O seu filho faz chichi na cama? O processo de lhe tirar a fralda tem sido difícil? No Dia Mundial do Chichi na Cama, a TVI24 falou com o pediatra Mário Cordeiro para descomplicar algumas das dúvidas diárias que passam pela cabeça dos pais e atormentam a vida das crianças, nesta fase de aprendizagem.

Em primeiro lugar, é necessário que os pais saibam que as crianças são todas diferentes e que o desfralde não tem idade certa para acontecer. As crianças desenvolvem-se de forma diferente e, muitas vezes, “as raparigas são mais precoces do que os rapazes”, segundo o pediatra.

O desenvolvimento é condicionado por inúmeros processos que podem dificultar ou facilitar o desfralde e o episódio de chichi na cama.

E, tal como não é certa a idade em que a criança deve deixar a fralda, também não o é a altura do ano em deve fazê-lo. No entanto, o verão poderá ser a melhor altura para o fazer, por uma questão prática, tanto para os pais como para as crianças.

“O verão fomenta o crescimento das crianças” e será considerada a altura mais indicada para arriscar tirar a fralda. Não só porque está calor e os pais estão mais despreocupados ou desocupados (se estiverem de férias) mas também por uma questão prática. Os lençóis ou o chão, dependendo do sítio onde aconteceu o “pequenino acidente”, secarão mais depressa e a criança tem mais facilidade em andar sem fralda.

Mas, mais importante que a preocupação com o momento certo, é a preocupação de como lidar com o desfralde e com os possíveis chichis que podem aparecer onde não devem.

O fundamental é compreender a criança, respeitar o seu tempo e ajudá-la quando algo não corre bem. Não deixar que isto seja uma frustração para ninguém. 

O chichi na cama, ou fora do sítio, não deve ser punido nem “ralhado”. O processo deve acontecer sem pressões ou “comparações com o filho da amiga”. O melhor espírito, na família, será sempre o “acontece, amanhã vai correr melhor”.

 Os pais conseguem perceber se os filhos têm vontade de fazer chichi, por exemplo, quando estes parecem estar com as pernas apertadas”.

 

É nesta altura que os pais atuam e, na brincadeira e sem pressões, devem alertá-los para a necessidade de ir à casa de banho.

A criança precisa de ter “a perceção de que a bexiga está cheia e correr até à casa de banho” e os pais devem “aplaudi-la quando isso acontece”.

A importância da escola

Mas não são só os pais que têm um papel importante neste processo, também a escola o tem. É um local de crescimento e aprendizagem e, como tal, as crianças que desde pequenas se veem neste meio têm mais facilidade em perceber quais os momentos em que sentem que devem ir à casa de banho. Todos os processos que se prendem com o desenvolvimento da autonomia da criança são mais estimulados na escola, em contacto com outras crianças. 

É importante, no entanto, ter em atenção que a compreensão por parte do professores e a não humilhação entre as crianças é essencial.

Enurese noturna, e agora?

Se a criança tiver mais de cinco anos e ainda não controlar este processo, diz-se que sofre de enurese noturna. Mas não há razão para alarme, é normal e perfeitamente ultrapassável.

A enurese noturna é bastante mais frequente do que se julga e está muito ligada a fatores genéticos”, já que a probabilidade de acontecer aumenta se um ou os dois pais sofreram do mesmo problema.

Em primeiro lugar, é importante que os pais pensem nas razões pelas quais tal pode acontecer. Quando excluídas as causas orgânicas, como infecções urinárias ou diabetes, e as psicológicas, como o divórcio, a violência familiar ou o nascimento de um irmão, é importante falar com a criança sobre as formas de contornar o problema.

Muitas vezes, nestes casos, as crianças ainda não conseguiram criar os mecanismos neurológicos necessários e, como tal, têm mais dificuldade em controlar-se e saber quando ir à casa de banho.

O ideal, segundo o pediatra, será os pais e os filhos fazerem um plano para que tudo corra da melhor forma.

Os pais deverão tentar ajudá-la mas, para tal, é necessário estabelecer uma certa cumplicidade e uma vontade sólida e alargada de resolver o problema. Só isso é mais do que meio caminho andado.”

É importante que exista uma motivação, uma meta, como um dia ou um mês, para que os episódios de chichi noturno deixem de existir.

O “aplauso" ou o festejo quando tudo corre bem, nos chamados ‘dias secos’, e a não punição e compreensão dos ‘dias molhados’ pode ser outro dos pontos a negociar pela família para que o monstro do chichi fora dos sítios normais comece a desaparecer.

Também o estilo de vida da criança poderá ter que sofrer algumas alterações, como a diminuição da ingestão de líquidos, especialmente refrigerantes, depois do meio da tarde, ou os “alarmes que disparam e criam um reflexo condicionado que permite à criança acordar “antes de””.

O recurso a medicamentos por via nasal ou em comprimidos ou os exercícios de interrupção do chichi quando a criança o está a fazer também podem ajudar.  

Um dos maiores erros dos pais é não acordar os filhos durante a noite para os pôr a fazer chichi.”

Muitas vezes, os pais preferem não acordar os filhos, a meio da noite, e é ‘a dormir’ que a criança se senta na sanita e faz chichi. Embora pensem que a estão a ajudar, não estão. Isso irá fazer com que a criança crie o hábito de fazer chichi a dormir, algo que não irá ajudar.

Acima de tudo, é importante que os pais tenham paciência e compreensão. A má gestão desta fase só desajuda a ultrapassagem. E, para além dos lençóis que terá que lavar, a enurese não deve, nem pode, ser uma dor de cabeça.