O fotógrafo, artista plástico e designer gráfico Fernando Lemos, de 93 anos, morreu esta terça-feira, em São Paulo, no Brasil, revelou à agência Lusa fonte próxima da família.

O artista nascido em Portugal e de nacionalidade brasileira, morreu numa unidade hospitalar da cidade brasileira, onde estava internado, segundo a mesma fonte.

  

Desde 1953 radicado no Brasil, onde vivia, em São Paulo, Fernando Lemos pertence à terceira geração de modernistas portugueses e o seu trabalho foi inicialmente inspirado pelo movimento surrealista.

Deixa uma vasta obra de pintura, desenho, poesia, e também na área do design, gráfico e industrial.

Eu não sou fotógrafo. Eu sou fotografia. Eu sou um desenhista que escreve. Escrevo como quem pinta. Pinto como quem faz desenho. Desenho como... Quer dizer: Eu sou a fotografia e a fotografia é que é a marca", afirmou para o catálogo da retrospetiva "Eu Sou Fotografia", inaugurada no Palácio Galveias, em Lisboa, em fevereiro de 2011.

Referência da cultura portuguesa e brasileira, Fernando Lemos é reconhecido, em Portugal, sobretudo pela fotografia de inspiração surrealista, realizada nos anos de 1949 a 1952 e, no Brasil, pela pintura e desenho abstratos, em particular, mas também pelas artes gráficas e pela fotografia, que sempre o marcou.

Depois de, na década de 1940, ter comprado uma "máquina primitiva, uma Flexaret checoslovaca", como dizia, começou "uma fúria a fotografar tudo", e vários nomes destacados das artes e letras portuguesas, da época, passaram pela sua objetiva: Sophia de Mello Breyner Andresen, Jorge de Sena, Adolfo Casaes Monteiro, Arpad Szenes, Maria Helena Vieira da Silva e Mário Cesariny, Alexandre O'Neill, entre outros.

A minha primeira exposição foi criar uma galeria de gente oprimida e proibida de se exprimir", recordou Fernando Lemos, sobre o tempo de ditadura, que o levou a deixar o país, quando esteve (pela última vez) em Portugal, em 2019.

Pelo grande impacto que estes retratos a preto e branco criaram, na altura, marcando a sua obra, Fernando Lemos ficou mais conhecido como fotógrafo e menos como designer e pintor.

Um importante conjunto desses retratos de protagonistas do mundo intelectual português do final dos anos 1940, com os quais veio a conquistar reconhecimento da crítica, foi mostrado em 2016, no Museu Coleção Berardo.

  

Nascido em Lisboa, em 03 de maio de 1926, Fernando Lemos viveu a infância em Santa Isabel, nos lugares da rua do Sol ao Rato, cujos telhados registou naquela que considera a sua primeira fotografia, datada da década de 1940. Estudou pintura e litografia na Escola de Artes Decorativas António Arroio e na Sociedade Nacional de Belas Artes. Foi influenciado pelo movimento surrealista.

Radicou-se no Brasil, em 1953, onde passou a residir, e obteve em 1960 a nacionalidade brasileira, na sequência da oposição ao regime ditatorial de Oliveira Salazar.

A sua fotografia das décadas de 1940 e 1950 revela a convivência do artista na resistência à ditadura, e a sua proximidade a personalidades como Maria Helena Vieira da Silva e Arpad Szénes, também eles forçados a fixar-se no Brasil, durante a II Guerra Mundial, e a afastar-se do Portugal de Salazar.

Um dos pontos altos dessa oposição foi a participação de Lemos na primeira exposição do Grupo Surrealista de Lisboa, no Chiado, em 1949, realizada num 4.º andar da Travessa da Trindade, contra os códigos aceites pelo Secretariado Nacional de Informação e o "gosto provinciano" dominante.

Seguiu-se, em 1952, a exposição na antiga Casa Jalco, na rua Ivens, também na capital, com Marcelino Vespeira e Fernando Azevedo, outros protagonistas do Grupo Surrealista, onde levou guaches, desenhos e pinturas a óleo, e da qual nasceria o projeto da Galeria de Março (de José-Augusto França), na avenida António Augusto de Aguiar, que viria a receber os seus desenhos, em 1954.

