É um dilema pelo qual estão a passar muitas famílias neste momento. Levo, ou não, os meus filhos para a creche e pré-escolar? É a questão que se impõe. É quase a pergunta de um milhão de dólares e muitos estão perante o desafio de tomarem uma decisão. Mas apesar das dúvidas se sobreporem às respostas, as orientações médicas e do foro psicológico são sempre uma ajuda.

O certo é que ninguém pode decidir por nós e por isso mesmo, nesta situação, cada família é mesmo é um caso único.

“A questão agora coloca-se ao nível do coletivo. O risco não é diretamente para as crianças. Em cada família tem que se avaliar se há alguém doente ou alguém mais idoso que venha a correr riscos e aí ponderar se vão levar, ou não, os seus filhos para o ambiente escolar, em contacto permanente com outras pessoas que não fazem parte do nosso ambiente controlado”, afirmou o médico Ricardo Mexia em declarações à TVI24.

No entanto, na hora de decidir, e tendo em conta este risco físico acrescido, a psicóloga Filipa Jardim da Silva aconselha os pais a pararem para pensar e a não tomarem nenhuma decisão precipitada, de modo a evitar ainda mais ansiedade no seio familiar.

“Ganhamos todos em sermos mais preventivos do que reativos. São muitos os riscos que estamos a correr. Os pais precisam de informação concreta de forma a protegerem os seus filhos, precisam de boas premissas por parte das creches e de saber o que é que os estabelecimentos de ensino estão a fazer para se adaptarem a esta nova realidade”, sublinhou à TVI24.

As decisões chave

E ao olhar para o contexto atual não se pode esquecer nenhum cenário. O médico Ricardo Mexia alerta que “as crianças mais pequenas terão dificuldade em cumprir as regras que impedem a propagação do novo coronavírus. É mais difícil o cumprimento da distância social nestas idades, porque são muito dependentes, bem como a lavagem frequente das mãos”.

Isso mesmo tiveram em conta Fernando Cotrim e Cecília Silva quando tomaram, em conjunto, a decisão de que o seu filho, de 2 anos, só volta para a creche em setembro.

Dizem-se “apreensivos” com tudo o que está a acontecer e não vão arriscar.

“Por ser criança e não cumprir as medidas de segurança pode ficar doente, mesmo que assintomático, e assim transmitir a doença de forma silenciosa aos restantes membros da família”.

Já a realidade de Diana Ferreira vai ser outra. Foi mãe pela segunda vez no final de março, mas o filho mais velho, de quase 4 anos, vai para a escola já no dia 1 de junho.

“Apesar de estar de licença de maternidade, decidi que o meu filho voltava à escola já em junho. O meu marido vai tentar abrir o restaurante e fico sozinha com uma criança e um bebé, sendo que o mais velho tem um transtorno de processamento sensorial e exige muita atenção e não tenho qualquer rede familiar em Lisboa. Tenho receio, como é óbvio, mas é estar a adiar o inevitável”, afirmou à TVI24.

Noutros casos, as dúvidas continuam a pairar. É o caso de Ana Margarida Santos, mãe de uma menina de 11 meses.

“Há muita informação a circular. Ainda não consegui chegar a uma conclusão, nem sei quando serei capaz de tomar uma decisão no curto prazo”.

Regresso pode ser mais difícil que o habitual

E a fase dos desafios não fica por aqui. Tomada a decisão, os pais são confrontados com outro: o regresso em si, uma situação para a qual já se estão a mentalizar.

“Imagino que o regresso vá ser difícil. Estar em casa com os pais é sempre mais apetecível. De todos com quem tenho falado, nenhum quer voltar. Mas creio que uma semana bastará para voltar a ser rotineiro”, afirmou Diana.

“Todos os pais vão precisar de apoio nos próximos meses. Nesta fase, as pequenas alterações no seio familiar poderão criar alguma agitação e o regresso aos estabelecimentos de ensino não é exceção”, sublinhou a psicóloga à TVI24.

Um apoio que deve “estender-se” quanto maior for a ausência da escola.

“O regresso será complicado como sempre acontece após as férias de Verão. Pode ser mais difícil a separação por não ser hábito estar com o pai e a mãe em simultâneo durante tanto tempo seguido”, lembrou Cecília Silva, cujo filho ficará mais de quatro meses sem ir à escola.

Perante este cenário, a psicóloga avisa que, “as crianças podem fazer recusas explícitas, mas também podem apenas fazer recusas simbólicas, como deixar de comer, começarem a ter pesadelos. Estes são marcadores que mostram sofrimento e os pais vão ter o desafio de lidar com isto”.

E é por isso que, na sua opinião, "é importante, não só que a formação dos educadores passe pelas questões da Covid-19 em si, mas também pela forma como vão lidar com estas mudanças”.

A iminência do regresso

É certo que o regresso está perto e esse regresso pode e deve ser antecipado à criança.

Diana Ferreira, mãe do pequeno Artur, lembra que “o convívio com as outras crianças, bem como todas as atividades e as aulas de ginástica contribuem para o seu bem-estar”. Frisa ainda que, “ao longo deste tempo, a educadora mandou algumas sugestões de atividades e chamadas de vídeo”, mas que “ele recusou sempre”.

Esta situação tende a preocupar os pais, mas a psicóloga Filipa Jardim da Silva desmistifica a atitude.

“É possível que muitas crianças expressem alguma zanga com os educadores por não perceberem a situação que se vive”, enalteceu a psicóloga. E isso explica-se "porque muitas crianças podem desenvolver sentimentos de insegurança face ao corte abrupto de relações, uma vez que muitas não tiveram oportunidade de se despedirem, outras apenas mantiveram contactos virtuais ao longo destes meses”.

Outro dos fatores que pode gerar alguma agitação é o facto do desenvolvimento social da criança "ser feito através da expressão social e facial”, algo que agora está mais distante, uma vez que as máscaras e o uso de luvas vão fazer parte do dia a dia.

Qualquer que seja a sua decisão, o contexto atual não nos permite grandes planos e tal como nos diz o médico Ricardo Mexia, “isso é uma questão que tem de se avaliar a cada momento, uma vez que a solução agora passa, por uma vacina ou pela imunidade de grupo”.

Mas não se esqueça: o Governo definiu um período de transição para a abertura das creches, entre 18 de maio e 1 de junho, para que as famílias possam deixar as crianças apenas quando “ganharem confiança” sem perderem o apoio atribuído às famílias. 

O regresso ao pré-escolar está marcado para o dia 1 de junho.

Trabalhadores testados e limpezas reforçadas

No âmbito de um programa nacional de rastreio, cerca de 29 mil trabalhadores de mais de duas mil creches já estão a ser testados ao novo coronavírus, mas a Direção Geral de Saúde já admitiu alargar os testes em função das necessidades.

Segundo as orientações da autoridade de saúde, todos estão obrigados ao uso de máscaras ou viseiras, exceto as crianças com menos de seis anos.

O Decreto-Lei (DL) 20/2020 diz que “é obrigatório o uso de máscaras ou viseiras para o acesso ou permanência nos espaços e estabelecimentos comerciais e de prestação de serviços, nos serviços e edifícios de atendimento ao público e nos estabelecimentos de ensino e creches pelos funcionários docentes e não docentes e pelos alunos maiores de seis anos”.

Ao mesmo tempo, “é muito importante, sem grande necessidade de mecanismos extraordinários, o reforço da limpeza de equipamentos e superfícies”, frisou a responsável.

No entanto, ainda faltam conhecer mais medidas de segurança que as creches terão de adotar.

Lara Ferin