Especialistas reforçaram este domingo à TVI que as direções escolares devem, agora mais do que nunca, esforçar-se por não deixar nenhum aluno para trás, destacando que uma aula não pode ser encarada como um acontecimento estático.

Uma aula é como um jogo de ténis, em que o professor lança a bola e depois recebe-a de volta", afirma João Araújo, presidente da Sociedade Portuguesa de Matemática, realçando que é preciso aproveitar as crianças que conseguem lidar com o ensino à distância e minorar as dificuldades dos outros. "Claro que há limites, se um aluno não consegue ligar-se à aula vai ficar atrasado na matéria".

Isto porque, defende, "uma aula na televisão não é uma aula é um material. Um documento entregue aos alunos não é uma aula".

João Araújo destaca ainda que, durante este tempo excepcional, o ónus recai nos encarregados de educação, que têm um papel muito importante em motivar os alunos. Ademais, argumenta, essa responsabilidade deve evoluir e ser comum a toda a comunidade que luta há quase um ano com a pandemia.

É preciso minorar as dificuldades e os encarregados de educação vão ter . As pessoas têm de se mobilizar numa situação extraordinária que precisa de medidas extraordinárias.

Precisamos da aldeia inteira mobilizada para a educação das crianças", sublinha.

Na mesma linha, Jorge Ascenção, presidente da Confederação Nacional da Associação de Pais, defende que existem três eixos de ação para fazer face aos problemas do ensino não presencial.

Em primeiro lugar, e talvez o objetivo mais fácil de resolver, na sua ótica, é a questão do material. Para Jorge Ascenção, é evidente que é preciso que todos os alunos tenham acesso à internet e a um computador para trabalhar. Por isso, argumenta, "talvez fosse benéfico começar a pensar numa dedução no IRS por esses objetos essenciais para que as famílias tenham melhores condições. Penso que haja de facto a possibilidade de fornecer as famílias com este tipo de equipamento, tornando este eixo um dos mais fáceis de resolver".

Fácil de resolver, desde que a ação dos decisores políticos seja rápida e eficaz, especialmente depois de o Governo ter falhado na entrega destes materiais às famílias.

Quando não há acesso à internet e não se acompanham as aulas, há uma desigualdade enorme. Há sítios onde a rede não chega, nem com as pens de banda larga muitas vezes fornecidas pela escola, e não é de um momento para o outro que as operadoras de telecomunicações conseguem resolver o problema", sublinha.

Por outo lado, Jorge Ascenção afirma que, no ano passado, "tivemos experiências muito bonitas, com juntas de freguesia e câmaras a disponibilizarem espaços, onde os alunos em segurança podem deslocar-se e assistir às aulas". No entanto, quando não há esta capacidade política, o especialista diz que o professor tem de ser mais criativo e, por exemplo, "fazer o acompanhamento de outra forma, através do telemóvel, ou da troca de mensagens. O importante é não deixar ninguém para trás", destaca.

Depois da questão do material, há um eixo "mais difícil de resolver" que está relacionado com as condições educacionais e habitacionais de cada família: "Procurarmos dar oportunidade a crianças que não têm as condições mínimas para um ambiente calmo e propício ao estudo. Não têm um quarto próprio, um lugar próprio para estar e por isso é que as condições da própria aula às vezes são mais difíceis. Numa sala de aula é mais fácil manter a concentração, alertar e ajudar os alunos", diz.

Ora, remata, no ensino à distância isso não é possível porque "há todo um leque de factores que interferem com a aula, com a expectativa e mesmo com a concentração".

Para lidar de forma mais eficaz com o ensino remoto, o presidente da Confederação Nacional da Associação de Pais é preciso que a condição humana se adapte aos esforços da pandemia. Isto é, a vontade, a atitude quer dos professores, quer dos alunos, de poderem estar dentro de uma sala numa relação de aprendizagem. "No ano passado, vimos que estas não eram posições que se conjugam da melhor forma para, de facto, este ensino remoto ter o efeito que tem o ensino presencial"

"Estes são os três factores que é preciso ter mais atenção, na minha opinião: ajudar, apoiar, seja na gestão emocional, do tempo e do espaço, tal como as condições de ensino", sublinha Jorge Araújo.

O primeiro-ministro António Costa, admitiu na quarta-feira que o país vai regressar ao ensino à distância. No programa Circulatura do Quadrado, questionado sobre o assunto, António Costa foi claro ao dizer que não se deve reabrir as escolas nas próximas semanas e também não deverá continuar a interrupção letiva. 

Em sequência, a Federação Nacional dos Professores (Fenprof) acusou, na sexta-feira, o Governo de não garantir condições para o regresso ao ensino à distância em 08 de fevereiro, tanto para alunos como para professores.

Regressará o ensino a distância. Porém, alguns dos principais constrangimentos sinalizados o ano passado, como a falta de computadores e a ligação à Internet, mantêm-se”, alerta a Fenprof em comunicado.

O sindicato compreende que não resta alternativa ao ensino à distância, mantendo-se a atual situação epidemiológica, mas fala de “uma total incapacidade de planeamento, de identificação das necessidades no terreno e de alocação dos recursos necessários” na transição para o ensino online.