    

Um ano antes, já no Brasil, afirmou o seu nome com a mostra de fotografia no Museu de Arte Moderna de São Paulo, de que viria mais tarde a ser diretor técnico, e no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro.

Nos anos seguintes, porém, a fotografia passou a segundo plano. Trabalhou em artes plásticas, publicidade, design gráfico e industrial, iniciou a atividade pedagógica, como professor auxiliar da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo, que manteve durante décadas, presidiu a Associação Brasileira de Design Industrial.

No ano de 1957, obteve o Prémio Nacional de Desenho da Bienal de Arte de São Paulo, que já o distinguira com o Prémio de Pintura, em 1953. Em 1956, recebeu o Prémio de Arte Contemporânea do Brasil.

Em 1958, expôs desenho no Museu de Arte Moderna de São Paulo, fez uma primeira retrospetiva na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo e levou a sua produção artística à galeria Bonino, no Rio de Janeiro.

Em 1959, foi um dos 50 Artistas Independentes, reunidos pela Sociedade Nacional de Belas Artes (SNBA), em Lisboa, e, em 1961, mostrou desenho na II Exposição de Artes Plásticas da Fundação Calouste Gulbenkian, que antecedeu a construção do museu.

Como bolseiro da Gulbenkian, em 1962, fixou-se temporariamente no Japão, onde viria a produzir os vitrais do Palácio de Congressos de Hakkone e, mais tarde, a ser convidado como consultor da instalação do Museu Namban, em Nagasaki (1979).

  

Dedicou-se à escrita. Publicou "Teclado Universal", título para a reunião da sua obra poética das décadas de 1950 e 1960, género a que voltaria em 1985, com "Cá & Lá", e em 2001, com "O Silêncio É dos Pássaros".

Em São Paulo, esteve no grupo fundador da editora Giroflé, dedicada à literatura para crianças, fez parte da redação do jornal Portugal Democrático, criado por exilados políticos no Brasil, foi correspondente da revista Colóquio Artes, da Gulbenkian, assessor para as Artes Plásticas do Secretariado de Cultura de São Paulo e editor de Arte do Departamento do Património Histórico.

Em 1973, participou na Exposição Inaugural Coletiva da Galeria Quadrum, em Lisboa, e expôs "Signos Desmemoriados", na antiga Galeria Dinastia, ativa entre 1968 e 1980, na capital portuguesa.

A exposição de 1982, na SNBA, marcaria o regresso de Lemos à fotografia inicial: "Refotos. Anos 40".

A Fundação Calouste Gulbenkian dedicou-lhe a primeira grande retrospetiva individual, no Centro de Arte Moderna, "A Sombra da Luz", também sob o signo da fotografia. Foi em 1994, dois anos depois da mostra no Centro Cultural Português, em Paris.

Dez anos mais tarde, em 2004, o título da mostra em Lisboa seria expandido para as retrospetivas na Pinacoteca de São Paulo e no Museu de Belas-Artes do Rio de Janeiro: "A Sombra da Luz - A Luz da Sombra".

Entre o final dos anos de 1990 e o início dos anos 2000, a fotografia de Fernando Lemos seria mostrada em Hamburgo e em Toulouse, na Múltipla de Arte, em São Paulo, na Galeria Tempo, no Rio de Janeiro.

A sua expressão passaria também pelo Museu de Arte Moderna de Sintra, pela Casa das Mudas, no Funchal, pela Galeria 111, em Lisboa, pela galeria municipal de Tomar.

Em novembro de 2009, a Fundação Cupertino de Miranda reuniu a fotografia de Fernando Lemos numa retrospetiva que, em fevereiro de 2011, seria alargada ao Palácio Galveias, em Lisboa, sob o título "Eu sou Fotografia", em colaboração com o município.

