A autoridade de saúde só terá concluída em 2021 a análise ao aumento do número de mortes e respetivas causas durante o período da pandemia, dado que é um processo complexo de analisar, revelou a diretora-geral da Saúde.

Em entrevista à agência Lusa, Graça Freitas explicou que há, de facto, uma sobremortalidade este ano, mas diz que os valores “têm de ser cuidadosamente estudados” e que o processo “é muito mais complexo do que se pensa”.

Daqui a uns meses nós saberemos. Primeiro teremos de cobrir um espectro grande no número de causas… não serve observar apenas um mês, pois pode ter havido fenómenos atípicos (…). Normalmente fazemos um ano inteiro civil e com desencontro de um ano”, afirmou.

Os últimos dados divulgados pelo INE indicam que, desde a chegada da pandemia a Portugal (inicio de março) até dia 18 de outubro morreram 72.519 pessoas, mais 7.396 mortes do que a média do período homólogo dos cinco anos anteriores, sendo a covid-19 responsável por 2.198 óbitos, ou seja, 27,5% do total do aumento da mortalidade.

Graça Freitas reconhece esse aumento do número de mortes este ano, mas sublinha que a mortalidade tem duas dimensões – a numérica e as causas de morte – e acrescenta que a Direção-Geral da Saúde (DGS) está “a fazer essas análises preliminares, com sistemas semiautomáticos de codificação, com codificadoras que estão desviadas para fazerem essa avaliação”.

São avaliações muito preliminares, muito pouco consolidadas e não nos sentimos à vontade para as divulgar. São apenas pistas, indicações para podermos aprofundar o conhecimento”, acrescentou.

A responsável lembrou que o processo “é demorado, requer pessoas muito treinadas” que, por vezes, “têm de confirmar junto dos médicos a sequência dos acontecimentos que levaram à morte”.

É um processo sofisticado e complexo. Neste momento temos apenas pistas e indicações que nos levam a aprofundar determinados aspetos. Só saberemos exatamente o que aconteceu no ano de 2020 daqui a uns meses, quando todo o ano de 2020 tiver sido estudado em termos de causas de morte… coisa diferente são os números e a média.”

No mês passado, o Conselho Nacional de Saúde (CNS) veio dizer que a suspensão dos cuidados de saúde presenciais por causa da covid-19 durou tempo demais e que a demora no reagendamento pode trazer consequências importantes na saúde da população, lembrando o excesso de mortalidade registado sobretudo em março e abril.

Num documento de reflexão em que analisa a resposta de Portugal à pandemia de covid-19, este órgão consultivo do Governo apontou o excesso de mortalidade registado em março e abril, sobretudo associado a pessoas com idade superior a 65 anos, sublinhando que “é três a cinco vezes superior ao explicado pelas mortes por covid-19 reportadas oficialmente”.

Excesso de informação ajuda à fadiga pandémica

A diretora-geral da Saúde reconhece que o facto de haver muitos emissores de informação sobre a covid-19, desde os media, aos peritos, passando pelas redes sociais, pode confundir as mensagens e baralhar o público, ajudando à fadiga pandémica.

Neste momento a informação não é a DGS [a liderar], por muito estranho que isto possa parecer… nem é de todo apenas o setor técnico. (…) Nenhuma de nós aqui fala de como é que se pilota um avião, mas toda a gente sabe como é que se trata a pandemia”, afirmou.

Graça Freitas reconhece que no início da pandemia “foi mais simples” comunicar, pois a DGS e o setor da saúde “é que sabiam dos planos de contingência e das medidas a tomar e [ainda porque] as pessoas estavam ávidas de ouvir essa informação e ouviam”.

Há a comunicação técnica e a institucional, que é sobretudo passada pela DGS, pelo INSA [Instituto Nacional de Saúde], pelo Infarmed [Instituto Nacional do Medicamento e Produtos de Saúde]. (…) Depois temos a informação política, a informação dos media, das pessoas que têm o maior tempo de antena de todas, que são os jornalistas (…) e, depois, temos os vossos convidados, os peritos e não peritos, todas as pessoas que opinam, os negacionistas, os catastrofistas, os de todos os quadrantes que se tornaram lideres de opinião”, exemplificou.

Neste processo de comunicação, que Graça Freitas defende que deve ser estudado depois da pandemia, há ainda lugar para as redes sociais.

Portanto, quando se fala em comunicação, (…) fico abismada como é que se diz que é a DGS que não comunicou bem, porque a DGS é apenas um dos elementos desta interação de mensagens que são multivariadas. Se ouvirmos 24 horas de comunicação (…) já nem falo de canais estrangeiros, se formos aos media tradicionais (…) é uma multiplicidade de mensagens, umas parecidas outras menos parecidas, umas ditas da mesma maneira, noutras não usamos todos as mesmas palavras, eu calculo que o cidadão normal, aquele para quem nós supostamente estamos a comunicar, em determinados dias fique de facto baralhado”, observou.

“Mas isso deve-se ao facto de ter muitas mensagens ao mesmo tempo… é difícil nós abarcarmos a quantidade de mensagens, isto tornou-se o tema dominante”, acrescentou, sublinhando que este excesso de informação ajuda à fadiga pandémica.

A fadiga pandémica tem sido muito falada porque ela existe. Não estamos habituados a períodos tão longos de crise coletiva com este impacto."

