As pessoas que já têm a vacinação completa devem ser obrigadas a cumprir na mesma um isolamento de 14 dias no caso de terem contacto de alto risco com a covid-19?

Essa é a pergunta que muitos fazem neste momento, quando outros países estão a aliviar as regras de isolamento profilático e Portugal já tem 66% da população com a vacinação completa contra a covid-19, sendo que 76% já recebeu pelo menos a primeira dose.  

Bernardo Gomes, médico de saúde pública, é um dos especialistas que defendem a redução do período de isolamento. Na sua opinião, já deveríamos estar a passar de uma estratégia de "controlo total" para um "pensamento de probabilidades", ou seja, "já deveríamos estar mais focados no binómio doença/infetados, do que apenas na infeção".

Assim, em Portugal, já se poderia ponderar reduzir o período de isolamento, mesmo para os não vacinados, defende. "Portugal é dos países que exige um maior isolamento profilático, já há muitos países onde o isolamento é de apenas dez dias", sublinha.

Para os vacinados, a necessidade de mudar de estratégia é ainda mais premente, considera. Neste caso, após a exposição à covid-19, pode optar-se por uma de três vias:

- permitir a livre circulação, desde que as pessoas não apresentem sintomas, mas com a possibilidade de realizar testes rápidos em várias situações para ter a certeza que a pessoa não está a infetar os outros;

- exigir o isolamento apenas até à realização de um teste PCR, geralmente ao 4º ou 5 dia após a exposição;

- ficar sujeita a uma restrição social, ou seja, evitando contactos sociais de risco, durante um período determinado (por exemplo dez dias), mas sem necessidade de isolamento no caso de não apresentar sintomas;

Qualquer uma destas soluções estaria muito longe do isolamento que temos hoje", explica o médico. "O que não podemos é continuar com esta filosofia de restrição total num momento em que temos os internamentos a descer, em que estamos prestes a entrar no top3 de vacinação e em que é necessário reduzir o impacto económico, social e mental da pandemia", afirma.

O primeiro-ministro cumpriu só dez dias de isolamento

Esta questão levantou-se já no início de julho, quando o primeiro-ministro António Costa, que já tinha o esquema vacinal completo, cumpriu um isolamento de apenas dez dias após ter tido um contacto de risco.

Esta medida motivou críticas às autoridades de saúde e um pedido de explicações por parte do Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, sobre este tipo de situação.

"Em Portugal o período de isolamento é de 14 dias. Desde há meses, começando-se a compreender melhor o período de incubação da infeção, foi dada a possibilidade de, numa avaliação individual, as autoridades de saúde poderem, perante teste negativo ao 10.º dia, terminar o isolamento nesse dia", explicou na altura o coordenador da Comissão Técnica de Vacinação Contra a Covid-19, Válter Fonseca.

Questionado sobre se as autoridades equacionavam alterar as medidas a cumprir por quem tem um contacto de risco, mesmo estando vacinado, o responsável afirmou: "Essa possibilidade de avaliação de caso de risco, caso a caso, sempre foi possível".

"Efetivamente, são estes dados ainda em análise, sobre o verdadeiro impacto na transmissão e sobre como se comporta a situação epidemiológica com a variante Delta (...), que nos podem fazer adaptar as medidas recomendadas para as pessoas vacinadas", acrescentou.

Portugal é dos países que mantém as regras mais rígidas

À medida que a vacinação avança, vários países têm vindo a alterar as regras relacionadas com o isolamento profilático. Nos Estados Unidos, de acordo com as normas estabelecidas pelo CDC a 27 de julho, as pessoas que tenham a vacinação completa não têm de cumprir isolamento após contacto com alguém infectado com covid-19. Nesse caso, devem ser testadas três a cinco dias após o contacto e usar máscara em locais públicos fechados até terem a confirmação de que o resultado é negativo.

