Edificada há três décadas, a Cova da Moura (Amadora) é hoje considerada um dos mais perigosos bairros portugueses, uma imagem que associações e moradores procuram combater com torneios com polícias ou projectos artísticos, enquanto esperam pela requalificação da zona, escreve a Lusa.

O Alto da Cova da Moura começou a ser ocupado na década de 1960, mas foi depois do 25 de Abril e da chegada de imigrantes africanos, oriundos sobretudo de Cabo Verde, que a auto-construção se tornou massiva.

Hoje, estima-se que o número de moradores ultrapasse os seis mil, sessenta por cento dos quais de origem africana, e que dois terços trabalhem na construção civil, limpezas e restauração.

Segundo a Associação Moinho de Juventude, o analfabetismo ronda os dez por cento.

Apesar do ambiente solidário entre a população, os dados recolhidos na Cova da Moura tornaram-na alvo de preocupações: em 2001, um relatório do Moinho denunciava que 250 crianças passavam a primeira infância (até aos três anos) em «condições ultra precárias» e, desde então, várias fatalidades chegaram à comunicação social.

Nesse ano, Ângelo Semedo, de 17 anos, foi morto por um agente da PSP numa perseguição policial e, em 2002 e 2004, um morador de 21 anos e um polícia de 25 morreram em circunstâncias semelhantes.

O caso mais recente ocorreu em Fevereiro de 2005, quando o agente Ireneu Dinis, de 33 anos, não resistiu a ferimentos provocados por sete balas.

Por várias vezes a população reagiu aos confrontos - promoveu um abaixo-assinado para apoiar o polícia que baleou Ângelo, considerado um «criminoso» que denegria o bairro, e centenas de pessoas marcharam «pela paz» depois da morte de Ireneu Dinis.

O comandante da PSP da Amadora, António Pereira, acredita, porém, que se criou um «estigma que não corresponde à realidade» da Cova.

«Há alguma criminalidade, como em todo o lado, mas 99,9 por cento dos moradores são pessoas de bem, trabalham e estão integrados», defende, lembrando que foi criado um programa de policiamento de proximidade e que existem torneios onde polícias e habitantes jogam na mesma equipa.

O trabalho das associações inclui ainda aulas de informática, grupos de teatro e dança, um roteiro turístico pelos restaurantes africanos e um ateliê de música com o «rapper» Chullage.

Num bairro onde metade da população tem menos de vinte anos, a música, os graffiti e as tatuagens são imagens de referência, a par do vestuário da marca K-M (Kova da Moura), criada por jovens residentes.

Sem perder a esperança na anunciada reconversão urbanística, inserida no projecto governamental «Bairros Críticos», a Cova aguarda pelo início das obras, previsto para 2009.

«Temos passado à margem das preocupações dos políticos. Continua a haver um aproveitamento da imagem de degradação, porque aparecem por aqui, mas acabamos por não ver qualquer efeito», lamenta Eduardo Pontes, da direcção do Moinho.
Portugal Diário