Publicou uma fotografia abraçado a uma colega, num corredor do hospital Curry Cabral, em Lisboa, um dos centros de referência nacional para o combate ao novo coronavírus. O gesto de carinho rapidamente foi partilhado por milhares de portugueses, tornando-se num dos símbolos da resistência do país à pandemia que ameaça a espécie humana.

Paramos, respiramos, tomamos balanço e avançamos. Sem hesitações, sem medos, porque estamos TODOS juntos. Somos uma...

Publicado por Nuno Moreira em  Segunda-feira, 16 de março de 2020

Em conversa com a TVI, Nuno Moreira conta que "o objetivo (da publicação) foi passar a mensagem daquilo que nos une, não só fisicamente, mas emocional e profissionalmente, que é o apoio incondicional, o estar presente, o tal ‘I’ve got your back!’, é exatamente a necessidade de sensibilização de que sozinhos não somos nada. Nesta altura em particular, precisamos uns dos outros, de sermos todos Portugal." 

É verdade que o apoio aos profissionais de saúde tem chegado de todos os pontos do país, mas também tem sido estimulado entre médicos, enfermeiros e auxiliares, tal e qual espelha a fotografia.

 No serviço, existe sempre uma colega que fica fora do quarto a dar apoio, que sabemos que está connosco. Da mesma maneira, e perante tudo o que está a acontecer, é importantíssimo para todos nós, profissionais de saúde, sabermos e sentirmos que todos estão connosco, todos nos amparam!".

O desafio é grande, provavelmente o maior na vida profissional de muitos enfermeiros, exige concentração, sangue frio e espírito de grupo, sobretudo numa altura em que o ritmo de trabalho parece começar a ultrapassar as capacidades humanas, por isso mesmo, nem sempre há tempo para refletir sobre o que está a acontecer. O enfermeiro de Lisboa só o conseguiu fazer no último domingo: 

Nesse dia, as pessoas tinham tomado a iniciativa de baterem palmas à janela, e eu estava a trabalhar. O turno passou, e como tantas outras vezes falei com amigos e colegas ao telefone. De imediato senti que tinha a voz rouca e trémula, percebi que era diferente".

Foi então que resolveu, no turno que se seguiu, tirar a fotografia e partilhá-la nas contas de Instagram e Facebook, como uma forma de incentivar colegas e dar esperança aos amigos nas redes sociais, sem imaginar que aquele momento viria a significar tanto para milhares de pessoas em Portugal.

Nitidamente convicto de que tudo correrá pelo melhor e que o país vai conseguir fintar o novo coronavírus, Nuno Moreira não esconde algum receio: 

Trabalho na linha da frente. Este momento, para mim, está a ser particularmente difícil. A pressão e a tensão são reais e é-nos exigido que tenhamos o distanciamento e a agilidade mental para enfrentar esta pandemia. Os esforços são muitos, e o que nos move é inabalável, é, no fundo, o bem comum, o cuidado e o bem estar do próximo".

Trabalham a pensar nos outros, muitas vezes esquecendo a saúde e segurança próprias, mesmo sabendo que muitos dos outros em quem pensam todos os dias, lhes apontaram o dedo no passado. Nuno não esquece as críticas de que os profissionais de saúde têm alvo nos últimos tempos, sobretudo quando se anuncia uma greve ou nos momentos em que reivindicam melhores condições de trabalho. Mesmo sendo legítimo, o enfermeiro não guarda mágoa ou rancor: "o que nos move não são as críticas, os estados de alma, ou os comentários das pessoas, nós temos consciência de que fazemos sempre o melhor pelos nossos doentes. Espero que, sinceramente, todos tomem consciência de que a saúde é um bem maior e que todos vamos necessitar, um dia, do serviços destes profissionais, há que não esquecer que melhores condições de trabalho permitem mais capacidade de ação e mais respostas às necessidades de cada utente". 

Em jeito de conclusão, Nuno Moreira não tem dúvidas de que a provação que o país está a passar é uma lição para todos os portugueses: "Acredito que cada segundo que passa é uma oportunidade para fazermos e pensarmos de forma diferente. É isto que me motiva, todos os dias, a fazer a minha parte. "

Emanuel Monteiro