As testemunhas ouvidas esta quarta-feira no julgamento de António Ferreira da Silva, que alvejou mortalmente o antigo companheiro de sua filha, Cláudio Mendes, durante a visita parental, foram unânimes em elogiar o perfil da vítima.

Apesar de parte da sessão incidir só sobre matéria cível, no julgamento, que decorre com jurados, foi a avaliação subjetiva que as diferentes testemunhas faziam do temperamento e comportamento da vítima que interessou aos advogados.

Celso Cruzeiro, que defende António Ferreira da Silva, e Ricardo Gonçalves, que representa os pais de Cláudio, como assistentes, procuravam saber, junto de quem foi chamado a depor, se é ou não verosímil que o jovem advogado abatido a tiro, quando visitava a filha, a 05 de fevereiro de 2011, no parque da Mamarrosa, fosse psiquicamente perturbado, ao ponto de o seu ex-sogro temer que atentasse contra a vida dos seus familiares.

Essa é a tese de Celso Cruzeiro para explicar o ato de António Ferreira da Silva, acusado de homicídio qualificado, que já havia requerido a junção aos autos dos processos disciplinares existentes na Câmara do Porto, que levaram Cláudio Mendes a ser despedido.

Esta quarta-feira juntou novo requerimento, desta feita alusivo à decisão judicial relativa à regulação das responsabilidades parentais que impunha a Cláudio Mendes que se fizesse acompanhar dos seus pais, quando ao sábado e domingo estivesse com a criança.

A jurista Raquel Sofia, ouvida como testemunha, garantiu ao tribunal que a demissão de funções de Cláudio Mendes na Câmara do Porto se deveu só a falta de pontualidade.

Raquel Sofia admitiu que a vítima andava triste e deprimida, devido à dificuldade em estar com a filha, mas não era agressivo no trabalho, nem esse foi o motivo para ser afastado da autarquia.

«Os processos disciplinares foram por falta de pontualidade. Os dirigentes intermédios estavam sujeitos ao controlo automático e os atrasos eram contabilizados como faltas, ainda que Cláudio estivesse na véspera até altas horas a tratar de processos para a Câmara», relatou.

Celso Cruzeiro confrontou a testemunha com faltas em dias consecutivos, ao que esta esclareceu que, «na falta tardia de justificação, eram consideradas faltas injustificadas» e aludiu à entrega de um atestado médico fora de prazo.

A antiga colega de Cláudio Mendes descreveu-o como atuando «com grande profissionalismo», sendo as suas opiniões ouvidas e respeitadas e de trato fácil, admitindo, contudo, que, devido aos conflitos para conseguir ver a sua filha, entrou em depressão e começou a ter dificuldade em gerir a sua vida pessoal.

Clara Ribeiro, procuradora-adjunta em Coimbra e outra das testemunhas ouvidas, relatou ter a melhor impressão sobre as qualidades profissionais de Cláudio Mendes, ao ponto de lhe pedir para patrocinar algumas questões familiares e achá-lo «uma pessoa mentalmente bem estruturada quanto aos valores do Direito», mesmo no auge do conflito com a mãe e os avós da sua filha.

«Era uma pessoa de grande empatia e não tinha agressividade nenhuma. Relacionava-se com os meus filhos e com os meus netos. Se entendesse o contrário teria feito tudo para os alertar», relata a Lusa.
Redação / CF