O especialista em Transportes e Vias de Comunicação Luís Cabral da Silva considerou que o acidente com o comboio Alfa Pendular, em Soure, que vitimou duas pessoas, foi “criminosamente grave” e “inexplicável.

“Não se percebe como é que um comboio Alfa Pendular vá bater numa dresina (máquina) que está a fazer a manutenção da linha onde o comboio vai passar. Isto é um exemplo da irresponsabilidade completa”, afirmou o especialista à agência Lusa.

O descarrilamento de um comboio Alfa Pendular, na linha do Norte, após colidir com uma máquina de trabalhos da Infraestruturas de Portugal (empresa criada em 2015, da fusão entre a Rede Ferroviária Nacional - Refer e a Estradas de Portugal), provocou hoje dois mortos, seis feridos graves e 19 feridos ligeiros, segundo o último balanço feito pelo comandante distrital de operações de Coimbra, Carlos Luís Tavares.

No entender de Luís Cabral da Silva existem “várias questões técnicas que falharam e que motivaram este acidente".

“Em rigor, o comboio não deveria lá chegar por causa do controle de velocidade. Pelos vistos chegou e bateu. Não se programa a viagem de um comboio pendular por uma linha que tem lá trabalhos de manutenção. Isto não entra na cabeça de ninguém”, criticou.

O especialista questionou ainda o facto de o sinal da linha não estar fechado e de não ter existido “qualquer comunicação” sobre a presença da máquina no local.

“Quem é que a mandou para lá? Acho que isto não se deve fazer durante o dia. Tudo isto aponta para uma grande incompetência criminosa da Infraestruturas de Portugal”, sublinhou.

Sobreposição de dois sistemas pode ter provocado acidente

Por sua vez, o especialista em ferrovia Manuel Tão considera que a sobreposição de dois sistemas de segurança e de regulamentação no mesmo troço, ao mesmo tempo, poderá ter sido a causa do acidente.

“Se de facto estamos perante uma situação dessas, estamos perante uma bizarria”, salientou à agência Lusa o especialista.

De acordo com Manuel Tão, os transportes ferroviários, como o comboio Alfa Pendular, têm um recetor que recebe informações do sistema Convel, que controla a velocidade dos veículos e também garante o cumprimento da sinalização.

“Neste caso, o comboio alfa pendular estava munido de um recetor desses. Ora o veículo que entrou na via principal, estando numa via secundária, e que acabou por ser atingido pelo Alfa Pendular não é garantido que estava equipado com o recetor do Convel”, realçou.

Para Manuel Tão, poderá ter havido uma falha de comunicações, se, de facto, houve uma sobreposição de regulamentos diferentes.

“Os veículos podem funcionar com sistema de sinalização por via do seu recetor e outros não podem, se eventualmente não tiver, e há aqui dois sistemas que na mesma banda horária se sobrepõem”, afirmou.

À Lusa, o especialista em transportes ferroviários acrescentou que um sistema de transporte só pode ter um sistema de regulamentação e de segurança, não podendo ser “ambíguo”.

“Se introduzirmos procedimentos diferentes - ou dois sistemas diferentes - ao mesmo tempo, em tempo real, numa determinada localização, a probabilidade de podermos vir a ter um incidente pode efetivamente tornar-se muito grande”, observou.

Sindicato dos Maquinistas pede sistema redundante de segurança

O presidente do Sindicato Nacional dos Maquinistas dos Caminhos de Ferro Portugueses (SMAQ), António Domingos, defendeu hoje a existência de um sistema redundante de segurança nas vias férreas.

António Domingos explica que o Alfa Pendular tem um sistema de controlo automático de velocidade, que supervisiona o cumprimento da sinalização e, caso as normas não sejam cumpridas, aciona o sistema de travagem automático, o que não acontece com as máquinas de manutenção que circulam na via.

"A Dresine não tem esse equipamento que supervisiona a condução da tripulação. Se essa máquina de manutenção da via tivesse esse equipamento embarcado, provavelmente o acidente não se daria, isto numa primeira abordagem, sem conhecer pormenores", disse António Domingos, em declarações à agência Lusa.

O presidente do SMAQ considera a ferrovia "um sistema seguro" e, embora realce que "o risco zero não existe", entende que as condições podem ser melhoradas.

"É uma falha estas máquinas de manutenção não terem este sistema de supervisão, que é um sistema redundante de segurança, que permite suprimir falhas da tripulação. Evita ultrapassagens do sinal, que não sei se foi o caso", acrescenta o presidente da estrutura sindical.

Tendo em conta os mecanismos de supervisão, António Domingos entende que, "à partida", o Alfa Pendular circulava à velocidade permitida.

O presidente do SMAQ informou que o sistema, preparado para transmitir informações "a cada momento", não deteta obstáculos na via, como é o caso da máquina de manutenção de catenárias, que estava "num local onde não devia estar".

No caso de o maquinista se aperceber, não seria possível travar a tempo.

"Num comboio a 180 quilómetros à hora, se o maquinista travar de emergência, demora mais de mil metros a imobilizar", explica António Domingos.

O dirigente sindical espera que as causas e responsabilidades sejam apuradas através de um inquérito rigoroso.

"Gostava era que houvesse um inquérito rigoroso, que fossem apuradas responsabilidades e que essas responsabilidades tenham efeitos a nível de quem permite certas situações, porque isto não pode acontecer", enfatiza o presidente do SMAQ, António Domingos.

O Alfa Pendular, que transportava 212 passageiros, seguia no sentido Sul-Norte, tendo saído de Santa Apolónia, em Lisboa, às 14:00, e tinha como destino final Braga.

O acidente ocorreu, pelas 15:30, perto da vila de Soure, mais concretamente junto à localidade de Matas, na região Centro.

/ AM