Ao 337º dia do "novo normal", Portugal voltou a registar mais de 200 óbitos diários. Feito que se repete, consecutivamente, há 15 dias. O pico máximo de casos de detetados em 24 horas deu-se no dia 28 de janeiro, 16.432 contágios em apenas um dia.

Alemanha, Áustria e Espanha já ofereceram ajuda a Portugal, face à sobrelotação dos serviços de saúde nacionais. A situação mais grave verifica-se nos hospitais da região de Lisboa e Vale do Tejo, onde trabalha Andreia Castro.

A médica e blogger utilizou a conta de Instagram para apregoar o “novo normal” com que se tem vindo a deparar a cada dia. Ao texto publicado chamou-lhe: “Estamos exaustos”.

São 6 da manhã e continuo serviço pela 2ª noite consecutiva. Quando dou por mim, são 4 noites numa semana. É só mais uma, e nós achamos sempre que aguentamos. O serviço precisa. A equipa precisa. O corpo não precisa há muito, e a alma fica todos os dias um bocadinho mais despida, um bocadinho mais deixada para trás nos corredores do hospital. Ontem ao chegar a casa após mais uma noite, as palavras do meu namorado foram apenas – ‘estás destruída’”, começa por explicar Andreia Castro.

 

Andreia Castro não esconde o desnorte que se apoderou de algumas das principais unidades hospitalares do país. Camas a escassearem, cada vez mais doentes e equipas médicas incapazes de se multiplicarem apesar das tentativas.

A médica reitera ainda que “aqueles que nos aplaudiram” não cumpriram a sua parte no combate à pandemia.

Quem trabalha em saúde e presta assistência a doentes covid (seja nos centros de saúde, lares ou outras instituições) vem trabalhar, volta para dormir e ainda salta refeições pelo meio porque a fome é secundária. Nós próprios queremos pedir ajuda, mas não sabemos mais a quem nos virar por apoio quando os principais pilares somos nós e todos nos querem arrancar um pedaço, à velocidade do freguês que chega com pressa para almoçar. Sim, vocês que nos aplaudiram também nos apunhalaram pelas costas.. e agora estamos nisto”, pode ler-se no texto da médica.

 

Perante o drama hospitalar atual, Andreia é clara: “não conseguimos”. A médica esclarece que gostaria que garantir “um atendimento completo” e prometer um “final feliz” a todos os pacientes, mas sabe que estaria a mentir se o fizesse.

Queremos ajudar todos por igual, mas não conseguimos. Ouvimos reclamar por 3-6-12 horas de espera com direito a atendimento completo e dever de final feliz que não podemos prometer, quando nós vivemos esta realidade 24 horas sobre 24 horas há 12 meses. As pessoas não param de chegar. Telefonamos para aqui e para ali, envergonhados por pedir mais uma transferência de um doente grave. A maioria volta para as suas casas, mas muitos vêm diariamente para as nossas - de cabeça na almofada, revemos abordagens em que podíamos ter sido melhores, mais calmos, mais disponíveis, mais pacientes. Mas já não temos gás (e por vezes até cortesia, arrisco-me a dizer). Nós frontliners estamos exaustos, física e sobretudo emocionalmente. A preocupação rouba o pouco tempo ao descanso, e, entretanto, é altura de pegar no turno outra vez. Seguem-se mais 24 horas”, desabafa Andreia Castro.
 

No entanto, Andreia Castro não baixa os braços e continua a acredita no regresso ao “antigo normal”. Através de um Post Scriptum esperançoso, a médica explica como: “Máscara, distanciamento social e vacina. Só assim podemos voltar a ter uma vida normal.”

Nuno Mandeiro