O diretor da Escola Secundária de Camões defende que não estão reunidas as condições para a reabertura das escolas e o regresso às aulas dos alunos do Ensino Secundário. Em conversa telefónica com a TVI, João Jaime Pires defende o cancelamento dos exames nacionais e sublinha que a “teimosia se pode traduzir num retrocesso” em termos de saúde pública e de combate à pandemia de Covid-19.

O Camões tem 700 alunos. Mesmo que consigamos coloca-los divididos por várias salas, sete ou oito alunos por sala, eles vão encontrar-se, vão entrar pela mesma porta. Mais os professores e os assistentes operacionais. É uma forma de propagar o vírus”, disse.

 

O tal 'R' que eles tanto querem diminuir vai aumentar com a abertura das escolas.”

O 'R' mede a capacidade de contágio de uma pessoa infetada. Um 'R' igual a 1, por exemplo, significa que cada indivíduo pode contagiar, em média, outra pessoa. De acordo com a Direção Geral de Saúde, o ideal é que este índice esteja abaixo de um. 

João Jaime Pires lembra que a média nacional de idades dos professores do Ensino Secundário está nos 56 anos, o que significa que há muitos docentes com mais de 60 anos, o que os coloca num grupo de risco: “Não nos iludamos. A idade do corpo docente não é um problema do Liceu Camões, do Rainha D. Amélia ou do Pedro Nunes. É um problema nacional. Trinta por cento dos professores têm mais de 60 anos”.

Obras no Camões são entrave acrescido

O diretor do histórico Liceu Camões lembra que o edifício está a sofrer obras de remodelação e as aulas estão a ser dadas em contentores, o que coloca um entrave acrescido no regresso às aulas. Respeitar as regras de distanciamento nas aulas torna-se mais difícil.

O Camões está confinado em monoblocos por causa das obras. (…) Só vejo o regresso possível tendo um grupo de alunos na escola e outro fora da escola, em instalações cedidas para o efeito. Mas implicaria contratar mais professores, porque o mesmo professor não pode estar em várias salas ao mesmo tempo e não podemos acrescentar-lhe carga horária à que já têm. E não há professores para contratar neste momento.”

Mesmo que haja uma higienização prévia dos espaços, como tem sido defendido, isso não responde às necessidades. “Alguém tem de assumir as responsabilidades, porque não há condições para abrirmos”, sublinha.

Estaria de acordo com a reabertura das escolas, se ela pudesse progressiva, como acontece em muitas empresas. Mas, ao avançar-se com o Secundário, essa progressividade não é possível.”

“Teimosia dos exames”

O principal argumento para o regresso à escola dos alunos do Ensino Secundário reside na questão dos exames nacionais. O diretor do Camões fala em “teimosia”:

Há uma teimosia na questão dos exames, que pode traduzir-se num retrocesso em termos de saúde.”

João Jaime Pires considera ainda que o regresso pode trazer um acréscimo de “medo” e “ansiedade” aos jovens, que não é benéfico. Sentimentos que se vêm somar à ansiedade típica do acesso ao Ensino Superior e que o responsável considera ser desnecessário fomentar.

Acho que se devia ouvir os jovens, porque eles têm uma sensibilidade que não valorizamos. E, neste momento, eles têm medo.”

Por isso, o diretor da Escola Secundária de Camões defende o cancelamento dos exames nacionais e que se aproveite esta oportunidade para reestruturar o sistema de acesso ao Ensino Superior.

Vivemos tempos atípicos. Não se pode dizer que os alunos que concorrem este ano à Universidade estão nas mesmas condições dos do ano passado. Não estão!”

Foi isso mesmo o Conselho Pedagógico desta escola de Lisboa fez saber ao Ministério da Educação, num documento de cinco páginas, que data de 23 de abril e foi publicado na página do Facebook do estabelecimento na segunda-feira. A insistência na realização dos exames nacionais e a consequente reabertura das aulas presenciais pode “pôr em causa a saúde pública de toda a comunidade escolar”, expondo-a “a riscos desnecessários e de consequências imprevisíveis”.

O Conselho Pedagógico é composto por professores pais e alunos. Os mesmos alunos que já tinham defendido a suspensão dos exames, numa petição lançada pela associação de estudantes do Camões, em conjunto com estruturas de outras escolas e que reuniu quase 10 mil assinaturas

A suspensão dos exames já tinha sido defendida pela associação de estudantes da escola, numa petição que lançou em conjunto com estruturas de outras escolas e que reuniu quase 10 mil assinaturas.

Manuela Micael