As máscaras de pano parecem ter os dias contados. Perante a ameaça das novas variantes do coronavírus, que são mais contagiantes, os especialistas são unânimes na necessidade de reforçar as medidas de proteção. Alemanha, Áustria e França já proibiram o uso de máscaras de pano na rua. Em Portugal, o Ministério da Saúde questionou a Direção-Geral da Saúde (DGS) sobre a necessidade de revisão das medidas de prevenção contra a covid-19 face à proliferação de novas variantes do vírus SARS-CoV-2.

Dirigimos uma questão à DGS sobre essas medidas de saúde pública e em que medida podem elas precisar de ser adaptadas. Não há ainda recomendações adicionais concretamente sobre a questão das máscaras ao nível do Centro Europeu de Controlo de Doenças e temos sempre alinhado as nossas posições com as recomendações internacionais. Estamos muito atentos e logo que haja alguma informação que coloque alguma necessidade de adaptação, fá-lo-emos”, revelou a ministra da Saúde, Marta Temido.

Marta Temido lembrou a “prevalência significativa de circulação da variante inglesa” e a identificação de “um caso de variante sul-africana” no país, considerando essa situação “muito preocupante” por indiciar que Portugal “esteja a ser mais atacado por esta nova variante do que outros” países. “Aquilo que é recomendado quanto a este tema é a máxima prudência. Este vírus não tem parado de nos surpreender e de nos surpreender negativamente, de colocar novas angústias e novos problemas. É essencial que todas as medidas de saúde pública continuem a ser cumpridas”, sublinhou.

À TVI, António Morais, presidente da Fundação Portuguesa de Pneumologia, reforça que o mais importante é que se use máscara. "Essa é a a primeira regra", diz.

A máscara cirúrgica se for usada por todos tem uma proteção à volta dos 90%, o que é uma proteção elevada. As máscaras comunitárias, se forem certificadas, têm esse nível de proteção. O problema é que há uma variedade de máscaras deste tipo que não estão certificadas e poderão não dar a devida proteção, quer a quem a usa quer a quem contacta com essa pessoa", considera este especialista.

Por isso, numa fase de maior de maior transmissibilidade, "as pessoas devem usar pelo menos a máscara cirúrgica", sublinhando que é importante cumprir as regras do uso, colocando-a corretamente no rosto e trocar de máscara ao fim de quatro horas. 

É o fim das máscaras comunitárias?

Logo agora que, finalmente, as máscaras começavam a ser vistas como um acessório que, para além da sua utilidade, podia ser combinado com a roupa e adequar-se ao estilo de cada um, surgem notícias de que, afinal, as máscaras de pano - as chamadas máscaras comunitárias - podem não ser eficazes contra as novas variantes, mais agressivas, do coronavírus

Especialistas ouvidos pelo jornal norte-americano The New York Times sublinham a importância da qualidade das máscaras usadas. Segundo uma das especialistas ouvidas, cujo laboratório testou diferentes materiais de máscaras, a máscara de pano certa, usada adequadamente, poderá ter um bom desempenho. As melhores são as que têm três camadas: duas de tecido e um filtro intercalado. 

As opiniões dividem-se. "Neste momento particularmente complexo, teremos de optar por aquilo que nos dá mais proteção", afirma Tiago Alfaro, da Sociedade Portuguesa de Pneumonologia, que é favorável à proibição das máscaras comunitárias.

Já Brás Costa, diretor-geral do CITEVE - Centro Tecnológico de Têxteis e Vestuário, lembra que há máscaras comunitárias que garantem 90% de proteção e que Portugal tem regras mais apertadas do que o resto na Europa. O mais importante, diz, é que as máscaras tenham clipe nasal "um elemento fundamental", que "garante que as máscaras aderem ao rosto".

É melhor usar duas máscaras em vez de só uma?

Anthony Fauci, diretor do Instituto Nacional de Alergia e Doenças Infecciosas dos EUA (CDC) e conselheiro da Casa Branca para questões de saúde, acredita que sim. Uma vez que o objetivo da máscara é criar uma barreira que dificulte a entrada de gotículas com vírus no organismo, "se temos uma proteção física com uma camada, ao colocarmos outra camada por cima faz sentido que seja mais eficaz", afirmou à NBC este especialista.

O CDC ainda não emitiu qualquer recomendação sobre o uso de duas máscaras mas o assunto começou a ser falado nos EUA quando, na tomada de posse de Joe Biden, a poeta Amanda Gorman e outros convidados apareceram com máscaras cirúrgicas por baixo da máscara de pano, seguindo a recomendação de vários especialistas. 

Alemanha, França e Áustria já proibiram máscaras comunitárias

As autoridades de saúde francesas foram das primeiras a alertar para o uso das máscaras de pano, algumas delas feitas em casa, considerando que poderão não oferecer uma total protecção. Daniel Camus, do Conselho Superior de Saúde Pública de França, aconselhava por isso o uso de máscaras cirúrgicas. A recomendação foi rapidamente aceite pelo ministro da Saúde, Olivier Véran.

Em países como Alemanha e Áustria já está a ser proibida a utilização de máscaras comunitárias de tecido na rua. Em sua substituição, passa a ser obrigatório o uso de máscaras de nível médico, ou seja FFP2 (ou equivalentes) nos locais de trabalho, nos transportes públicos, nas lojas e noutras situações que impliquem grande proximidade com outras pessoas.

Na Alemanha, aqueles considerados como vulneráveis, como os maiores de 60 doentes e pessoas com doenças crónicas, já começaram a receber por correio os vouchers para levantar nas farmácias as suas máscaras FFP2.

O que são máscaras FFP2?

Mas, atenção, nem todas as máscaras são iguais. As máscaras cirúrgicas - aquelas que se vendem habitualmente nos supermercados e que todos temos usado no último ano - filtram as partículas de quem as usa, impedindo que se propaguem, e também protegem dos salpicos. No entanto, estas máscaras não protegem contra a inalação de partículas muito pequenas no ar, pelo que as pessoas não estão protegidas contra os aerossóis.

O ideal é usar máscaras com a certificação FFP, que significa Filtering Face Piece, denominadas máscaras autofiltrantes ou respiradores. Esta máscara é um equipamento de proteção individual (EPI) que serve de proteção respiratória. O seu objetivo é proteger o utilizador da inalação de gotas, mas também de partículas no ar, que podem conter agentes infeciosos. O uso destas máscaras pode criar um maior desconforto térmico e respiratório porque criam uma barreira mais resistente.

Segundo os especialistas, as máscaras FFP2 ou FFP3 oferecem a melhor proteção contra o coronavírus, criando uma barreira com uma eficácia de 94% contra aerossóis. As máscaras devem ter várias camadas de tecido, um suporte de metal que fica ao longo do nariz e dizer na sua embalagem que são do tipo II ou III e classificação CE, sublinha o Instituto Federal de Medicamentos e Dispositivos Médicos da Alemanha. No entanto, estas máscaras são mais caras do que as cirúrgicas.

E em Portugal?

Até agora, em Portugal, ainda não existe qualquer indicação oficial da DGS para o uso de máscaras FFP2. À TVI, a Direção-Geral da Saúde explica que "está a analisar as atuais recomendações relativas às medidas não farmacológicas de prevenção e controlo de infeção (como, por exemplo, a utilização de máscaras) à luz da última evidência. Apesar de haver alguns países que estão a ajustar as suas orientações, organismos internacionais como a OMS e o ECDC ainda não fizeram alterações às últimas recomendações".

Maria João Caetano