A Direção-Geral da Saúde recomenda a vacinação contra a covid-19 a todos os jovens dos 12 aos 15 anos, sem necessidade de indicação médica.

A atualização sobre a vacinação desta faixa etária, que até esta terça-feira era prioritária apenas para jovens com comorbilidades, foi feita pela diretora-geral Graça Freitas.

No total, está em causa um universo de 400 mil jovens que poderão ser vacinados. Contudo, de acordo com a diretora-geral, ainda não há data para o início da inoculação desta faixa etária, uma vez que esta é apenas uma recomendação técnica.

 O caminho da vacinação universal para estes jovens está aberto. Depois vem a decisão logística", adiantou, acrescentando que "Se (a vacinação) não for exatamente antes do início do ano letivo poderá ser nos dias a seguir. O impacto não será grande no ano letivo e na saúde das crianças".

Graça Freitas explicou que a decisão surge depois de analisados “novos dados disponibilizados nos últimos dias”, em concreto os impactos registados nos “mais de 15 milhões adolescentes vacinados nos Estados Unidos e na União Europeia” que revelaram ser “extremamente rarosos casos de miocardites e pericardites.

Recorde-se que no passado dia 30 de julho, quando foi anunciada a vacinação para esta faixa etária, a DGS disse que uma nova recomendação seria anunciada quando estivessem disponíveis novos dados adicionais sobre os efeitos da vacina.

Graça Freitas indicou, então, que em alguns dos países onde esta vacinação é mais avançada foram detetados alguns casos de miocardite ligeira, sendo que nenhum deles na União Europeia.

A diretora-geral da saúde disse, por isso, que foi por um “princípio de cautela” que a DGS optou por manter a decisão de uma vacinação universal entre os 12 e os 15 anos “em ‘stand by’”.

Há dez dias faltava-nos informação da União Europeia", esclareceu Graça Freitas.

Já ontem, o secretário de Estado Adjunto e da Saúde, Lacerda Sales, disse terem surgido novos estudos durante o fim de semana que garantiam não haver risco para as crianças e que, nesse sentido, a decisão da DGS estaria "para breve".

Também o Presidente da República Marcelo insistiu na necessidade de vacinar os menores, considerando que "se não há razões decisivas de saúde pública, há de natureza educativa".

Terceira dose? Ainda não há dados suficientes 

Já sobre uma eventual terceira dose da vacina contra a covid-19, o professor Luís Graça, membro da Comissão Técnica de Vacinação Covid-19, reitera que as autoridades esperam mais dados para tomar uma decisão.

Contudo, reitera que" a eficácia da vacina não pode ser medida com base nos testes serológicos".

Segundo Luís Graça, existe “uma grande unanimidade” nas diferentes agências que se pronunciam sobre as vacinas em relação à inadequação de testes serológicos para decisões sobre a vacinação.

“Os testes serológicos não estão recomendados em Portugal nem nos outros países para ser base para a tomada de decisões sobre o estado de proteção conferido pelas vacinas contra a covid-19”, disse, sustentando que “a eficácia e a efetividade das vacinas não podem ser medidas exclusivamente” por estes testes.

Um estudo realizado por investigadores do Centro Hospitalar Universitário de Coimbra revelou que a proteção contra a covid-19 cai três meses após a vacinação completa, tendo levado vários especialistas a defender a realização de testes serológicos junto de grupos populacionais que foram vacinados há mais tempo, como foi o caso dos professores e funcionários das escolas.

Luís Graça lembrou que os ensaios clínicos que foram a base da autorização da utilização das vacinas não se basearam em serologia, mas sim na eficácia das vacinas em prevenir infeções e prevenir a doença causada por essa infeção em pessoas vacinadas.

“Quer em Portugal quer em outros países há uma monitorização contínua da efetividade das vacinas que vão sendo administradas na população para verificar se existe uma perda de efetividade, que se mede com o aumento do número de infeções, e se isso deve condicionar medidas para reforçar a proteção de grupos populacionais onde esta efetividade possa estar a decair”, vincou Luís Graça.

DGS não esteve "surda nem cega" 

A diretora-geral da Saúde afirmou que a DGS não esteve “surda nem cega” ao que foi dito sobre a vacinação dos adolescentes, mas salientou que esta decisão tinha de basear-se num parecer técnico.

Graça Freitas respondia a questões levantadas hoje na conferência de imprensa em que recomendou a vacinação universal das crianças e jovens entre os 12 e os 15 anos, sobre as várias opiniões dadas ao longo dos últimos dias a defenderem esta medida, e se a decisão foi tomada apenas com critérios científicos ou se teve também uma percentagem de decisão política.

“Obviamente, não estivemos surdos nem cegos a tudo o que foi sendo dito, mas a decisão foi baseada num parecer da Comissão Técnica de Vacinação sobre o qual a Direção-Geral de Saúde não tem a mínima intervenção”, salientou.

Quanto às “variadíssimas opiniões” que têm acontecido sobre a pandemia, Graça Freitas afirmou que “a diversidade de opiniões é um bem em si”: “Estamos numa democracia. As pessoas que têm informação privilegiada ou que têm a sua opinião podem e devem dá-la”.

E, sustentou, a DGS ouve as opiniões e o que se passa, “não está alheada das circunstâncias”, mas centra-se nos dados que tem de “forma objetiva”, sendo para isso que tem comissões técnicas independentes.

A Direção-Geral da Saúde tem um grupo interno que também trabalha a área das vacinas e das doenças infecciosas e se a recomendação da Comissão Técnica de Vacinação “for bem sustentada, bem baseada como tem sido”, a DGS acata essa recomendação e foi o que aconteceu desta vez, explicou.

No dia 30 de julho, quando a DGS emitiu o primeiro comunicado, considerou, ouvidos os pediatras e a Comissão Técnica de Vacinação, que produziu um parecer, “não havia ainda a totalidade dos dados que dessem segurança para recomendar de forma universal a vacinação desta faixa etária”.

Referiu ainda que quando se abre o acesso a todos à vacina de uma faixa etária, “não é uma avaliação personalizada entre um médico e um doente, é uma decisão universal”.

“Nós temos que estar certos à data, com o que sabemos, com os dados que temos, que os benefícios superam os riscos e que esses riscos são conhecidos, são controlados, são mínimos, têm um caráter e uma evolução benigna e são extremamente raros e, há 10 dias, faltava-nos alguma informação, nomeadamente gerada na União Europeia”, disse, ressalvando que os EUA também “produz ótimos dados”.

De qualquer maneira, a DGS preferiu aguardar “uns dias” para que saíssem mais dados para consolidar a sua decisão.

Presente na conferência, Luís Graça, membro da Comissão Técnica de Vacinação Covid-19, afirmou que Portugal está num grupo de países que teve “uma atitude mais prudente” de aguardar por mais resultados antes de alargar esta recomendação.

O especialista sublinhou que é consensual que “o maior benefício” que a população dos 12 aos 15 anos recebe da vacinação é em termos do seu bem-estar, de saúde mental, e do seu bem-estar educacional.

“Isto é algo que é importante e tem de ser valorizado também no processo de tomada de decisão”, defendeu Luís Graça, considerando que “há o momento adequado para a tomada de decisões”, para garantir que são feitas “com prudência” e que podem manter a confiança da população portuguesa no processo da vacinação.

Rafaela Laja / (atualizado às 14:41)