Tudo terá acontecido a 13 de setembro, durante a semana de receção aos caloiros da Escola Superior de Educação de Coimbra (ESEC). De acordo com o relato numa carta de seis alunas do primeiro ano, tinham acabado de sair "assustadas, tristes e desiludidas" da Missa do Caloiro, um evento da responsabilidade da Real Tertúlia Bubones (RTB), comissão de praxe da ESEC, e que aconteceu no NB Club, uma discoteca em Coimbra.

Assim que chegaram ao espaço, foram "mandadas estar de quatro, de olhos nos chão" e, mais tarde, "de perninhas à chinês". Foram recebidos por elementos da comissão de praxe que "já estavam bêbedos e acabaram por cair". Durante o evento, "escolheram uma 'noiva' (também caloira)" a quem pediram para beber. Quando esta recusou, apesar da insistência dos "mochos ou mochões", "meteram-na constantemente em diferentes posições".

Pouco depois, descrevem as novas alunas da ESEC, alguém "ficou nu, todo nu, durante algum tempo, bastante tempo, e sempre com conversas menos próprias". De acordo com o relato, "havia imenso álcool e todos eles [elementos da comissão de praxe] estavam bêbedos e a fazer inúmeras coisas sem jeito nenhum e que nos ofenderam". A dado momento, "chegaram (...) a atirar gelo, quase todo o gelo que tinham, para cima das caloiras e acabaram por acertar numa rapariga".

Uma segunda carta, também ela anónima, descreve o que se passou como algo "vergonhoso, nojento e impróprio". O descrito por esta aluna corrobora a outra carta enviada à Associação de Estudantes.

Havia uma mesa composta por membros da comissão de praxe – alguns deles já não pertencem à ESEC – que "escolheram uma nova aluna para ser a noiva da missa, obrigando-a a beber". Quando recusou, a RTB "mandou-a estar de quatro e de três e noutras posições de humilhação, para no fim a mandar embora".

Tudo acontecia enquanto os restantes caloiros estiveram "sempre de quatro ou sentados com as pernas cruzadas, mas sempre de olhos no chão, porque as bestas não olham para cima, como eles dizem".

O episódio de nudez é igualmente descrito, não sendo percetível, da leitura do despacho da presidência da ESEC, se se trata de algum caloiro ou membro da comissão de praxe: "Se eu vos disser que o (...) esteve nu durante a maior parte do tempo? E que o (...) ajudou a que tal acontecesse? Estamos a falar de nudez, de um corpo, de atentado ao pudor!"

De acordo com o relatado, vários alunos pediram para abandonar o evento, mas não lhes foi permitido. Além do gelo atirado para cima dos caloiros, "decidiram atirar álcool para cima de nós. E se uma garrafa tivesse caído em cima de um caloiro, como seria?", questionam.

Isto não é integração, mas sim humilhação e algo que nós não queremos ter na nossa vida académica (...) Temos consciência que isto não é uma situação de Meco (AINDA!) e pedimos a vossa ajuda [da associação de estudantes] no sentido de mudança e de organização da integração", termina uma das cartas.

Comissão de praxe "de consciência tranquila"

Diogo Picão é o Mocho Real, o líder da Real Tertúlia Bubones. Contactado pela TVI, o aluno de Desporto e Lazer confirmou que teve conhecimento das duas cartas, mas afirmou-se "de consciência tranquila".

"Estamos de consciência tranquila com o trabalho que fazemos durante a semana de receção aos caloiros", afirmou. "Toda a gente percebeu o que aconteceu", acrescentou, classificando o conteúdo de ambas as missivas de "calúnias".

Num comunicado publicado no Facebook, a que a TVI teve acesso, a comissão de praxe refere que já tinha tido conhecimento das cartas mas que não tinha tido tomado posição sobre as mesmas "por não corresponderem à realidade", tendo considerado-as "irrelevantes".

No texto, a RTB defende-se, afirmando que "em momento algum os caloiros foram obrigados a participar em qualquer atividade praxística", "retidos numa atividade contra a sua vontade" ou "agredidos fisicamente". Acrescentam ainda que "nunca constituiu obrigação praxística o consumo de bebidas alcoólicas".

Finalmente, a missiva assinada pelo "Conselho de Mochos" garante que não se identifica com e luta contra "qualquer tipo de praxe abusiva e humilhante", mostrando-se tristes e revoltados com as acusações.

AE remeteu assunto para a comissão de integração

Contactada pela TVI, a Associação de Estudantes da Escola Superior de Educação de Coimbra confirmou a receção das duas missivas, reafirmando que ambas são anónimas e que não conhecem a identidade de que as enviou.

"Enviámos as duas cartas à comissão de integração dos alunos do 1.º ano", explicou Diogo Melim, presidente da AEESEC. A mesma comissão entendeu "enviar os documentos à presidência da escola", acrescentou o aluno de 3.º ano de Comunicação e Design Multimédia.

Escola abre inquérito à praxe

Depois de tomar conhecimento das cartas enviadas à Associação de Estudantes, Rui Antunes, presidente da Escola Superior de Educação de Coimbra, nomeou "uma comissão de inquérito (...) para ouvir as pessoas e os responsáveis pelas entidades identificadas em ambas as denúncias, e outras eventuais testemunhas ou declarantes (...), com o objetivo de averiguar se a chamada 'praxe' e os grupos que a concretizam ou gerem na ESEC – Real Tertúlia Bubones e 'comissões de curso' – violam princípios e valores incompatíveis com os valores democráticos e de respeito pelos direitos humanos e de igualdade de género (...) no prazo de 90 dias seguidos".

O despacho presidencial apela ainda à denúncia de "situações de ofensa à liberdade e à integridade física e psicológica de estudantes da ESEC, realizadas no contexto da designada 'praxe'. Contactado pela TVI, Rui Antunes remeteu a posição oficial da ESEC para o despacho, datado de 25 de outubro.