A psicóloga Maria José Vilaça, que aparece na reportagem assinada pela jornalista Ana Leal a fazer uma suposta terapia de reconversão sexual a homossexuais, assegura que o que faz é “acompanhamento pastoral” com quem a procura. Maria José Vilaça mostrou-se indignada com a gravação com recurso a câmara oculta e considerou estar a ser alvo de “uma caça às bruxas”, acabando por abandonar o debate a meio.

O ‘Carlos’ esteve em duas conversas prévias em que eu esclareci muito bem que não faço terapia de reconversão (…). Se o Carlos é feliz com o seu estilo de vida homossexual, eu acho ótimo que seja. Não tenho nada contra.”

Acho lamentável que isto se transforme, da vossa parte, numa espécie de caça às bruxas em que a bruxa sou eu.”

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Antes de deixar o estúdio onde decorria o debate, acusando a TVI e a jornalista Ana Leal de “manipulação” e de “má fé”, Maria José Vilaça garantiu que ‘Carlos’, o homossexual que a procurou e gravou as conversas com câmara oculta, “mentiu”: “Os encontros na igreja eram encontros de acompanhamento pastoral. Eu disse-lhe e ele sabe perfeitamente: não é terapia. Não há terapia nenhuma, nem lhe deve nunca chamar terapia. É acompanhamento espiritual”.

Questionada pela psiquiatra Ana Matos Pires, também presente no debate, sobre as razões que a levaram a encaminhar um doente que a procurou para a Igreja, Maria José Vilaça respondeu: “Eu não sou psicóloga. Eu sou pessoa, que também é psicóloga, que também é católica. Mas sou uma pessoa, não sou uma máquina”.

“Ela dizia-me que era completamente errado”

‘Carlos’ justifica que recolheu estas provas por amor. Viu alguém que amava muito sofrer por causa destas alegadas terapias de reconversão e decidiu denunciá-las. Assegura que foi Maria José Vilaça quem o encaminhou para a igreja e para as terapias, quando a procurou enquanto profissional de saúde mental.

Eu fui ter com a dra. Maria José vilaça e perguntei-lhe diretamente ‘será que eu tenho um problema?’. E a resposta dela foi: ‘se está aqui é porque não se sente bem consigo’. Ninguém nos obriga, mas acabam por nos oferecer um único caminho. Acabam por nos condicionar as decisões.”

Eu dizia-lhe que nunca vivi um amor como o que vivo agora, que é de entrega genuína, de preocupação com o outro, de querer fazer um caminho junto. E ela dizia-me que era completamente errado. (…) Foi a dra. Maria José que me falou no grupo que se reunia na igreja.”

“Trato os meus doentes de igual modo”

O psicólogo clínico Abel Matos Santos também abandonou o debate que visava discutir uma investigação do programa "Ana Leal" sobre um grupo secreto que faz terapia de conversão de homossexuais. Antes, Abel Matos Santos assegurou que não sabe o que são “terapias de reconversão”. “Trato os meus doentes de igual modo”, disse.

O psicólogo criticou os métodos da TVI para conseguir as provas que sustentam a reportagem, considerando-os perigosos e “um dos maiores atentados à defesa dos homossexuais em Portugal e das pessoas em geral”.

A relação terapêutica que se estabelece entre os doentes e os profissionais de saúde é fundamental para as pessoas se sentirem bem no contexto clínico terapêutico. Hoje sabemos que é possível pessoas levarem câmaras ocultas para consultas, para a igreja, para confissões e isso ser divulgado na praça pública. Temo que muita gente tenha problemas tenha dificuldade em procurar psicólogo com esse medo ou que até os profissionais de saúde se sintam inibidos na sua liberdade de trabalhar, sentindo que podem ter alguém do outro lado que os está a gravar”, justificou.

“Porque é que haveria necessidade de mudar a orientação sexual?”

Presente no debate, esteve também Manuel Esteves, do colégio de Psiquiatria da Ordem dos Médicos. O responsável mostrou-se “preocupado” com o que assistiu na reportagem do programa "Ana Leal".

Fico um bocadinho preocupado com a associação das orientações sexuais com outros quadros psiquiátricos major, como seja a doença bipolar ou o surto psicótico. Preocupa-me também o entendimento da orientação sexual como uma coisa comportamental. Como uma coisa que é aprendida na vida e que é possível desaprende-la. E se isso é verdade em relação a algumas coisas da sexualidade, é bastante o consenso na psiquiatria e nos fóruns internacionais que a orientação e a identidade sexual são questões muito mais complexas e têm algumas raízes de índole biológica, o que tornaria difícil a mudança de uma orientação sexual apenas por psicoterapia.”

E questiona ainda: “Porque é que haveria necessidade de mudar a orientação sexual, seja num sentido, seja noutro?”

Uma preocupação que foi no sentido da da psiquiatra Ana Matos Pires, que se mostrou indignada.

Um psiquiatra, um psicólogo, alguém que trabalha em saúde mental tem de ter um duplo cuidado na maneira como usa o diagnóstico e naquilo que diz às pessoas. A homossexualidade não é uma doença e, se não é uma doença não tem de ser tratada”, rematou.