Os diretores escolares alertaram para os crescentes casos de “abandono de interesse e motivação” dos alunos do ensino básico e secundário cansados do ensino ‘online’, que voltou a marcar o segundo período de aulas.

Termina esta sexta-feira o segundo período no ensino obrigatório. Foram três meses de aulas em que a maioria do tempo foi passado em casa, com aulas em frente a um computador, devido ao agravamento de casos de covid-19.

Houve mais aulas à distância do que presenciais. No caso dos mais novos, a diferença foi menor”, disse Filinto Lima, presidente da Associação Nacional de Diretores de Agrupamentos e Escolas Públicas (ANDAEP), referindo-se aos alunos do pré-escolar e do 1.º ciclo que regressaram à escola a 15 de março.

Já os cerca de 500 mil estudantes do 2.º e 3.º ciclos assim como os mais de 330 mil do secundário só vão voltar a sentar-se nas salas de aula depois das férias da Páscoa. Para trás ficou mais um período em que a pandemia obrigou a ter aulas sem sair de casa.

Os diretores escolares notaram melhorias em relação à primeira experiência de ensino à distância, que começou em março do passado ano letivo: “Aumentou a literacia digital de professores e alunos e há muito mais equipamentos distribuídos”, apontou Filinto Lima.

O presidente da Associação Nacional de Dirigentes Escolares (ANDE), Manuel Pereira, acrescentou que “continuam a chegar computadores todos os dias às escolas, além do apoio de muitas autarquias que garantiram a internet em casa de muitas famílias”.

Manuel Pereira lembrou ainda a experiência adquirida por professores, que tiveram mais tempo de planificação e preparação das aulas ‘online’. No entanto, sublinhou, “nada substitui a presença dos alunos na sala de aula e o convívio na escola”.

O receio de ver aumentar os casos de abandono escolar precoce foi substituído pela certeza de um outro abandono: “Não houve abandono físico, porque nós conhecemos os alunos, sabemos onde vivem e em caso de necessidade vamos saber o que se passa.  Mas houve um abandono do interesse e motivação pela escola”, alertou o também diretor do Agrupamento de Escolas General Serpa Pinto, em Cinfães.

Reconhecendo que “não é fácil ter os adolescentes agarrados, durante todo o dia, às aulas através de um computador”, o diretor contou à Lusa que os professores foram-se apercebendo ao longo do 2.º período da “falta de interesse, cansaço e até um esgotamento em relação às novas tecnologias”.

Os próprios alunos confessaram a Manuel Pereira que estão “desmotivados e cansados”:

Os alunos dizem-nos que estão saturados, muitos deles estão nas aulas apenas a cumprir horário. E este desinteresse afetou também aqueles que eram alunos muito interessados na escola”, disse.

Além das aprendizagens que ficaram para trás, existe a questão da saúde mental que também preocupa os professores.

“A escola é um espaço de socialização fundamental e os alunos estão cansados de estar em casa. Querem estar na escola com os colegas”, lembrou Filinto Lima, defendendo a necessidade de se “reforçar o número de técnicos especializados nas escolas, em especial os psicólogos”.

A esta equação Manuel Pereira acrescentou os docentes:

Temos muitos professores em situação de pré-‘burnout’. Passaram a ter muito mais trabalho em casa do que tinham na escola. Além de que muitos se viram perante a difícil tarefa de tentar conciliar o trabalho com a vida familiar. Temos muitos professores que são também pais e estiveram a dar aulas enquanto os filhos também tinham aulas e precisavam de apoio”.

Entre as novas tarefas houve docentes que se disponibilizaram para ir a casa dos alunos que não conseguiam entrar na sala de aula ‘online’.

Tivemos professores e assistentes operacionais que andaram de aldeia em aldeia, de casa em casa, a ajudar as famílias a pôr os computadores a funcionar, principalmente no caso dos alunos mais novos”, lembrou Manuel Pereira.

A tarefa de ensinar os mais pequenos foi especialmente complicada devido à falta de autonomia e dificuldade de concentração nas aulas, uma situação agravada quando faltava um apoio familiar sólido, acrescentou Filinto Lima.

Também por isso, os cerca de 370 mil alunos do 1.º ciclo foram dos primeiros a regressar à escola. Mesmo assim, o presidente da ANDAEP estima que a recuperação das aprendizagens por parte destes alunos será um processo demorado, que não ficará resolvido em breve.

Dentro de pouco mais de uma semana, a 05 de abril, recomeçam as aulas. Para os alunos do 1.º ao 3.º ciclo serão novamente dadas na escola.

Os diretores esperam que este regresso seja “em força e até ao final do ano” e temem apenas pelas atitudes da população em geral, que poderão pôr em causa o desconfinamento em curso.

“Muitas vezes gostava de meter a sociedade dentro da escola para aprenderem a ter regras. Vê-se muita gente sem cumprir as regras mais elementares”, lamentou Filinto Lima.

Os diretores voltam a sublinhar que as escolas são lugares seguros e que são raros os casos de infeção entre a comunidade escolar.

Desde janeiro, foram realizados cerca de 150 mil de despistagem à covid-19 nas escolas com uma taxa de positividade pouco superior a 0,1%.

 As férias da Pascoa começam sexta-feira com a vacinação contra a covid-19 dos professores e funcionários do pré-escolar e do 1.º ciclo marcada para o fim-de-semana, seguindo-se a vacinação de quem trabalha nos restantes níveis de ensino a 10 e 11 de abril.

/ MJC