Nesse ano, a Pinacoteca do Estado de São Paulo acolheu também a exposição “Lá & Cá", que, à semelhança do livro de poesia, sintetizava o lugar de Fernando Lemos entre Brasil e Portugal. Foi, à data, a maior retrospetiva da sua obra no Brasil, congregando cerca de 200 peças, entre pinturas, desenhos, fotografias, objetos e gravuras, realizados desde 1947.

Por essa exposição, Fernando Lemos foi distinguido com o Prémio Governador do Estado de São Paulo para a Cultura 2011.

Um ano antes, estivera em Lisboa para apresentar "Isto é Isto" (desenho) e "Ex-Fotos" (fotografias rejeitadas, trabalhadas plasticamente), na Fundação Arpad Szénes-Vieira da Silva, mostra que deu origem à publicação dos dois livros homónimos, testemunho de absurdos do quotidiano.

Na altura, numa entrevista à agência Lusa, o artista sublinhava que as fotografias que fez nos anos de 1940 e 1950, e que lhe deram reconhecimento, pareciam ter sido feitas na atualidade, "porque nelas não há resquícios de época, são mais humanas, poéticas".

Fernando Lemos salientou, na mesma entrevista, que essas imagens a preto e branco "têm toda uma pesquisa ligada ao sentimento poético do surrealismo", um dos movimentos estéticos que mais o influenciaram.

Com décadas de trabalho no desenho, na fotografia, na pintura, Fernando Lemos considerava que a arte contemporânea mantinha “coisas que não foram resolvidas”.

No caso da fotografia, porém, garantia que esta "fala por si mesma": "A fotografia logo que nasce é o seu próprio registo. Uma escultura pode dizer 'fotografa-me'. Um livro pode dizer 'faz um filme comigo'. Mas a fotografia é ela mesma. Já é o registo, e a sua eternidade torna-se quase que um fantasma".

Na altura, o mestre da fotografia defendeu que "o que se exige do artista" é que saiba "o que é e não é fotografia".

Em 2019, Fernando Lemos teve, em Portugal, pela primeira vez, uma exposição totalmente dedicada à sua produção no design gráfico -- uma disciplina que ocupou grande parte da sua vida criativa --, com um total de 230 obras, organizada pelo Museu do Design e da Moda, na Cordoaria Nacional, em Lisboa.

  

O artista, com 93 anos, presente na inauguração, sublinhou a importância desta área na sua expressão.

Fernando Lemos recebeu o Prémio Itamaraty, do Governo Brasileiro, em 1966, o Prémio Nacional de Fotografia, do Centro Português de Fotografia, em 2001, o Prémio de Pintura Banif Consagração, em 2008, e o Prémio da Associação Paulista de Críticos de Arte, em Artes Visuais, em 2016.

Em 2004 foi-lhe atribuído o grau de comendador da Ordem do Infante D. Henrique, elevado ao grau de Grande-Oficial da Ordem do Infante D. Henrique, em 2018.

Os documentários "A Luz Teimosa" (2010), de Luiz Alves de Matos, "Fernando Lemos e o Surrealismo" (2006), de Bruno Almeida e Pedro Aguilar, "Fernando Lemos atrás da Imagem" (2005), de Guilherme Coelho, e "Retrato de Fernando Lemos" (2001), de Olívio Tavares Araújo, são alguns dos filmes mais recentes dedicados à obra do artista.

Em "Fernando Lemos - Como, Não é Retrato?" (2017), de Jorge Silva Melo, afirmou: "Fui estudante, serralheiro, marceneiro, estofador, impressor de litografia, desenhador, publicitário, professor, pintor, fotógrafo, tocador de gaita, emigrante, exilado, diretor de museu, assessor de ministros, pesquisador, jornalista, poeta, júri de concursos, conselheiro de pinacotecas, comissário de eventos internacionais, designer de feiras industriais, cenógrafo, pai de filhos, bolseiro, e tenho duas pátrias -- uma que me fez e outra que ajudo a fazer. Como se vê, sou mais um português à procura de coisa melhor".

