No programa "Segunda Vaga" desta terça-feira, da TVI24, os vários especialistas analisaram a eficácia das novas medidas do estado de emergência, se é um cenário realista uma vacina contra a covid-19 até ao natal e ainda os erros, inconsistências e informações em falta nos dados da Direção-geral da Saúde (DGS). 

A autoridade sanitária do Brasil anunciou esta terça-feira que suspendeu os ensaios clínicos da vacina Coronavac, do laboratório chinês Sinovac, contra o novo coronavírus, após um incidente "grave" com um voluntário.

Reynaldo Dietze, médico e professor do Instituto de Higiene e Medicina Tropical, da Universidade Nova de Lisboa, considera que estes incidentes podem acontecer, mas que "têm de ser avaliados"

Estes dados são previstos, podem acontecer e têm de ser avaliados. Tem de se saber, exatamente, qual a causa daquele efeito adverso", afirmou. 

De acordo com o especialista, a informação que recebeu do Brasil é que este voluntário terá morrido na sequência de um acidente de carro. Ainda assim, a norma que os testes devem ser imediatamente parados, até que seja apurada a verdadeira causa da morte. 

Sobre a vacina da farmacêtica Pfizer, que anunciou na segunda-feira ter 90% de eficácia, Reynaldo Dietze alertou que os dados ainda são preliminares e, por isso, precisam de ser entendidos melhor, uma vez que só estão a ser avaliados 94 casos.

Precisam de uma análise científica mais apurada e de mais dados. O estudo continua e isto é preliminar. É preciso agregar mais casos a este grupo, para se perceber se 90% é 90% ou se 90% é 60%”.

Sobre a possibilidade de se ter uma vacina contra o vírus no Natal, o médico e professor considerou ser um cenário muito pouco provável. 

Muito provavelmente nós não vamos ter uma vacina que possa ser utilizada na população até ao Natal”, explicando que aquilo que se vai ter nessa altura são apenas informações preliminares e que é muito importante que a decisão de iniciar uma vacinação seja feita com base em dados mais aprofundados.

"No verão, houve uma desvalorização por parte do Governo e da comunidade da situação pandémica"

António Costa disse em entrevista à TVI, no Jornal das 8, que ainda é possível controlar a pandemia de covid-19, mas que esse controlo tinha de ser feito agora. No entanto, apontou grande parte da responsabilidade às pessoas, por não estarem a ser tão cuidadosas como foram durante a primeira vaga.

Vânia Gonzaga, médica interna de saúde pública, concorda, mas ressalva que a culpa não pode ser apenas dos portugueses, uma vez que o Governo, no verão, também desvalorizou a situação pandémica. 

Há um cansaço pandémico, mas não nos podemos esquecer que, durante o verão, houve uma desvalorização por parte do Governo, e um bocadinho da comunidade em geral, da situação pandémica. E, de repente, é que nos lembrámos que estamos numa pandemia”, declarou. 

A especialista comparou a situação epidemiológica de Portugal a um carro em plano enclinado:

A verdade é que nós ainda vamos a tempo, mas tal como um carro em plano inclinado, precisamos de reduzir a velocidade e colocar aqui algo que provoque um atrito que trave o carro”.

Na ótica da médica de saúde pública, as novas medidas do Governo, e a implementação deste segundo estado de emergência, são uma forma de criar esse atrito.

"Não vivia atormentado, mas muito preocupado pelo facto de ser doente cardíaco”

No espaço “Tive Covid-19” desta terça-feira, revelámos o testemunho de Vítor Manuel Pereira, Presidente da Câmara Municipal da Covilhã, que realizou vários testes com resultado positivo, negativo e inconclusivo. 

Tudo começou com sintomas que eram estranhos, designadamente calafrios, um leve corrimento nasal, dores de cabeça ligeiras, um mau estar geral, frustração, perda de olfato, que foi o grande alerta face aquilo que era dado a conhecer, e foi isso que me levou a contactar a nossa delegada de saúde”, começou por contar. 

O primeiro teste que fez, a 19 de outubro, deu positivo e só 14 dias depois, dia 31, é que voltou a realizar um novo teste, cujo resultado foi inconclusivo. Como não há duas sem três, na segunda-feira, 2 de novembro, repetiu o teste e o resultado foi negativo.

Confessou que nunca conseguiu perceber qual foi o foco de infeção, uma vez que trabalha na câmara, lida com muitas pessoas e teve inúmeras reuniões em em várias zonas do país.

Viveu uma quarentena relativamente descansado, uma vez que todos os sintomas que sentiu foram ligeiros, e que a única coisa que o intranquilizava era o facto de ser doente cardíaco. 

Felizmente, todos os sintomas que tive eram suportáveis. Nunca tive febre (…), tensão arterial normal. Não vivia atormentado, mas muito preocupado pelo facto de ser doente cardíaco e temia sequelas causadas pelo vírus”.

Covilhã está entre os 121 concelhos com medidas mais restritivas. O presidente da câmara disse que a situação estava bastante tranquila até há pouco dias, quando os números dispararam. Acredita, no enatnto, que as medidas implementadas vão surtir efeito.

“A pandemia veio pôr a nu um problema que já existia"

Um grupo de investigadores arrasou com os dados da DGS sobre a pandemia. O estudo da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto aponta erros, inconsistências e informações em falta.

Existem, por exemplo, mortos que desapareceram, infeções a mais ou a menos que não batem certo com os números divulgados pela DGS, homens classificados como 'grávidos' e um doente com 134 anos.

Cristina Costa Santos, uma das 12 investigadoras do Centro de Investigação em Tecnologias e serviços de Saúde (Cintesis) e do Departamento Medicina da Comunidade da Universidade do Porto, diz que esta situação não é nova e que a pandemia só veio "pôr a nu um problema que já existia"

A pandemia veio pôr a nu um problema que já existia. A falta de integração dos sistemas de informação, os sistemas de informação que não funcionam muito bem, a pandemia só pôs isso a nu. Mas torna-se especialmente importante agora ter dados de qualidade, porque se antigamente já era importante ter a informação que os dados nos podiam dar para tomar decisões, agora é ainda mais importante porque estamos numa situação em que temos muito pouca informação científica”.

A investigadora disse ainda que com a situação de pandemia como a que estamos a viver, provavelmente, ía ser muito difícil colher dados de qualidade se não tivesse a intervenção de equipas multidisciplinares. 

Cláudia Évora