De vazia, durante o confinamento, a noite de Lisboa voltou a tornar-se num lugar agregador de milhares de jovens. Contudo, o antigo normal voltou diferente. Os espaços de diversão noturna encerram agora às 02:00 e quem outrora acabava a noite nas discotecas da capital, agora fica a deambular pelas ruas de locais como Santos, Cais do Sodré ou Bairro Alto juntamente com milhares de outros.

Nos últimos dias, destes aglomerados de grandes dimensões têm resultado agressões, roubos, esfaqueamentos e até um morto a tiro. As imagens surgem nas manhãs seguintes e proliferam-se entre utilizadores nas redes sociais.

A Polícia de Segurança Pública (PSP) já reconheceu o problema. A força policial decidiu reforçar o número de efetivos e condicionar os acessos a estes três locais de Lisboa durante a noite.

Contudo, o intendente Nuno Carocha, porta-voz da Direção Nacional da PSP, explica que, apesar deste recente aumento de incidentes violentos nas redes sociais, “a violência não está a aumentar quando comparada com os dois anos anteriores".

A PSP reconhece que estas são ocorrências "preocupantes", mas lembra que não são novidade nas zonas de diversão noturna espalhadas por todo o país.

Não registámos um aumento, mas registámos sim uma maior perceção de uma urgência de uma intervenção. Muito potenciada pelo facto de as imagens e as ocorrências circularem profusamente por intermédio das redes sociais. Ainda assim, não queremos menorizar a questão. Os roubos que têm acontecido e as ofensas à integridade física preocupam-nos e por esse motivo é que a PSP, desde que se iniciou o processo de desconfinamento, identificou como de intervenção crucial o regresso da atividade noturna”, esclarece Nuno Carocha, porta-voz da Direção Nacional da PSP.

 

A psicóloga Margarida Cordo considera que este tipo de concentrações de jovens era praticamente inevitável. Do mais novo ao menos velho, os portugueses viram restringidas algumas das suas liberdades algo que se revela agora nos comportamentos, sobretudo, nas faixas etárias mais novas.

De acordo com a especialista, o imediatismo de reatar a vida social, estagnada desde março de 2020, motiva excessos de todos os tipos e potencia o desregulamento de certos tipos contexto, particularmente, entre os jovens.

A sede de viver. Esta ‘pressa de estar’ tem feito com que as circunstâncias sejam mais desreguladas. (…) As consequências de uma noite às vezes são consequências de vida e até de morte. Temos de pensar isto bem pensado”, explica a psicóloga Margarida Cordo.

 

A advogada Rita Garcia Pereira identifica o "egoísmo e o individualismo" como o maior ponto negativo dos acontecimentos das últimas noites na capital. A especialista em direito confessa que ficou impressionada ao ver pessoas que assistiam a crimes violentos sem que prestassem qualquer tipo de auxílio à vítima.

Garcia Pereira salienta também o "fosso" entre gerações que mais uma vez a pandemia de covid-19 colocou a nu. Enquanto, uns se divertem em Santos, Cais do Sodré e Bairro Alto, outros permanecem isolados com medo do inimigo invisível que matou quase 18 mil pessoas em território nacional.

Parece-me haver aqui um certo egoísmo social e um fosso entre os mais novos, que têm a famosa fúria de viver, e os mais velhos, que têm medo de não viver. Não sei o que as autoridades podem fazer para pôr cobro a estas situações, porque tenho algumas dúvidas quanto à legitimidade de se impedirem estes ajuntamentos sem a existência de estado de emergência”, refere a advogada Rita Garcia Pereira.

 

Já o comentador da TVI24 Miguel Guedes considera que crimes violentos na noite não são nenhuma novidade no país. 

Miguel Guedes teoriza que "porventura nos desabituámos", mas lembra casos como o da noite branca, no Porto, ou o grupo armado, que espalhou o medo na noite bracarense.

Devemos ter um certo cuidado para não criar uma nota de alarmismo. Julgo que não estamos num momento que configure uma situação de alarme, mas vamos ver como correm os próximos dias. Também me parece que estamos perante um caso em que devamos inflacionar um problema pelo facto de olharmos para estes casos e acharmos que são coisas que estão a acontecer agora e não aconteceram no passado. Porventura, desabituamo-nos de ver isto. Durante um ano e meio estivemos encerrados em casa tal como grande parte das redes sociais. (…) Estes casos sempre existiram e vão continuar a existir”, diz Miguel Guedes.

 

Nuno Mandeiro