Um ano depois do primeiro caso de covid-19 ter sido confirmado em Portugal, aconteceu um pouco de tudo no país, glória e insucesso, mas aquilo que os profissionais que lidam de perto com a doença mais aprenderam durante este tempo é que não se pode perder o controlo.

O maior risco e o maior ensinamento que temos sobre isto é o descontrolo. Nós não podemos deixar esta pandemia ou qualquer outra, mas especialmente esta, em descontrolo. Por três razões principais: o aumento das infeções é exponencial e isso repercute-se num aumento de internamentos de longa duração (em média, os internamentos em UCI são três vezes superiores a uma pneumonia normal). Isto exerce uma pressão sobre o SNS e sobre os internamentos, que faz reduzir a disponibilidade de camas em UCI e essa tem uma repercussão na letalidade. Como dizem os intensivistas, a taxa de insucesso dos cuidados intensivos é tanto maior quanto menor for o número de camas disponíveis. E, portanto, o descontrolo leva-nos à situação que verificámos em janeiro", afirmou na TVI24, no programa "Hoje é Notícia", o matemático Carlos Antunes, professor na Faculdade de Ciência da Universidade de Lisboa, e um dos especialistas presentes nas reuniões do Infarmed, de balanço da situação epidemiológica.

Para Carlos Antunes é muito importante, neste fase, "não repetir os erros de desconfinar com certos níveis ou patamares muitos elevados".

A questão do desconfinamento ou do aumento da mobilidade em dezembro teve uma consequência porque não olhámos para os outros indicadores. Na altura, o único indicador favorável a um alívio da pressão do confinamento do Natal foi o Rt. Os internamentos, os cuidados intensivos estavam em níveis máximos. Se tivéssemos olhado para aquela tabela e tivéssemos feito essa analise, com essa abordagem, teríamos visto facilmente que era um risco muito elevado", observou.

 

Foram meses de uma profunda aprendizagem e de grande sacrifício, mesmo para aqueles que todos os dias lidam com a doença. E é por isso que, para João Gouveia, médico intensivista e presidente da Sociedade Portuguesa de Cuidados Intensivos, chegou o momento de olhar para a saúde de todos.

Aprendemos muito, passámos de uma situação de incerteza, em que não sabíamos nada da doença, como responder, para uma situação em que mais do que duplicámos a capacidade da medicina intensiva. Conseguimos descobrir novos modos de trabalho, novas formas de rentabilizar os recursos humanos, ocupação de novos espaços, evoluímos muito em termos organizacionais, ainda temos muito para evoluir e para aproveitar esta experiência que tivemos agora. Foi uma experiência dura, com muito trabalho de toda a gente, muito sofrimento a nível individual e coletivo, a nível de todas as pessoas, não só dos profissionais, principalmente dos que estiveram doentes e dos seus familiares, mas temos agora a obrigação de aproveitar esta experiência para melhorar a saúde dos portugueses em geral no pós-pandemia", apontou João Gouveia, em entrevista à TVI24.

Sobre o que não se pode repetir, o médico partilha da mesma análise do matemático: não perder o controlo.

Acho que perdemos a determinada altura o controlo da pandemia, se calhar era inevitável, dada a dimensão e o crescimento, mas em alguns pontos podíamos ter atuado mais cedo, ser mais rigorosos e incisivos mais cedo e ter conseguido algum controlo. Aprendemos que temos de investir muito na parte da resposta, na capacidade do sistema poder responder à pandemia e, principalmente, não na parte hospitalar, mas também na parte de controlo de testes, de seguimento dos doentes, de poder descobrir os elos de contágio. E agora temos de conseguir trazer os números mais para baixo possível, para poder fazer isso de uma forma muito pratica, e evitar que isto se repita."

João Gouveia admitiu mesmo que nunca esperou que vivêssemos um janeiro assim.

Confesso que, quando se fizeram os primeiros planos de expansão dos hospitais, nunca pensei que alguns fossem atingidos ou mesmo ultrapassados. Na região Centro triplicámos a capacidade da medicina intensiva, a nível nacional aumentámos 2,2 vezes a capacidade da medicina intensiva. Foi extraordinário e só possível com grande esforço de todos os profissionais, médicos, enfermeiros, de medicina intensiva e de outras especialidades que nos ajudaram."

 

Mais otimista, como é, aliás, seu apanágio, surge o virologista Pedro Simas, investigador do Instituto de Medicina Molecular e um rosto que também se tornou conhecido dos portugueses.

Pedro Simas defende a eficácia da vacina e do plano de vacinação, no qual estará a resposta para sair da crise.

É o que vai determinar o ano, porque temos a solução. E espero que, quando se atingir 100% de imunidade ou de vacinação dos grupos de risco, o problema da pandemia está praticamente resolvido, porque temos uma vacina muito eficiente na proteção contra a morte e a doença severa, e esse é que é o problema da pandemia", disse, em entrevista à TVI24.

O especialista não tem dúvidas de que "o vírus não vai desaparecer", "vai ser um vírus endémico", mas que as pessoas vacinadas continuam a estar protegidas.

Como o vírus continua a permanecer na comunidade, as pessoas que estão vacinadas vão ser expostas ao vírus e essa exposição ao vírus, na maior parte das vezes, vai resultar só numa exposição sem infeção ou então numa infeção assintomática e ligeira. Por isso é que não é importante a questão da longevidade das vacinas, o que é importante é que ela confere longevidade suficiente para resolvermos a pandemia e salvar vidas."

O virologista alerta, no entanto, que é preciso continuar a ter cuidado, para não corrermos o risco de sofrer uma quarta vaga.

Se a vacinação correr como está planeado, em que no fim de abril temos a primeira fase do plano executada, temos o problema bastante resolvido, atrevo-me a dizer na ordem dos 100%, porque é onde estão os grupos de risco. Depois temos a segunda fase e em maio vamos estar numa situação muito diferente de agora, muito mais segura. Até lá temos de ter muito cuidado na maneira como desconfinamos. O controlo da disseminação do vírus depende de duas coisas: depende do comportamento da sociedade individualmente e depende do apoio do Estado. As pessoas podem colaborar respeitando as regras de distanciamento físico e usando a máscara e colaborando com as autoridades numa coisa que é muito importante, que são os inquéritos epidemiológicos, os rastreios e as quarentenas, e na testagem. É nesta interação que vai estar a chave para o desconfinamento."

 

Catarina Machado