À medida que os dias vão passando, e os números da covid-19 galopando a um ritmo sem precedentes, os relatos da alarmante situação vivida nas unidades hospitalares portuguesas começam a tornar-se uma constante nas redes sociais e órgãos de comunicação social. 

Na Grande Lisboa, como é sabido, os hospitais estão sobrecarregados com doentes covid-19 e bem perto da rutura. 

De entre os 'gritos de alerta' e apelos ao respeito pelas normas de confinamento, há um testemunho em particular que tem vindo a ganhar destaque, nas últimas horas, nas redes sociais, o de Ricardo Baptista Leite. 

O deputado e vice-presidente da bancada do Partido Social Democrata, que é também médico especializado em infecciologia, partilhou nos seus perfis de twitter e facebook um sentido e descritivo lamento sobre a situação que enfrenta o Hospital de Cascais, onde está a trabalhar como médico voluntário desde o início da pandemia. 

Nunca vi tantas pessoas morrerem num só turno de 12 horas. A dor e o sofrimento são indiscritíveis", começou por afirmar num texto publicado no facebook. 

Mas o político da bancada social democrata vai mais longe e descreve, de forma sentida e plangente, o estado de exaustão psicológica e emocional em que os profissionais de saúde se encontram. 

Vi uma colega médica a chorar depois de sair do covidário mais de 5 horas depois do término do seu turno. Física e psicologicamente esgotada.

Cada vez que se estabiliza um doente, havia já mais 3 ou 4 doentes instáveis a entrar pela porta dentro.

Vi uma enfermeira praticamente a não conseguir respirar ao tirar o fato de proteção depois de horas infindáveis junto dos doentes.

Perguntei-lhe se estava bem e ela limitou-se a acenar com a cabeça enquanto olhava para mim com olhos encarnados antes de simplesmente ficar a olhar para o chão."

Face à conjuntura vivida, o médico voluntário não hesita no momento de comparar as circunstâncias às de uma autêntica guerra.

O cenário é de guerra e estamos a perder. Está na hora de dizer basta. (...) Ouvimos a frustração e os choros dos filhos e netos.

Compreende-se a dor pela impossibilidade de dizerem adeus… por terem visto o pai, a mãe, a avó ou o avô, pela última vez quando entraram na ambulância ou pela porta do hospital poucas horas antes.

Gritam frustrados pela fatalidade do destino e pelo sentimento de lhes terem sido roubados anos de convivência com quem mais amam, ainda para mais por razões que pouco compreendem. Por causa de um vírus. Uma pandemia… uma maldita pandemia."

Mas, apesar de admitir que o cenário é trágico, o político elenca cinco passos, que a seu ver, podem "prevenir mais mortes evitáveis". 

Ricardo Baptista Leite defende que deve ser determinado um confinamento absoluto durante três semanas, incluindo o encerramento das escolas, "garantindo o apoio remuneratório a um dos pais, tal como aconteceu durante a primeira vaga".  

Na opinião do médico, devem ser mobilizados "todos os meios de saúde disponíveis no país para as próximas semanas", assim como, "chamar todos os recursos humanos disponíveis para abrir o maior número possível de hospitais, clínicas e tendas de campanha com máxima urgência". 

O deputado continua, e toca num assunto que tem gerado polémica nos últimos dias, o ato eleitoral. O médico pede que ponderem "novamente os riscos inerentes ao ato eleitoral de dia 24 - sobretudo depois do que se viu com o voto antecipado", e pede uma comunicação clara, transparente e diária para com o país. 

Não obstante, Ricardo vai mais longe e antecipa o momento em que as medidas serão levantas e alerta que, de modo a evitar um novo aumento de casos e futuros confinamentos, têm de existir mais testes. 

O país tem de testar no mínimo 5 vezes mais do que atualmente, com particular enfoque na testagem semanal dos profissionais das escolas, dos lares e de saúde. Temos de ser capazes de identificar todos os infetados e determinar as cadeias de infeção", afirma.

Por fim, o voluntário no hospital de Cascais, pede que se faça uso do "facto de Portugal ter a presidência do conselho da União Europeia para exigir uma renegociação das vacinas covid-19 de modo a acelerar o ritmo de vacinação".

Na opinião do vice-presidente da bancada do PSD, até junho de 2021 "temos de vacinar 80% da população"

O cenário é negro e a luz ao fundo do túnel pode parecer distante, mas o médico não tem dúvidas de que "ainda vamos a tempo de salvar o resto do ano".

Ricardo Baptista Leite, afirma que "ainda vamos a tempo de salvar vidas" e deixa o repto:

Façamos tudo o que está ao nosso alcance. Faça tudo o que puder. Se não por si, por aqueles que mais ama".

Diogo Assunção