Shahd Wadi, ex-assessora da Missão Diplomática da Palestina em Portugal, disse ter sido demitida na segunda-feira do seu cargo por ter condenado nas redes sociais o “assassinato” do militante palestiniano Nizar Banat.

No dia 5 de julho último, a Missão Diplomática da Palestina informou-me verbalmente de que o Ministério dos Negócios Estrangeiros da Palestina exigiu a minha demissão imediata e sem aviso prévio do cargo de Assessora dos Assuntos Culturais e Imprensa, por ter condenado nas redes sociais, o hediondo assassinato do ativista político e candidato ao Conselho Legislativo da Palestina, Nizar Banat, morto pelas mãos das Forças de Segurança da Autoridade Palestiniana após a sua detenção”, refere Shahd Wadi num correio eletrónico enviado à agência Lusa.

Banat, 43 anos, morreu no dia 24 de junho, algumas horas depois de ter sido detido pelas forças de segurança na Cisjordânia ocupada. O militante dos direitos humanos era conhecido pelos seus vídeos na rede social Facebook criticando a Autoridade Palestiniana, presidida por Mahmud Abbas, que o ativista acusava de corrupção.

A morte de Nizar Banat, cuja família acusou as forças de segurança palestinianas de o "terem assassinado", desencadeou uma onda de revolta na Cisjordânia.

Shahd Wadi indica ter declarado o seu “repúdio” pelo ato, partilhando nas redes sociais artigos do pai, Farouq Wadi, sobre o assunto e assinando “uma carta aberta conjunta de um grupo de jovens palestinianas e palestinianos residentes em Portugal, a qual foi entregue na Missão Diplomática da Palestina, no dia 30 de junho último”.

Contactada pela Lusa, a representação da Palestina em Portugal confirmou que “o contrato (de Wadi) foi encerrado no dia 5 de julho e ela terá todos os benefícios a que tem direito". 

A ex-assessora diz ter recebido “uma carta de cessação de contrato” e ter-lhe sido prometida “uma indemnização em breve”, adiantando que a missão diplomática lhe agradeceu “o trabalho desempenhado (…) desde 2010”.

No correio eletrónico enviado à Lusa em nome do embaixador da Palestina em Portugal, Nabil Abuznaid, é indicado que a ex-assessora trabalhava “com um contrato local”, que “estabelece que a Dra. Wadi e a missão podem rescindir o contrato a qualquer momento com aviso prévio de 30 dias”.

“Sendo este contrato um contrato local, é direito e responsabilidade da Missão rescindir ou assinar os contratos com os funcionários locais”, adianta o texto.

Shahd Wadi diz que o seu despedimento “não foi o primeiro”, referindo o caso de “Ihab Bseiso, diretor da Biblioteca Nacional da Palestina e ex-ministro da Cultura” que “foi demitido por ter criticado nas redes sociais este assassinato extrajudicial”, assim como a repressão violenta, “usando métodos utilizados normalmente pelas forças da ocupação israelita, como o gás lacrimogéneo”, de “manifestações pacíficas que foram organizadas em protesto" contra a morte do referido militante.

As agências de notícias internacionais noticiaram que protestos contra a Autoridade Palestiniana na sequência da morte de Banat foram marcados por confrontos entre manifestantes e forças da ordem, bem como que jornalistas que faziam a cobertura das manifestações relataram terem sido alvo de violência da polícia, mobilizada em massa.

Há uma semana, a Alta-Comissária para os Direitos Humanos da ONU pediu à Autoridade Palestiniana para “assegurar a liberdade de expressão e de reunião pacífica”.

“As forças de segurança palestinianas devem agir de modo a garantir a proteção e segurança para o exercício dos direitos humanos, incluindo as concentrações pacíficas”, disse Michelle Bachelet num comunicado, onde também saudou as garantias dadas pelo primeiro-ministro palestiniano, Mohammed Shtayyeh, sobre a investigação à morte de Banat.

Sobre o caso do ativista, a missão diplomática da Palestina em Portugal diz “lamentar e condenar a sua morte”, recordando que “está uma investigação em curso” e assegurando que “qualquer pessoa envolvida será punida de acordo com a lei”.

“Saliento que as minhas críticas neste momento sobre os vários episódios de violência e de represálias da parte da Autoridade Palestiniana partem da minha crença da importância de reunir e juntar o povo palestiniano e não criar mais divisões”, indica igualmente Shahd Wadi.

Assinalando que não pretende que o seu caso desvie “a atenção da luta principal contra a ocupação israelita”, a ex-assessora afirma: “Mas não podemos esquecer que quando lutamos pela liberdade da Palestina, lutamos por toda a liberdade contra qualquer opressão, venha ela de onde vier”.

A Autoridade Palestiniana exerce o seu poder apenas em 40% da Cisjordânia, território palestiniano ocupado pelo exército israelita desde 1967. Israel, que controla todos os acessos à região, administra os restantes 60%, assim como os colonatos.

Segundo uma sondagem divulgada em meados de junho pelo Centro de Investigação Palestiniano sobre Política e Sondagens, com sede em Ramallah, cerca de 84% dos palestinianos considera que a Autoridade Palestiniana é corrupta.

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