A psicóloga Ana Allen Gomes defendeu que com a pandemia os portugueses atrasaram os horários de deitar e levantar, mas sublinhou que o impacto foi variável e que, nalguns casos, o teletrabalho ajudou a organizar melhor os horários.

Há estudos em vários sentidos. O impacto foi variável, mas globalmente as pessoas atrasam os horários de sono, passaram a deitar-se e levantar-se mais tarde, durante ou após confinamento”, disse à agência Lusa a especialista, que faz parte da direção da Associação Portuguesa do Sono (APS).

Professora na Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação da Universidade de Coimbra e investigadora na área do sono, Ana Allen Gomes contou que esta era uma situação que já se antecipava: “Em teletrabalho as pessoas perdem menos tempo em deslocações, logo, não têm de levantar-se tão cedo e muitas acabaram por seguir aquilo que para elas é um ritmo mais natural”.

Em declarações à agência Lusa a propósito do Dia Mundial do Sono, que hoje se assinala, a responsável citou um estudo da APS e de uma unidade de investigação em psicologia da Universidade de Coimbra, cujos dados finais ainda estão a ser trabalhados, sublinhando que, globalmente, os horários “parecem mais equilibrados”.

No fundo, o horário de sono durante a semana e no fim de semana deixou de fazer tanta diferença. (…) Há menos necessidade de compensar ao fim de semana” disse a especialista, lembrando a importância da estabilidade de horários.

Contudo, frisou que há igualmente o reverso da medalha: pessoas que acabam por se descontrolar, passando a deitar-se e levantar-se cada vez mais tarde.

O teletrabalho até pode parecer positivo, mas estar em casa, com menos contacto com aquilo que costumava acertar o ritmo – as rotinas e a exposição solar – pode ser desestruturante para algumas pessoas”.

Reconheceu que houve casos que pioraram, com insónias e pior qualidade do sono, uma situação que era expectável "pelo aumento dos níveis de stress e ansiedade, pela sobrecarga que a covid representa e pela alteração de hábitos de vida e perda de rotinas, levando a mais dificuldade de sono à noite e maior sonolência durante o dia”.

A balança até pode ter desequilibrado um bocadinho, mas não é tão dramático como podíamos pensar”, afirmou.

Ana Allen Gomes afirmou que a prevalência de insónia atinge os 10%, um valor que admite que possa ter subido com a pandemia e o confinamento, e aconselhou quem tem problemas de sono a procurar ajuda.

Disse ainda que as propriedades do sono justificam a expressão “dormir o sono de beleza”, pois é um período durante o qual o organismo restaura a energia usada durante o dia e é "quando ocorre o pico da multiplicação celular”.

A este respeito, citou um estudo em que voluntários avaliaram o grau de atração das pessoas através de diversas fotografias, apontando como mais atraente as pessoas que "estavam bem dormidas".

Para a expressão “dormir o sono dos justos”, Ana Allen Gomes encontrou paralelismo com o facto de se dormir de consciência tranquila, sem preocupações de maior.

Aliás, não levar “os problemas para a cama” é uma das regras da boa higiene do sono segundo a APS. Outros exemplos são deitar e levantar sempre à mesma hora, manter o horário das refeições, evitar beber café à noite e não usar aparelhos como telemóveis e tablets antes de dormir, pois a luz LED inibe a produção de melatonina, a hormona que induz o sono.

/ LF