Mia Couto, autor de «Jesusalém» e de «O Último Voo do Flamingo» e que venceu nesta segunda-feira a 25ª edição do Prémio Camões, estreou-se com um livro de poesia, publicado há exatamente 30 anos.

«Raiz de Orvalho», a obra, surgia então contra a corrente da poesia militante e panfletária que marcava a época, depois de os primeiros textos do escritor terem já aparecido em duas antologias de autores moçambicanos, marcados pela tradição e a memória cultural do continente, e pelo «falinventar» português, de que o escritor fez a sua assinatura.

Mia Couto «é um elo vivo de toda a tradição portuguesa e de todo o espaço da língua portuguesa», disse o pensador Eduardo Lourenço no final de 2011, quando o autor de «Cronicando» foi distinguido com o Prémio que leva o seu nome. «Merece qualquer espécie de prémio», disse então Eduardo Lourenço.

António Emílio Leite Couto, Mia Couto, nasceu em 1955, na Beira, numa família originária de Portugal. Em 1971, iniciou os estudos de Medicina na antiga Universidade de Lourenço Marques, atual Maputo, associando-se então à Frente de Libertação de Moçambique (FRELIMO).

Depois do 25 de Abril de 1974, interrompeu a formação para trabalhar como jornalista, primeiro em «A Tribuna», com Rui Knopfli, depois na Agência de Informação de Moçambique, que dirigiu. Seguiram-se a revista «Tempo» e o «Notícias», até 1985, quando ingressou na Universidade Eduardo Mondlane, onde se formou em Biologia e onde é atualmente investigador e professor de ecologia.

Após o primeiro livro, seguiram-se, entre outros, «Tradutor de Chuvas», também de poesia, «Vozes Anoitecidas», livro de contos com que se estreou na ficção, a que se sucedeu «Cada Homem é uma Raça», «Estórias Abensonhadas», «Contos do Nascer da Terra», «Na Berma de Nenhuma Estrada», «O Fio das Missangas».

«Cronicando», «O País do Queixa Andar», «Pensatempos» testemunham o domínio da crónica, que Mia Couto viria a reunir também em «Textos de Opinião». Refletiu sobre a vitória de Barack Obama, nas presidenciais norte-americanas de 2008, num texto que daria nome à nova coletânea, «E se Obama fosse Africano? e Outras Interinvenções», publicada em Portugal em 2009.

No romance estreou-se com «Terra Sonâmbula», na viragem da década de 1980 para a seguinte, obra que foi considerada um dos melhores livros africanos do século XX, Prémio Nacional de Ficção da Associação dos Escritores Moçambicanos.

Seguiram-se «A Varanda do Frangipani», «Mar Me Quer», concebido para o pavilhão de Moçambique na EXPO`98, «Vinte e Zinco», «O Último Voo do Flamingo», «Um Rio Chamado Tempo, uma Casa Chamada Terra» (adaptado ao cinema por José Carlos Oliveira), «Venenos de Deus, Remédios do Diabo», «Jesusalém», «A Confissão da Leoa».

Para os mais novos escreveu também «O beijo da palavrinha«, publicado com ilustrações de Malangatana, «O Gato e o Escuro», «A Chuva Pasmada», «O Outro Pé da Sereia».

Mia Couto foi distinguido já com o Prémio Nacional de Ficção da Associação dos Escritores Moçambicanos, o Prémio Vergílio Ferreira, da Universidade de Évora, pelo conjunto da sua obra, o Prémio União Latina 2007, de Literaturas Românicas, o Prémio Passo Fundo Zaffari e Bourbon de Literatura, do Brasil, e o Prémio Eduardo Lourenço, entre outros. É membro da Academia Brasileira de Letras.

Em 2011, quando lhe foi entregue o Prémio Eduardo Lourenço, o pensador português, disse esperar que Mia Couto «seja um dos autores de origem portuguesa tão universal como a sua própria obra, que já é hoje».

Homenageado há dois anos, em Penafiel, nas Escritarias, Mia Couto deixou o apelo para o tempo presente: «É preciso sair à rua, é preciso revoltarmo-nos, é precisa esta insubordinação».

Mia Couto é o segundo escritor moçambicano distinguido com o Prémio Camões, depois de José Craveirinha em 1991.