Em Portugal há “grandes assimetrias” no acesso às terapêuticas para a Esclerose Múltipla, devendo o Governo “dar mais atenção” a esta situação, disse este domingo a presidente do congresso internacional sobre o tema que decorre na próxima semana, no Porto.

A médica especialista Maria José Sá referiu que o país é pequeno, mas tem “imensas assimetrias” no que ao acesso à medicação para esta doença diz respeito, originando “queixas” por parte dos clínicos.

Por esse motivo, a responsável chama a atenção do poder político para o facto de a doença ser tratada no país todo, devendo todos os hospitais estar em “pé de igualdade” quanto à medicação.

Na sua opinião, é fundamental melhorar o planeamento da assistência médica e a alocação de recursos, salientando que os custos totais aumentam com a gravidade da doença e o tipo de recursos muda.

Maria José Sá considerou que este é um dos principais desafios que se coloca à Esclerose Múltipla, lembrando haver hospitais que só têm uma determinada linha terapêutica, ou onde determinados medicamentos demoram algum tempo a chegar.

Há ainda doentes seguidos em hospitais mais pequenos por neurologistas, mas sem especialização específica nesta doença, frisou.

Em Portugal, não há centros de referência para a Esclerose Múltipla, recordou, entendendo que a sua existência seria fundamental para os doentes, sua referenciação e aplicação de nova terapêutica.

Outro dos desafios atuais é descobrir a causa da doença, algo que ainda está “muito longe” de acontecer para já, ressalvou a médica.

Se soubermos a causa, podemos atuar com maiores certezas sobre o que provoca a esclerose”, considerou.

Maria José Sá falou ainda nas inovações nesta área, nomeadamente numa investigação a cargo do Instituto de Investigação e Inovação em Saúde (I3S), no Porto, que assenta no desenvolvimento de sensores elétricos que permitem obter amostras biológicas para avaliar várias doenças.

Outra das apresentações no congresso que decorre entre 14 a 16 de fevereiro, a cargo de um investigador dos EUA, está relacionada com o desenvolvimento de um ‘software’ que permite a análise digital automática da imagem, ou seja, a reconstituição de uma ressonância magnética em 3D, algo importante para apreciar a evolução da doença.

A presidente do congresso adiantou ainda que haverá uma sessão com especialistas da China, Turquia, Brasil e Marrocos sobre como é vista a Esclerose Múltipla nestes países, que terapêuticas têm e como se fazem os diagnósticos.

A gravidez na esclerose e as novas terapêuticas são outros dos temas em debate, acrescentou.

A Esclerose Múltipla, doença crónica, inflamatória e degenerativa, afeta cerca de 8.000 pessoas em Portugal e 2,5 milhões de pessoas em todo o mundo.

Em Portugal, estima-se que 77% dos doentes com esclerose não está a trabalhar devido à doença e 61,7% sentem limitações nas suas tarefas diárias.

Além disso, 32% dos doentes não conduzem, 72% sente que a sua produtividade no local de trabalho é afetada, 64,1% relatam sofrer de ansiedade e depressão, 60,1% dizem ter dores e 57,8% ficam com a mobilidade afetada.