Movimentos espirituais paralelos às igrejas tradicionais são um fenómeno crescente nas sociedades urbanas e têm vindo a conquistar adeptos em Portugal, referem sociólogos ouvidos pela Lusa.

Joaquim Fernandes, sociólogo, estudioso de movimentos religiosos «no plano histórico» e professor na Universidade Fernando Pessoa, no Porto, considera que «as formas de espiritualidade urbana tendem a começar a afirmar-se e a suplantar algumas formas de religião tradicional», pois «há uma fuga das orientações e dos preceitos mais dogmáticos das igrejas institucionais».

O especialista acredita que as «grandes igrejas dominantes» estão a ser deixadas «num plano secundário» e que «hoje qualquer pessoa consciente, meditando na nossa realidade perante o universo em geral, já não consegue colocar o Homem no topo da criação».

«Sobretudo nas sociedades urbanas mais avançadas há uma clara infiltração e predomínio das práticas mais individualistas, valorizando as próprias capacidades e aprendendo a desenvolver capacidades interiores de auto-sugestão», declara o sociólogo.

Para Joaquim Fernandes, estes movimentos emergentes têm uma característica comum «muito importante (...): a ideia da expansão da consciência, tomar outras perspectivas sobre a vida, integrando o plano existencial terreno numa visão cósmica que tem a ver com o universo em geral e não apenas com este planeta insignificante».

Joaquim Fernandes defende que apesar de também terem «alguns aspectos dogmáticos» estes «pequenos grupos e associações serão sempre heterodoxos, não obrigados a uma disciplina rígida, porque estão em contraponto com as práticas das igrejas tradicionais conservadoras».

Subud é um «movimento espiritual»

O Subud «não é uma religião nem uma seita», é um «movimento espiritual» que reúne em Portugal cerca de 70 pessoas num «exercício de adoração a Deus» e à «força da vida», refere Raul Martins, representante do grupo.

«Religião não é, porque os nossos membros praticam as diferentes religiões, e não é uma seita [onde] as pessoas entram e depois não podem sair», disse à Lusa o presidente da Associação Subud de Portugal (ASP).

O Subud surgiu na Índia em 1933 e «Bapak» foi «o jovem a quem esta manifestação espontânea aconteceu pela primeira vez», explicou. Hoje existe em cerca de 80 países, entre os quais Portugal, onde foi legalizado em 1977.

Segundo Raul Martins, antes do 25 de Abril de 1974 «fazia-se latihan em casa uns dos outros e havia receio de que a PIDE [a polícia política] interviesse».

« Latihan é um exercício espiritual, que temos por hábito fazer na sede duas ou três vezes por semana, não somos obrigados a ir», explicou Isabel Diniz, também membro Subud.

Raul Martins explicou que se trata de «uma adoração a Deus para as pessoas que acreditam em Deus [e para] os que não acreditam é a força da vida, que se manifesta por movimentos do corpo, cânticos... É uma espécie de vibração espontânea do ser interno».