A diretora de gestão do SEF, Cristina Landeiro, usou dinheiros públicos do orçamento do SEF para pagar despesas difíceis de justificar, entre elas refeições e bebidas alcoólicas como mojitos, apurou uma investigação da TVI.

A despesa foi autorizada pelo diretor nacional adjunto, José Barão. Ao mesmo tempo que gasta desta forma, o Serviço de Estrangeiros e Fronteiras acumula dívidas. 

A TVI teve acesso às faturas de algumas despesas difíceis de justificar. Como, por exemplo, uma refeição num restaurante mexicano em Almada, onde a diretora pagou mojitos e não só, no total de 36,60 cêntimos. No dia seguinte, Cristina Landeiro foi ao SEF buscar esse dinheiro para pagar uma "despesa urgente, imprevisível e inadiável".

A cúpula do SEF foi escolhida pelo ministro da Administração Interna, Eduardo Cabrita, e por Botelho Miguel, diretor nacional do SEF. 

À data, Cristina Landeiro não tinha qualquer experiência na área das migrações e asilo. Em dois anos, foi promovida e chegou ao topo como diretora. 
Desde que foi nomeada as despesas somam-se. Usou dinheiro do SEF, por exemplo, para pedir sushi através de uma plataforma de entregas ao domicílio, apresentando depois a despesa de 30 euros, que foi paga no próprio dia. Mais uma vez era uma "despesa urgente, imprevisível e inadiável". Dois dias depois, Cristina Landeiro voltou a almoçar fora e a pôr na conta do SEF. Desta vez, num restaurante em Queluz de Baixo, onde pagou 51 euros por cinco doses de lagartinhos e uma dose de pataniscas.

Os dirigentes do SEF recebem no ordenado um suplemento para despesas de representação. Ainda assim, Cristina Landeiro nunca se coibiu de apresentar despesas, até de água, refirgerantes e cafés. 

Quem assina os documentos para dar luz verde à despesa é o responsável José Barão, número dois do SEF, nomeado também por Eduardo Cabrita e com um rasto de ligações políticas ao PS.

Pertenceu desde cedo à Juventude Socialista, foi assessor do Grupo Parlamentar do PS e secretário de Estado da Administração Local no Governo de Sócrates (2005-2009). José Barão foi ainda chefe de gabinete de Eduardo Cabrita. E atualmente junta as funções num órgão policial a funções políticas, já que faz parte da comissão honra do candidato do PS à Câmara de Setúbal. 

É licenciado em Direito e tem uma pós-gradução em Administração local e não tinha qualquer experiência na área das migrações e asilo, a principal competência do SEF. Apesar disso, no despacho de nomeação, Eduardo Cabrita destacava que ele "possui reconhecida idoneidade, experiência profissional e formação exigidas para o exercício das funções em causa."

José Barão recusou o pedido de entrevista da TVI.

Questionado, o ministro da Administração Interna também não aceitou responder às perguntas da TVI.

Botelho Miguel, diretor nacional do SEF, também recusou gravar entrevista. Nomeado igualmente por Cabrita, antes de ser escolhido para o SEF foi comandante geral da GNR, onde somou polémicas - suspeitas de favorecimentos familiares dentro da GNR e ajustes diretos sem explicação. A própria inspeção-geral da Administração Interna produziu um relatório onde apontou um "caráter reiterado e sistémico destas irregularidades  [que] poderão constituir violações com impacto ao nível da responsabilidade financeira". 

Certo é que já existe um inquérito interno e uma nova investigação da Inspeção Geral da Administração Interna. A confirmarem-se as suspeitas, o caso acabará mesmo nas mãos do Ministério Público, uma vez que em causa pode estar um crime de peculato. 

André Carvalho Ramos