O Reino Unido também eliminou a obrigatoriedade de isolamento nestes casos. As pessoas completamente vacinadas ou que tenham menos de 18 anos devem fazer um teste PCR "o mais rapidamente possível". "Adultos e crianças terão liberdade para voltar ao trabalho, frequentar a escola e encontrar amigos e familiares, pois a proteção das vacinas substitui a necessidade de isolamento", diz a nova regra.

No Canadá, as pessoas que tenham contacto com um infetado, após estarem completamente vacinadas, também não têm de cumprir isolamento. Nestes casos, devem realizar um teste PCR o mais cedo possível e, depois, tomar algumas medidas nos dez dias seguintes, como, por exemplo, "usar uma máscara e manter o distanciamento físico quando estiverem fora do casa para reduzir o risco de transmissão para outras pessoas" e devem também "monitorizar os sintomas diariamente e isolar-se imediatamente se desenvolverem algum sintoma".

População manifesta já uma "resistência" às regras que considera incongruentes

Bernardo Gomes sublinha que uma mudança radical, como aconteceu no Reino Unido, teria obviamente de "ser compensada com uma estratégia de forte testagem", mas acredita que os benefícios seriam claramente superiores às desvantagens. 

A insistência nestas regras tão rígidas pode, até, ter efeitos perversos, diz.

Por um lado, os profissionais das unidades de saúde primária "estão colocados perante uma carga muito elevada relacionada com a monitorização dos isolamentos e do contactos". "Temos de repensar rapidamente esta estratégia porque estamos a gastar recursos aqui quando é urgente retomar os cuidados de saúde primários e tratar os doentes para além da covid", defende.

Por outro lado, "estamos a passar uma mensagem incongruente. A mensagem que temos que passar é que a vacina compensa, não só porque é de facto eficaz mas também porque permite vivermos com mais liberdade. As pessoas vacinadas merecem ser tratadas de forma diferente das não vacinadas, não faz sentido que assim não seja".

"Desta forma estamos a dar os incentivos errados à população", alerta este médico. Num momento em que as pessoas já estão "compreensivelmente cansadas da pandemia", o que acontece é que muitas delas já manifestam "uma certa resistência a estas regras que não entendem" e, portanto, os médicos encontram já muitos casos de "recusa de testagem e recusa de fornecer contactos". Ou seja, perante a possibilidade de ter de cumprir um isolamento de duas semanas por causa de um contacto que não consideram de risco, muitas pessoas optam por não declarar esse contacto. "Isto é muito prejudicial, nós precisamos da colaboração da população", conclui Bernardo Gomes.

DGS diz que "ainda devemos ter algumas cautelas"

Questionada pela TVI24, a a Direção-Geral de Saúde esclarece que "no atual momento epidemiológico, e de acordo com as Normas 015/2020 e 019/2020 da Direção-Geral da Saúde, as pessoas vacinadas são abordadas, no que diz respeito ao isolamento e testagem, respetivamente, da mesma forma que as pessoas não vacinadas, pelo principio da precaução em Saúde Pública. Contudo, esta matéria encontra-se em discussão e poderá ser atualizada se a evidência científica e a situação epidemiológica assim o suportarem".

Na semana passada Graça Freitas admitia que essa era uma questão que estava em cima da mesa mas aguardava mais informação científica.

“Nós queremos que a nossa vida social e de relação decorra o mais normalmente possível, mas temos que ter aqui o equilíbrio na questão da proteção da saúde pública e da nossa vida social, económica, relacional”, salientou Graça Freitas.

Segundo a diretora-geral da Saúde, “o ideal” seria, à medida que as pessoas estiverem completamente vacinadas, “haver um abrandamento, um aligeiramento das medidas de contenção nomeadamente do isolamento profilático, sendo esta matéria que está a ser estudada, assim como o ‘timing’ em que a questão de abrandar essa medida deve ser colocado.

“Estamos em planalto, não estamos a aumentar, mas também não estamos com uma descida acentuada [de casos] e, portanto, ainda devemos ter algumas cautelas e depois temos que aprender com países que já abrandaram estas medidas e que agora resolveram novamente deixar esse abrandamento”, salientou.

Maria João Caetano