Entre 1 de março e 22 de abril, podem ter morrido mais 4.000 pessoas do que o habitual para esta altura do ano, um valor cinco vezes superior ao explicado pelas mortes atribuídas à Covid-19, e também mais preocupante que o aumento da mortalidade apontado até agora para o mesmo período. A informação faz parte de um estudo que vai ser publicado, ainda esta terça-feira, na Acta Médica Portuguesa, a revista científica da Ordem dos Médicos.

O trabalho alerta que o excesso de mortalidade de março e de abril não pode ser comparado com fevereiro nem com os anos homólogos, mas deve, antes, ter como referência os meses de férias, em que há uma redução generalizada de atividade e circulação. Tendo isso em conta, a mortalidade por todas as causas aumentou nos últimos dois meses, comparativamente aos anos anteriores. Porém, a subida no número de mortes não é explicada pelos óbitos reportados de Covid-19. Em causa, para poderão estar mortes causadas pelo vírus, mas não identificadas, e óbitos na sequência da diminuição do acesso a cuidados de saúde.

No que diz respeito a esses mesmos cuidados, ou à falta deles, o estudo avança alguns números preocupantes, que podem justificar o aumento do número de óbitos em Portugal: em março e abril, nas urgências, houve menos 191.666 doentes com pulseira vermelha, menos 30.159 com pulseira laranja e menos 160.736 com pulseira amarela. 

Miguel Guimarães, o bastonário da Ordem dos Médicos tem a certeza que, esta, é apenas a confirmação de uma previsão antiga.

Desde muito cedo que manifestámos a nossa preocupação com a forma como os serviços de saúde estavam a reorganizar-se, pelo risco de deixar outros doentes fora da resposta, com patologias que precisam de acesso em tempo útil a cuidados de saúde e que não se compadecem com esperar pelo fim da pandemia. O milagre de Portugal de que tanto se tem falado não nos pode deixar confortáveis se não conseguirmos melhorar a resposta em todas as frentes"

Um dos autores do trabalho científico, António Vaz Carneiro, alerta, da mesma forma que o bastonário, que o Serviço Nacional de Saúde tem de passar da "gestão de risco de infeção Covid para uma gestão de risco global, para evitar este excesso dramático da mortalidade".

De destacar que o aumento do número de mortes verificado se encontra associado, sobretudo, aos grupos etários mais idosos, ou seja, pessoas com idade superior a 65 anos.

Emanuel Monteiro