A casa é um dos lugares que mais reflete aquilo que somos. Quem o diz é Patricia Debeljuh, diretora do Centro de Conciliação Família e Empresa (CONFyE) de Buenos Aires, Argentina.

A preocupação com o tempo dispensado ao lar e com a separação de tarefas tem sido uma preocupação constante no trabalho da investigadora e é por isso que Debeljuh está de passagem por Lisboa, para falar sobre o impacto das tarefas domésticas no mundo laboral e na sociedade do século XXI.

Antes da conferência “Quando está em casa, que atenção dá à sua família?”, antecipou à TVI24 as conclusões de um estudo que engloba mais de 95 países, o Global Home Index, que procurou demonstrar que o tempo, muitas vezes desvalorizado, é definitivo para o resto da nossa vida.

O tempo que investimos em cuidar da nossa casa, dos nossos filhos e dos nossos pais é o tempo que marcará, em definitivo, o resto da nossa vida, mas a realidade indica que as tarefas da casa são invisíveis, não quantificáveis, não entram nas contas públicas de nenhum país e estão pouco valorizadas", sublinhou Patricia Debeljuh.  

No que toca à distribuição de tarefas, a investigadora diz que as mulheres continuam a ser mais sobrecarregadas com o trabalho no lar, mas, no caso das domésticas, a maioria (81%) admite sê-lo por gosto, porque isso lhe dá bem-estar emocional.

Esta tendência está, no entanto, a inverter-se, a par de uma mudança de paradigma onde a mulher está cada vez mais preocupada com o emprego e com o êxito profissional, acabando por dispensar menos tempo à casa.

Em Portugal, o tempo dedicado ao trabalho doméstico é relativamente equilibrado entre géneros: dez horas semanais para os homens, menos cinco do que as mulheres, o que, para Patricia Debeljuh, reflete que a “perceção da importância do lar é muito alta em Portugal e ronda os 74%”.

O que fazemos e o que precisamos

Mas não é assim em todos os países. A investigadora assistiu de perto a duas realidades bem diferentes. Viveu na Argentina e em Itália, curiosamente os países com melhor e pior desempenho, respetivamente, nesta matéria.

Em Itália, os homens dedicam apenas seis horas semanais às tarefas do lar e, as mulheres, apenas nove. Há duas explicações, segundo Debeljuh: em primeiro lugar a baixa natalidade do país. Uma vez que os casais não são pais, dedicam menos tempo à casa, em comparação com países com taxas de natalidade mais elevada, em que o homem e a mulher passam muito tempo em casa a tratar dos filhos. A outra explicação é mais “comodista”, explica. Em Itália, os casais optam muito por contratar serviços para as tarefas, como empregadas domésticas, lavandaria, etc.

Na Argentina, pelo contrário, o tempo dispensado ao lar é muito superior. As mulheres dedicam 23 horas semanais e os homens 16 horas. Para Debeljuh, “a realidade é muito diferente, porque há mais consciência de que se tem de acompanhar as mulheres nas tarefas domésticas”. Além disso, a investigadora esclarece que há todo um sistema laboral que permite que as famílias passem mais tempo em casa, nomeadamente porque “as empresas fomentam a concentração em família, em casa e dão aos funcionários meio dia livre, por exemplo”.

Nos países onde a divisão de tarefas não é tão equilibrada como em Portugal, há uma falha constatada pela investigadora: a falta de consciência.

Patricia Debeljuh conta que um dos objetivos do estudo é mostrar que os resultados negativos devem ser alarmantes o suficiente, para que as pessoas “se tornem mais conscientes dos erros que estão a cometer”.

A maioria dos inquiridos assume ter como prioridade o sucesso profissional, o que deixa menos tempo para a família e, consequentemente, para o lar. A investigadora defende, por isso, um equilíbrio entre as duas dimensões, mas sem nunca deixar a casa para segundo plano, pois, como diz, “a casa diz muito de nós”.

A casa é o sítio onde nos sentimos bem.  À medida que as pessoas envelhecem vão dizendo: 'quem me dera ter passado mais tempo em casa' e não 'quem me dera ter passado mais tempo no trabalho'".

Por fim, Patricia Debeljuh aconselha as pessoas a dividirem as suas responsabilidades, não só entre o casal, mas também entre todo o agregado.

Na hora de especificar quem organiza a casa, é preciso saber quem toma as decisões, quem faz o quê… se há menores, doentes ou idosos em casa.”