As crianças, tal como os adultos, têm medos e receios, mas e se lhe dissermos que os medos dos filhos não são os mesmos que os dos pais?

A propósito do Dia Mundial da Criança, que se assinala nesta quinta-feira, a TVI24 falou com um especialista sobre os grandes medos das crianças.

Paulo Oom, professor, pediatra e autor de várias publicações explica que é normal que a criança tenha medos, estranho seria se não os tivesse, mas, ao contrário do que pensamos, a forma como os pais lidam com esses medos é que é fundamental.

As crianças têm medo do escuro, de monstros debaixo da cama ou atrás do armário, têm medo de animais, mas não temem o mesmo que os pais, a menos que sejam alarmados pelos seus progenitores, as pessoas em quem mais confiam.

É normal que uma criança tenha medo do escuro e de monstros debaixo da cama se os pais continuam a dizer: 'se te portares mal, vem o bicho papão', quando não há bicho papão nenhum, nem razões para alarme.”

Se, por um lado, há pais que sem querer podem alarmar as crianças com os seus receios, por outro lado, há quem prefira ignora-los. E essa não é a atitude correta, defende o pediatra. Os pais devem aceitar os medos dos filhos, passando-lhes a confiança de que os medos são normais e próprios da idade, mas que são ultrapassáveis e que dizer à criança “se tens medo do escuro dorme de luz acesa” pode ser muito mais produtivo.

Há novas questões que estão a assolar o mundo e a mente das pessoas, tornando-se receios que chegam até a mudar a forma como as pessoas agem no dia-dia-dia. Muitos pais temem que esses sejam também medos dos filhos, mas o pediatra garante que as "crianças não são adultos em ponto pequeno". 

Os medos dos pais só são os medos dos filhos se for essa a mensagem passada.”

Cinco medos dos pais

Terrorismo

Ainda que Portugal não tenha sido alvo de um atentado terrorista, os mais recentes acontecimentos na Europa têm alarmado os portugueses. Seria expectável que as crianças perguntassem o que é o terrorismo que tanto se fala nas televisões, já que, como é próprio delas, questionam tudo o que não percebem.

Se, enquanto pai, já ficou sem resposta ao ser questionado pelo seu filho sobre o que é o terrorismo saiba que, de acordo com Paulo Oom, “o terrorismo não deve ser explicado às crianças, porque criança é criança e adulto é adulto, elas não têm de saber essa realidade”. Portanto, melhor mesmo é aprender a lidar com os próprios medos sem os passar às crianças e sem as alarmar, já que, diz o pediatra, esta é uma questão que “passa bem despercebida”.

Divórcio

Portugal é líder europeu em divórcios, de acordo com os últimos dados avançados pela Pordata, mas será a separação um medo dos pais ou dos filhos? Para Paulo Oom, as crianças não temem o divórcio, mas sim as consequências da separação, a nova rotina, o que vem depois.

É claro que as crianças se apercebem que os pais discutem e gritam, mas já encaram com normalidade porque os amigos também têm os pais separados. O medo só acontece depois, com a alteração das rotinas, com o medo de perder os amigos, mudar de escola, esse sim é um medo real.”

Crise

Também a dimensão económica e os problemas financeiros mexem com várias questões em casa e podem mesmo ser responsáveis por alterações de humor que, inconscientemente, se refletem na relação com a criança e no que lhe é transmitido.

Questionado sobre se os pais devem explicar a crise às crianças, Paulo Oom entende que essa é uma temática que só deve ser explicada a crianças mais crescidas e apenas se for estritamente necessário.

É importante que a criança perceba o porquê de não ter aquele brinquedo, porque deve aprender o valor das coisas, mas os pais não devem partilhar com os filhos os seus receios e angústias. Mais uma vez, as crianças não são adultos em ponto pequeno, e os medos dos pais só são os medos dos filhos se for essa a mensagem passada.”

No entanto, há uma dimensão associada à crise que é importante para o desenvolvimento da criança, como aprender desde cedo a gerir o dinheiro. O pediatra defende que a criança deve “começar a receber uma mesada e semanada desde o 1.º ano do ensino primário”. O problema, diz Oom, é que alguns dos pais já caíram na armadilha do consumo, o “receber de mão beijada, a ideia de que não é preciso esperar ou amealhar” e, assim, será mais difícil passar esses valores às crianças.

Bullying

Para o pediatra este é o único medo que merece uma reflexão diferente. Este é um medo dos pais, porque poderá ser um medo dos filhos, mas Paulo Oom acredita que só se torna um medo quando as crianças já foram vítimas ou conhecem alguém próximo que tenha sido, caso contrário elas "não vão para a escola com medo, até porque já estão muito alertadas para isso”.

O cyberbullying, pelo contrário, é “um medo que tem de ser encarado de frente porque é muito grave” e aqui, ao contrário das situações anteriores, “não faz sentido que não se fale sobre isso”.

Isto não significa que este medo seja mais preocupante do que os outros, até porque, à semelhança dos restantes, também tem solução e há várias formas de os pais prevenirem situações de risco.

É um erro que a criança tenha o computador no quarto. A navegação na internet deve ser feita num sítio público, como na sala. Os pais podem aceder ao histórico da criança enquanto esta dorme e depois falar com ela, sempre na medida certa, não de forma a alarmar, mas a explicar que a internet é também um perigo e que há vários casos que o comprovam.”

Independência

A questão que se coloca é: são as crianças que têm medo de ser independentes ou são os pais que temem essa independência? Hoje em dia, as crianças já não brincam tanto na rua, com os amigos, em desportos coletivos, por exemplo. Ao invés, como denuncia o pediatra, escondem-se atrás de videojogos, o que é “altamente prejudicial porque deixam de saber relacionar-se com os outros”.

Além disse, o acesso a redes sociais em crianças com idades inferiores a 13 anos começa a ser uma realidade. Paulo Oom lembra que muitas crianças parecem populares nas redes sociais, mas estão muito isoladas, em plena solidão e que “mil amigos no Facebook e 100 gostos em um minuto não significam nada” e que este sim é um medo das crianças, o medo de se sentirem sozinhas e de não serem amadas.