UEFA, Liga de Clubes e Federação Portuguesa de Futebol arquivaram as queixas do Sporting e deram razão ao Benfica, no chamado caso dos ‘Vouchers’. As entidades consideram que as ofertas das águias a árbitros, observadores e delegados destacados para jogos na Luz, no chamado “Kit Eusébio”, estavam dentro dos limites aceitáveis e definidos a nível internacional, de mera cortesia.

Estes organismos, em processos disciplinares, decidiram, ainda em 2016, apenas com base na única informação de que dispunham, oficial e formal, do que os dirigentes encarnados anunciavam oferecer – refeições no Museu da Cerveja, por valores até 35 euros por pessoa e limitados aos pratos do dia. Mas a realidade entretanto descoberta pela Polícia Judiciária é outra, sabe a TVI – e aponta para indícios de corrupção desportiva, sendo esta apenas a ponta do icebergue no megaprocesso que o Ministério Público tem em marcha contra os mais altos responsáveis encarnados: a investigação fez um levantamento da faturação do restaurante no Terreiro do Paço, em Lisboa, e chegou à realidade de jantares faustosos de 500 e 600 euros, inclusive com beneficio de terceiros. Pessoas próximas dos árbitros a quem estes cederam senhas para que usufruíssem de refeições oferecidas pelo Benfica.

Trata-se de valores muito superiores aos limites permitidos de 200 a 300 euros, que a UEFA define como sendo de “hospitalidade”. O caso foi denunciado na TVI, a 6 de outubro de 2015, pelo então presidente do Sporting, Bruno de Carvalho.

REVEJA: 

As ofertas eram destinadas aos quatro juízes das equipas de arbitragem, aos dois delegados da Liga e ao observador dos jogos. Multiplicadas estas sete pessoas pelos 35 euros anunciados pelo Benfica, daria refeições com uma conta total máxima de 245 euros, mas a PJ apurou despesas reais de mais do dobro. Assim, o caso dos ‘Vouchers’, que já foi alvo de relatório final da PJ, abre a porta a consequências desportivas e criminais para os encarnados.

A TVI sabe que, no entanto, este processo ainda não foi alvo de acusação pública, porque foi junto a outro, mais grave e ainda sob investigação, que tem alguns dos mesmos protagonistas e consolida as suspeitas de corrupção desportiva.

Trata-se do chamado caso dos “e-mails”, que teve origem nos acessos ilegítimos alegadamente cometidos pelo hacker Rui Pinto aos servidores do Benfica – e que destaparam, em dezenas de e-mails, uma relação no mínimo promíscua e suspeita entre dirigentes encarnados e o setor da arbitragem. Essa prova era inválida, pela forma ilícita como foi obtida, mas a investigação da PJ com o DIAP de Lisboa foi à volta.

E a fundamentação da juíza de instrução criminal, nos mandados de busca à SAD do Benfica emitidos para a operação de 19 de outubro de 2017, era clara: "Os factos sob investigação respeitam à suspeita da atuação de responsáveis do SLB-SAD, que, em conluio com personalidades do mundo do futebol e da arbitragem, procurarão exercer pressão e influência junto de responsáveis da arbitragem e outras estruturas de decisão do futebol nacional, tendo em vista influir na nomeação e classificação de árbitros nesse âmbito".

As suspeitas remetiam para a época 2013/14, como ponto de partida para a investigação, e, em causa, recorde-se, estavam conversas cifradas com referências, por exemplo, a “padres para missas”, o que se subentende tratar-se de árbitros para jogos. Esse caso continua sob investigação, mas, quando for concluído, no megaprocesso, constará tudo o que foi apurado no caso dos ‘Vouchers’.