O ano de 2008 começou com duas mortes trágicas causadas por balas perdidas em tiros de festejo. Um prenúncio de um ano em que as ondas de violência parecem não ter fim. Nos últimos dois meses, pelo menos oito pessoas morreram ao serem baleadas e 16 foram feridas. O acesso às armas de fogo está no centro da criminalidade violenta.

O descontrolo no tráfico de armas em Portugal não é segredo. As autoridades assumem o combate ineficaz: «No que respeita ao tráfico de armas, apesar do desmantelamento de pequenas redes ilegais de comercialização de armas, persiste a actuação de estruturas criminosas, de origem estrangeira, que se enformam de um elevado grau de sofisticação e apresentam uma oferta de produtos bastante diversificada», lê-se no Relatório Anual de Segurança Interna (RASI) de 2006.

Munições de G3 e granada encontradas no lixo

Fonte policial explicou ao PortugalDiário a razão do «controlo do tráfico de armas» ser ainda uma «utopia»: «Com ausência de fronteiras o combate é muito difícil». A legalização de armas em Espanha ou França «é mais fácil», por isso, «qualquer pessoa pode adquirir uma arma e chegar a Portugal sem que seja detectado».

Também o secretário-geral do Gabinete Coordenador de Segurança, general Leonel Carvalho, reconhece que o tráfico de armas é «praticamente incontrolável», sendo que «é muito difícil entrar» no mercado negro, lembrando que muitas das armas «são fabricadas Europa», o acesso é barato, e que a actuação das polícias depende sempre de mandados judiciais.

O responsável adianta que apesar de não existir uma explicação para a sucessão de seis crimes violentos numa semana, na grande Lisboa, está «preocupado» com a «utilização da arma a disparar para matar».

«Ninguém tem 200 armas em casa»

A proliferação de armas ilegais em Portugal deve-se também ao «desarmamento dos países de Leste». «As próprias máfias e o tráfico de droga controlam o mercado», disse. «Um problema que não é só nosso. É de todos os países ocidentais. Controlar este mercado é uma utopia», explicou um investigador policial.

Depois da entrada em território nacional, a «caça às pistolas» não se torna mais fácil. «A investigação faz o percurso inverso ao percorrido pelas armas, mas ao chegar a um suspeito, este não é «burro» para ter 200 armas em casa. É detido, mas a pena é curta e imediatamente o espaço que tinha no mercado é ocupado por outro», adiantou a fonte.

Transformadas

Para além das armas de guerra - como metralhadoras, usadas com mais frequência nos assaltos a carrinhas de valor -, em Portugal, uma das mais comuns é a 6.35mm. Em muitos casos era apenas uma pistola de alarme que foi transformada. «Existem mais de 62 mil mecânicos capazes de o fazer», disse o investigador.

As armas de caça também entram nestas contas. Com um universo de mais de 200 mil caçadores, em que cada pode possuir várias armas, «é fácil perceber o perigo». As espingardas de caça não estão directamente associadas aos assaltos, no entanto, desempenham um papel trágico nos casos de violência doméstica. Durante o ano de 2006, foram registados 36 casos de utilização de armas de fogo e 30 de armas de caça em situações de violência doméstica, segundo o RASI.

Apesar de não haver estatísticas fiáveis, as armas ilegais já foram estimadas em 770 mil, o mesmo número que as armas legalizadas no nosso país. Fontes policiais contactadas pelo PortugalDiário admitem porém que este número será muito maior, variando entre os dois e três milhões de armas. Em 2006, as autoridades no seu conjunto, recuperaram quase três mil armas.
Cláudia Costa