Uma centena de personalidades, entre elas jornalistas, figuras públicas, comentadores, humoristas, assinaram um documento a pedir o fim da prisão preventiva do responsável pelo Football Leaks, por a considerarem "chocante" e uma "punição antecipada"

A aplicação da prisão preventiva – com períodos de isolamento absoluto – a um cidadão português, quatro anos depois da alegada prática de um crime de extorsão na forma tentada, é inédita em Portugal e não pode deixar de ser vista como uma punição antecipada de Rui Pinto enquanto aguarda julgamento", lê-se no documento. 

Os subscritores entendem que o interese público das revelações de Rui Pinto, e que deram origem a investigações jornalísticas, "justifica amplamente que as autoridades portuguesas reconheçam a importância da informação por si trazida a público e procurem a colaboração de Rui Pinto, assim demonstrando que Portugal está verdadeiramente empenhado em combater a corrupção, o branqueamento de capitais e outros ilícitos criminais".

Entre a lista de assinantes estão nomes como: Ana Gomes; Cândido Costa; Carlos Coutinho Vilhena; Catarina Martins; Francisco Louçã; Joana Amaral Dias; Joaquim Letria; José Ribeiro e Castro; José Vera Jardim; Luaty Beirão; Luís Franco-Bastos; Marisa Matias; Miguel Poiares Maduro; Miguel Sousa Tavares; Paulo Baldaia; Richie Campbell e Rui Santos.

A ex-deputada Ana Gomes partilhou, esta quinta-feira, na rede social Twitter uma mensagem de Rui Pinto, na qual este admitiu que mesmo com a "primitiva perseguição de que os denunciantes são alvo" voltaria a fazer tudo o que tem feito.

Em 17 de janeiro deste ano o Tribunal de Instrução Criminal de Lisboa decidiu levar a julgamento Rui Pinto por 90 crimes de acesso ilegítimo, acesso indevido, violação de correspondência, sabotagem informática e tentativa de extorsão, mas deixou cair 57 dos 147 crimes pelos quais o arguido havia sido acusado pelo Ministério Público (MP), aguardando-se a marcação da data para início do julgamento.

Cerca de duas semanas depois, em 4 de fevereiro, o Tribunal da Relação de Lisboa negou provimento à defesa do criador do Football Leaks e manteve Rui Pinto em prisão preventiva.

Em prisão preventiva desde 22 de março de 2019, Rui Pinto, de 30 anos, foi detido na Hungria em 16 de janeiro de 2019 e entregue às autoridades portuguesas, com base num mandado de detenção europeu, que apenas abrangia os acessos ilegais aos sistemas informáticos do Sporting e da empresa Doyen, mas que depois viria a ser alargado a pedido das autoridades portuguesas.

Em setembro de 2019, o MP acusou Rui Pinto de 147 crimes, 75 dos quais de acesso ilegítimo, 70 de violação de correspondência, sete deles agravados, um de sabotagem informática e um de tentativa de extorsão, por aceder aos sistemas informáticos do Sporting, da Doyen, da sociedade de advogados PLMJ, da Federação Portuguesa de Futebol e da Procuradoria-Geral da República, e posterior divulgação de dezenas de documentos confidenciais destas entidades.

Cláudia Évora