Ninguém estava preparado para o encerramento das escolas em março. Escolas, alunos, pais, professores, todos tiveram que improvisar. "Os professores foram autênticos vencedores que, em tempo recorde, fizeram uma mudança radical na sua forma de ensinar", considera Sónia Moreira, professora primária e vencedora do Global Teacher Prize Portugal 2020.

"Esta é uma classe muito envelhecida, são na sua maioria profissionais muito fortes na sua atuação pedagógica, mas muito conservadores nos seus métodos." Por isso, esta mudança foi um desafio enorme. De então para cá, tem havido um esforço enorme na formação para munir os professores de "ferramentas digitais e pedagógicas" para se adaptarem aos novos tempos. 

Agora que vai começar mais uma etapa ensino à distância, Sónia Moreira, que é também a responsável pelo projeto Coopera, de formação de professores, não tem dúvidas de que estamos todos mais preparados.

Estas são as dicas que dá aos professores que a partir de segunda-feira vão embarcar "nesta grande aventura" do ensino á distância:

1 - Os afetos antes da matéria

Antes de mais nada, diz Sónia Moreira, "não nos podemos esquecer que estamos todos em isolamento. Os seres humanos precisam de afetos e as crianças e jovens precisam de interação, quer com os seus pares quer com os professores". Isto é muito importante nestes primeiros dias mas também ao longo de todo o período que durar o ensino à distância. "Cada aluno é um aluno, que tem necessidade de um apoio diferenciado e personalizado." 

2 - Estamos todos ligados?

Os professores devem verificar se os alunos têm todos os instrumentos tecnológicos e o acesso à internet para acompanhar o ensino à distância. "Isto é fundamental", diz Sónia Moreira, sublinhando que as escolas, o Ministério da Educação e as autarquias têm feito um esforço enorme para que ninguém fique de fora. "É preciso garantir que está tudo operacional e que estamos todos ligados, para que não se crie um fosso de desigualdade. Essa é a nossa grande preocupação. Queremos trabalhar com todos."

3 - Tirar o maior partido das plataformas digitais

No primeiro confinamento, as escolas e os professores foram apanhados desprevenidos. Mas, entretanto, já houve muita formação e tempo para experimentar e explorar as várias plataformas digitais. "Agora que os agrupamentos já escolheram a sua plataforma, seja o Classroom, o Google Meet ou outra, é importante que os professores tirem o maior partido destas ferramentas. Agora que já se apropriaram destas plataformas, é preciso dar o salto do digital para o pedagógico."

4 - Professores, organizem-se!

"Os conselhos disciplinares e as equipas educativas têm que se organizar e planificar muito bem o seu trabalho", avisa Sónia Moreira. Mais do que nunca, é importante que os professores estejam em contacto e trabalhem em conjunto para planear "as atividades que vão desenvolver com os alunos e pelos alunos". Isto vale para os horários, onde é preciso respeitar os tempos síncronos e assíncronos, lembrando que os tempos de atenção online são mais reduzidos, mas também para a coordenação dos trabalhos de casa das várias disciplinas, para que não sejam excessivos.

5- As aulas à distância não são iguais às aulas na escola

"Não pode fazer-se uma transferência das aulas na sala para as aulas à distância, isso não funciona", alerta Sónia Moreira. "Tem que haver uma mudança de paradigma, uma metodologia diferente. Os professores, em conjunto, vão certamente ter ideias criativas e descobrir formas de comunicar melhor com os alunos. Por exemplo, as aulas síncronas devem ter um momento de surpresa", devem ser cativantes para que "os alunos não entrem numa rotina". Não nos podemos esquecer que é muito mais difícil prender a atenção de um aluno à distância.

6 - Cada um na sua casa, mas a trabalhar em grupo

Depois das aulas síncronas, é nos momentos assíncronos que os alunos vão receber a documentação e apropriar-se da matéria. Estes momentos podem ser mais complicados para os alunos, por isso é importante estimulá-los, atribuindo tarefas diferentes e propondo trabalhos em grupo. Sobretudo neste momento, em que cada aluno está isolado.

"As plataformas digitem permitem que os alunos trabalhem em pequenos grupos e isso pode ser muito interessante, eles discutem ideias, esclarecem dúvidas uns dos outros", explica Sónia Moreira. "Os professores podem desenvolver as mentorias, pedindo aos melhores alunos, aqueles que já terminaram os seus trabalhos, para ajudarem os alunos com dificuldades, o que é algo que costuma resultar muito bem." 

7 - Objetividade e clareza

"Os professores devem ser explícitos e sucintos nas interações que estabelecem", diz a professora Sónia Moreira. "Os alunos têm de saber as regras e conhecer os objetivos, têm de saber o que têm de fazer e onde é preciso chegar."

8 - Comunicar é preciso

Não é uma tarefa fácil, porque os professores têm muitos alunos e muito trabalho, mas é muito importante que o professor dê sempre feedback ao aluno quando ele coloca uma dúvida ou entrega um trabalho. Os professores podem ir fazendo lembretes para as tarefas atribuídas para que os alunos mais distraídos não se percam, devem estabelecer um momento coletivo para o esclarecimento de dúvidas e estar disponíveis para responder às dúvidas individuais.

"E dar sempre um feedback, isso é muito importante", diz Sofia Moreira, seja só para confirmar que o envio dos trabalhos foi bem sucedido, seja para comentar o trabalho. "E o feedback deve ser sempre positivo, é aquilo a que chamamos a técnica sandwich: começamos por elogiar o trabalho e o esforço feito, depois fazemos os reparos necessários e terminamos com um incentivo a que o aluno faça ainda melhor." Este feedback é muito importante para encurtar as distâncias.

Da mesma forma, "também é importante receber feedback dos alunos", diz Sónia Moreira. "Devemos ouvir os alunos, para que eles nos digam o que está a correr bem e mal, quais as dificuldades que sentem e o que acham que pode ser melhorado." 

9 - Valorizar a qualidade e não a quantidade

"Aprendizagens essenciais" é uma das expressões mais vezes repetida nos últimos meses. Este é o momento para os professores se centrarem no que é importante.

"Tudo vai depender dos recursos que estiverem disponíveis", diz Sónia Moreira, referindo-se não só aos recursos tecnológicos mas também aos recursos dos professores, dos alunos e até dos pais (que têm um papel muito mais ativo no ensino à distância). "Cada professor tem de avaliar o que pode fazer com cada turma e dar o seu melhor, como dá sempre. Sabemos que nada substitui o ensino presencial mas vamos trabalhar para que corra o melhor possível."

10 - O professor-orientador

A modalidade do ensino à distância é mais exigente para os alunos, que devem ser cada vez mais autónomos, mas também para os professores, que estando longe têm de estar sempre perto. "Os alunos precisam de sentir que os professores estão presentes e disponíveis para orientar todo o processo de aprendizagem", diz Sónia Moreira. "É uma grande desafio. Os professores não podem estar ligados 24 horas por dia, têm as suas vidas. Isto exige muita organização mas é possível."

Maria João Caetano