraciclo com a Europa. Se em janeiro estivémos muito pior, agora estamos numa melhor situação.

Um caso à parte

Nesta análise de testagem que é publicada pelo ECDC todas as quintas-feiras, costuma haver sempre um caso que salta à vista, e o cenário não mudou de figura. Na Dinamarca, testa-se como nunca, ou melhor, testa-se como sempre: muito.

Num país com 5.822.763 habitantes, foram feitos 2.635.114 testes na última semana, o que equivale a pouco menos de metade da população testada numa semana, algo que se tem vindo a verificar de forma recorrente.

Ainda assim, a semana 14 foi de particular testagem, passando para 45.255 testes por 100 mil habitantes. Para que se perceba a dimensão, Portugal é dos que mais testou na referida semana, e mesmo assim ficou 13 vezes abaixo da testagem dinamarquesa.

Mas se a Dinamarca surpreende pela capacidade de testagem, será a positividade que, certamente, deixa satisfeitas as autoridades. Abaixo do 1% desde a segunda semana de janeiro, a positividade no país está em apenas 0,2% atualmente.

António Guimarães