Neste momento, frisou, “a fadiga pandémica advém de um coletivo de pessoas, que praticamente é o planeta inteiro, submetido a uma pressão enorme, que é a pressão da pandemia e que nos levou a todos, em diferentes fases, a receber informação massiva, que cansa”.

[Para combater a fadiga pandémica] a primeira coisa que temos de dar às pessoas é uma perspetiva de futuro, mais tarde ou mais cedo vai acabar, nós não sabemos é quando. (…) Temos de ter esperança de que as coisas vão melhorar. E as pessoas têm de ter confiança nos seus sistemas de saúde e social. E depois é pensar que está nas nossas mãos, não há outro remédio, contrariar o vírus. Não podemos é ser tudo ou nada, oscilar entre o medo e o confinamento total e a seguir acordar a achar que já não é preciso fazer nada."

Sobre o que a DGS tem feito para comunicar a pandemia, Graça Freitas considerou algumas críticas injustas e lembrou que “não são só as conferências de imprensa”.

Nós não fazemos apenas as conferências de imprensa, nós fazemos muito mais coisas. Pode dizer que essas coisas se perdem, se calhar… mas nós fizemos imensas campanhas. (…) Tivemos e temos intervenções nas redes sociais permanentes, visitam-nos dois a três milhões de pessoas, o nosso ‘site’ crasha [por excesso de acessos]”, exemplificou.

Quanto aos vários emissores de comunicação sobre a pandemia – institucional, político, peritos, media e redes sociais – Graça Freitas disse que todos cometem os mesmos alegados erros.

Ainda não vi um que não tenha tido avanços e recuos, dias mais claros e dias menos claros. Porquê? Porque nós continuamos a lidar com incerteza a nível nacional e internacional. Não é completamente preto ou branco, como com outras situações que nós conhecemos bem, há aqui um terreno cinzento que às vezes não é fácil de explicar às pessoas.”

Sintomas comuns como obstrução nasal pouco específicos para pedir teste

O corrimento ou obstrução nasal são sintomas muito comuns e pouco específicos para serem decisivos no pedido de teste à covid-19, indicou Graça Freitas.

Às vezes é difícil equilibrar a sensibilidade com a especificidade. São sintomas muito comuns, que são detetáveis em muita gente e que para conseguir diagnosticar um caso de covid teria de se rastrear muita gente”, afirmou.

Confrontada com a posição de investigadores da Escola Nacional de Saúde Pública que defendem que sintomas ligeiros como obstrução ou corrimento nasal, dor de garganta e dores musculares devem ser valorizados e considerados suspeitos para a realização de testes à covid-19, Graça Freitas defende que se deve apostar nos sintomas que têm maior probabilidade de estar relacionados com a doença.

Esses sintomas podem aparecer com a covid-19, é óbvio que sim, mas são sintomas tão pouco específicos, são tão comuns no nosso dia-a-dia (…). Nós também temos de ter em conta a probabilidade de um sintoma poder estar ou não ligado a uma determinada doença”, apontou.

A responsável explicou ainda que o que as autoridades estão a fazer, internacionalmente, é tentar encontrar o conjunto de sintomas mais específico da covid-19, para que quando procuram num conjunto de pessoas terem maior probabilidade de acertar naqueles parâmetros, nomeadamente, perda do olfato ou do sentido do paladar ou até ter o paladar com algum tipo de distorção.

Se isso acontece, a probabilidade de ser covid-19 é muito grande. (…) Se for um sintoma mais corrente é muito sensível e implica um rastreio e um diagnóstico diferencial muito grande”, acrescentou.

Graça Freitas explicou que Portugal está a seguir a definição de caso internacional e que para esta definição são usados como critérios clínicos a tosse, ou agravamento do padrão habitual, a febre (igual ou superior a 38 graus), dificuldade respiratória, anosmia (perda de olfato) de início súbito e disgeusia ou ageusia (alteração do paladar ou perda de paladar) de início súbito.

Nós seguimos as indicações internacionais porquê? Porque elas baseiam-se em análises de muitos casos, em muitos estudos e na probabilidade de de facto acertarmos no diagnóstico perante um determinado número de sintomas”, sublinhou.

Quanto às críticas da academia relativamente aos dados fornecidos aos investigadores, que dizem ter identificado vários erros, inconsistências e omissões nos registos, Graça Freitas diz que a DGS reconhece que não são perfeitos, mas diz que quem tempo o tempo e deve limpar essas bases de dados é precisamente a academia.

Queremos é que os médicos reportem e que os laboratórios reportem, mas este sistema tem impurezas. Quem é que tem de limpar essas impurezas? Os académicos, a quem damos as bases de dados com toda a transparência”, disse.

Um estudo de uma equipa de investigadores da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto identificou vários erros, inconsistências e omissões nos registos da DGS.

Para terem uma noção, no nosso sistema já entraram, positivos e negativos, três milhões e 200 mil notificações. Se me disser, não devia aparecer nenhum homem grávido, eu respondo, pois não, mas em 3,2 milhões de notificações houve um médico que se enganou e pôs a cruz no homem e na gravidez. Já podíamos ter limpado essa variável, podíamos, mas para efeitos de vigilância epidemiológica ela não nos faz grande diferença”, contou.

/ CM