 

Ministra lamenta morte de alguém a quem a cultura muito deve

A ministra da Cultura, Graça Fonseca, disse que “lamenta profundamente” a morte do fotógrafo, pintor e ‘designer’ gráfico Fernando Lemos, de 93 anos, ocorrida hoje em São Paulo, Brasil, especificando que a cultura portuguesa tem-lhe várias dívidas.

A Cultura portuguesa deve-lhe a experimentação na palavra, na imagem, na edição, mas igualmente na resistência à ditadura e na ousadia de não se submeter a formas, num compromisso artístico e ético inabalável”, declarou a ministra, em depoimento enviado à agência Lusa.

A responsável pela pasta da Cultura recordou também que Fernando Lemos, natural de Lisboa, onde estudou na Escola António Arroio, fez parte, inicialmente, do movimento surrealista português.

No seu texto, Graça Fonseca lembrou que Lemos, “em 1952, antes do seu exílio no Brasil, por oposição à ditadura salazarista, participou numa exposição que reuniu trabalhos seus em conjunto com os artistas Marcelino Vespeira e Fernando Azevedo, na Casa Jalco. No mesmo ano dirigiu, com José-Augusto França, a Galeria de Março. Participou também, em 1959, na Exposição 50 Artistas Independentes da Sociedade Nacional de Belas-Artes e, em 1961, na II Exposição de Artes Plásticas da Fundação Calouste Gulbenkian”.

A ministra considerou ainda que, apesar de “um percurso artístico longo e diverso nas abordagens”, a obra de Lemos “nunca coube numa única definição”.

 

Marcelo lembra "um dos últimos grandes artistas do surrealismo e modernismo português"

O Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, lamentou esta terça-feira a morte do fotógrafo e artista plástico Fernando Lemos, considerando-o um dos últimos grandes artistas do surrealismo e modernismo português.

Foi com grande pesar que recebi a notícia da morte de Fernando Lemos, um dos últimos grandes artistas do surrealismo e modernismo português”, afirma Marcelo Rebelo de Sousa, num comunicado publicado no ‘site’ da Presidência da República Portuguesa.

Para o Presidente da República, “será certamente difícil não conhecer pelo menos uma parte do multifacetado talento de Fernando Lemos, cuja obra percorreu a pintura, a escrita, a fotografia, o desenho, encenações figurativas, design e até publicidade”.

Artista mutável, transfigurador do real e da sombra, a sua obra (e é inevitável lembrar em particular a fotografia e o retrato) tem tanto de ambiguidade difícil de catalogar como mero abstracionismo, como de familiaridade quando os objetos retratados eram os rostos de Alexandre O’Neill ou Sophia Mello Breyner, Jorge de Sena, Mário Cesariny, Helena Vieira da Silva, Hilda Hilst, Arpad Szenes, e muitos outros”, salienta.

Marcelo Rebelo de Sousa recorda a decisão de Fernando Lemos ter ido viver para o Brasil, nos anos de 1950, mas sem nunca quebrar a ligação com Portugal, onde nas décadas seguintes continuou a apresentar os seus trabalhos, na Sociedade Nacional de Belas Artes, na Fundação Calouste Gulbenkian e em diversas galerias, culminando, nos últimos anos, em mostras em instituições como a Fundação Cupertino de Miranda e o Palácio Galveias/Câmara de Lisboa, no Museu Arpad Szenes - Vieira da Silva, com a Fundação EDP/MAAT, no Museu Coleção Berardo.

A este propósito, Marcelo Rebelo de Sousa lembra a última grande exposição de Fernando Lemos, na Cordoaria Nacional, há poucos meses, dedicada exclusivamente ao design gráfico, que esteve patente entre junho e outubro, por iniciativa do Museu do Design e da Moda (MUDE).

Em 2018 foi atribuído ao artista o grau de Grande Oficial da Ordem do Infante D. Henrique, a que se somam muitas outras distinções, prémios nacionais e internacionais, "mas sobretudo o reconhecimento e profunda gratidão de todo um país perante o mestre do modernismo", sublinha Marcelo de Sousa no comunicado.

/ HCL