Luís, professor de música, escolheu o silêncio no dia 9 de Fevereiro. Parou o carro na Ponte 25 de Abril e atirou-se ao Tejo. Atirou a vida e acabou, dessa maneira, com os problemas que o atormentavam. Luís pôs fim à vida porque era vítima de bullying na escola onde leccionava, a EB2,3 de Fitares, em Sintra.

«Se o meu destino é sofrer dando aulas a alunos que não me respeitam e que me põem fora de mim, a única solução é o suicídio». Esta frase só foi encontrada no computador de Luís depois da morte. Tarde de mais. Mas os sinais do desespero estavam lá. Colegas e família reconhecem que ele era uma pessoa reservada e frágil. A história de Luís chocou a comunidade docente que fez circular a notícia por e-mail.

DREL: professor tinha «fragilidade psicológica»

O dirigente da FENPROF, Manuel Grilo, conhecia o professor, que fez parte de uma comissão de professores contratados há alguns anos e conta ao tvi24.pt que o docente era uma pessoa «estimada».

Paulo Guinote, professor, autor do blogue «A Educação do meu Umbigo», não fala sobre o caso concreto, mas lamenta que não seja dada a devida importância a estes casos. Acham «que os adultos resistem melhor, mas não é bem assim. Bullying psicológico «é muito habitual em algumas escolas da grande Lisboa».

Alunos dizem que não fizeram «nada de mal»

No caso de Luís, as agressões eram tanto físicas como psicológicas. Chamavam-lhe «cão», «careca» e davam-lhe «calduços» quando se dirigia para as salas de aula. O professor queixou-se, pelo menos sete vezes à Direcção da escola. O Jornal «I» teve acesso a uma dessas participações feitas pelo professor de música. Nela pode ler-se que marcou falta disciplinar a um aluno e que propunha que fossem aplicadas «medidas sancionatórias». O sindicato não comenta, mas está em crer que «a escola terá feito o possível no quadro que o Ministério da Educação permite».

Manuel Grilo pergunta-se se a notícia do suicídio do professor Luís «não fará mais mal do que bem», embora entenda que os professores não se devem calar e que os casos de violência devem ser denunciados e lamenta que o Ministério da Educação não tenha ainda posto em prática o conjunto de medidas proposto pelo sindicato.

Ministério da Educação abre inquérito

O Ministério da Educação lamenta a morte do professor e já ordenou à DREL a abertura do inquérito para apurar o que é que aconteceu na escola EB 2.3 de Fitares. Mas, segundo fonte do Ministério, em declarações a tvi24.pt não se devem fazer já associações entre a violência dos alunos e a morte do professor. Deve-se esperar pelo resultado do inquérito.

Ainda ontem, a Ministra da Educação, Isabel Alçada, anunciou que está a ser preparado um diploma que pretende o reforço dos poderes dos directores das escolas para que alunos agressores possam ser suspensos imediatamente.

Dados de 2008 informa que houve um aumento dos casos de agressões a professores, em comparação com o ano lectivo anterior. De 185 subiu para 206 casos.

Docentes pedem mais apoio

Sem «dramatizações», mas «olhando de frente» o problema, Paulo Guinote vai mais longe. O Ministério deve «dar todo o apoio para que as escolas criem gabinetes de apoio para alunos, professores e funcionários». Faltam técnicos especializados para tratar destas situações. Situações nem sempre fáceis de sinalizar porque, na maioria dos casos, os professores procuram apoio psicológico fora das escolas e «encobrem» o problema.

A FENPROF disponibiliza aos professores associados serviços médicos «onde a psiquiatria é das mais solicitadas», afirma Manuel Grilo.
Redação / Carmen Fialho