O médico cirurgião Eduardo Barroso que dirigiu o Centro Hepato-Bilio-Pancreático e de Transplantação (CHBPT) disse hoje à Lusa que transformar o Hospital Curry Cabral, em Lisboa, é um erro trágico lamentando que os especialistas não tenham sido consultados.

"Esta oferta do Curry Cabral, em Lisboa, para ser um 'hospital covid' na minha opinião é um erro trágico, porque é um hospital que tem uma oferta quase única", disse à Lusa Eduardo Barroso.

O cirurgião afirmou que "de todos" os hospitais da Grande Lisboa, o Curry Cabral deveria ser o primeiro fora da lista "por causa da especificidade da grande unidade de transplantação, que é a maior do país". 

"Porque é que o hospital Curry Cabral é um 'hospital covid'? Porquê? Porque tem um serviço de infeciologia com 16 ou 20 camas para tratar esses doentes? Toda a gente sabe que a haver uma curva exponencial de doentes deste tipo são precisas centenas senão milhares de camas. O facto de haver um hospital só dedicado ao covid não quer dizer que os outros fiquem livres de covid", afirma Eduardo Barroso. 

O médico, de 71 anos que atualmente se encontra na Fundação Champalimaud, recorda que o Hospital Curry Cabral tem também uma unidade de tratamento público de cancro do fígado, do pâncreas e das vias biliares, onde se fazem 90% de intervenções correspondentes ao centro e sul do país. 

"O bloco operatório do Curry Cabral nunca poderia ser encerrado para a cirurgia. Nunca. Só o facto de haver esse bloco deveria logo proteger o Curry Cabral e pondo num prato da balança a radiologia de intervenção, o bloco operatório, os transplantados, e a cirurgia do cancro do fígado, do pâncreas e no outro prato da balança aumentar a capacidade do Curry Cabral para tratar os doentes de covid. O prato da balança caía a favor para aquilo a que é destinado o Curry Cabral", defendeu.

Na opinião de Eduardo Barroso os especialistas deviam ter sido ouvidos para que fosse agilizada a possibilidade de serem tratados com eficiência os doentes oncológicos ou os transplantados ou mesmo aqueles que podem vir a precisar de um transplante "nesta altura de grande risco".

"Não vão deixar de morrer doentes que precisam de um transplante urgente e alguns transplantes podiam fazer-se perfeitamente, mas é preciso responder-se aos milhares que já estão feitos e que precisam muitas vezes de ser internados. Era possível fazer esse circuito no Curry Cabral? Sim. Bastava ter ouvido as pessoas responsáveis pelo transplante no Curry Cabral. Têm de ouvir os peritos. Quando é que foram ouvidos", questionou. 

"Eu estou muito preocupado com o covid, como qualquer cidadão, mas a minha vida foi tratar sobretudo doentes com cancro, integrado em equipas multidisciplinares e há doentes com cancro que não podem esperar que passe o surto para obterem uma chance de sobreviver", sublinha. 

Para o especialista a decisão deveria ter sido publicitada e preparada, reunindo especialistas para se organizar, sugere, uma "Comissão de Crise Nacional" 

"Ao menos que se tivessem ouvido os especialistas destes tratamentos e que eu saiba não ouviram. Ninguém me ouviu a mim. Eu dediquei 30 a 40 anos da minha vida a estes doentes e ninguém me ouviu a mim nem a outros responsáveis", sublinhou Eduardo Barroso acrescentado que provavelmente vai ser preciso adaptar grandes espaços públicos como se está a fazer em Nova Iorque, porque o Curry Cabral "não vai resolver o problema de todos os doentes que vão precisar de internamento por covid".

"Além dos transplantados, há aqui um abandono dos doentes com cancro, por exemplo, que me preocupa muito e não sei se ter um hospital geral só para o covid é correta porque não vai haver no mundo um hospital livre de covid", diz o médico.

Para Eduardo Barroso começa a verificar-se também neste momento uma 'décalage' no número de mortos "que vai ter de ser explicada" porque, refere, há doentes que não vão aos hospitais porque têm medo, como os doentes cardíacos e outros.

"Temos de concentrar todos os nossos esforços no covid? Não. O que temos é de concentrar é quase todos os esforços no covid, porque há outros doentes que são tão urgentes como o covid mas que não podem ser abandonados. Não é legítimo abandonar esses doentes. Houve aqui uma falta de coordenação muito grande. 'Eles' dizem assim: 'não queremos arriscar porque pode ser perigoso' mas a vida está perigosa para todos, até na rua", conclui Eduardo Barroso.  

Na segunda-feira, o Centro Hospitalar Universitário de Lisboa Central esclareceu que a transferência do transplante hepático do hospital Curry Cabral para Santa Marta decorre da necessidade de garantir aos doentes “a máxima segurança” durante a pandemia covid-19.

O Santa Marta será "um hospital livre de covid-19, de forma a nele concentrar os doentes, que, como os transplantados, exigem cuidados especiais”, afirma o CHULC num esclarecimento enviado à agência Lusa, recordando que este “é o único centro no país a realizar transplante pulmonar” e onde ocorre também transplante cardíaco.

Entretanto o Grupo de Transplantados do Hospital Curry Cabral lançou uma petição pela manutenção dos serviços na unidade hospitalar.

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