O quadro da Refer Carlos Vasconcellos, arguido no processo Face Oculta, quer tentar provar que o presidente da empresa teve uma relação amorosa com a ex-secretária de Estado dos Transportes Ana Paula Vitorino, para fazer cair parte da acusação.

A questão do relacionamento entre os dois foi suscitada no conjunto de perguntas que a defesa de Carlos Vasconcellos enviou ao tribunal de Aveiro para Ana Paula Vitorino responder por escrito, enquanto testemunha no processo.

No documento, a que a Agência Lusa teve hoje acesso, o quadro da Refer, que se encontra suspenso de funções, pergunta se a ex-governante e atual deputada do PS teve alguma relação marital ou de união de facto com Luís Pardal, quando começou e terminou a tal relação e se a mesma era aberta e do conhecimento de terceiros.

O advogado João Folque, que defende Vasconcellos, pretende, desta forma, «tentar demonstrar o absurdo» da imputação que é feita ao seu cliente.

O arguido, que está acusado de um crime de corrupção passiva para ato ilícito, é suspeito de ter colaborado nas movimentações para pressionar a então secretária de Estado no sentido de destituir Luís Pardal das funções de presidente da Refer, dado que este seria o principal obstáculo à satisfação dos interesses do sucateiro Manuel Godinho, principal arguido no processo.

«Não faz sentido estar a fazer pressão sobre Ana Paula Vitorino para ela demitir a pessoa com quem teve um relacionamento equiparado a casamento. Seria quase como eu fazer pressão sobre a mulher do Presidente da República para demitir o Presidente da República», disse à Lusa, João Folque, à margem da 48.ª sessão do julgamento que decorreu hoje no tribunal de Aveiro.

A relação entre a antiga secretária de Estado dos Transportes, Ana Paula Vitorino, do Governo de José Sócrates, que depois tutelou aquela empresa pública, e o presidente da Refer já foi confirmada por este último, quando prestou depoimento em audiência de julgamento no tribunal de Aveiro.

Na altura, Luís Pardal afirmou ter tido uma «relação pessoal» com a engenheira Ana Paula Vitorino entre 1994 e 1998.

Na sessão de hoje, foram ouvidas mais duas testemunhas de acusação, designadamente dois técnicos da direção de Ambiente da Refer que falaram sobre os incidentes ocorridos em 2006 no Entroncamento, envolvendo a O2, de Manuel Godinho, no âmbito da execução do contrato de fragmentação das travessas de betão bi-bloco.

Após uma inspeção da Refer, foi detetado um camião com terra escondida debaixo de uma camada de betão fragmentado, o que levou a empresa pública que gere a rede ferroviária nacional a suspender o contrato com a O2, por «fraude» por parte da adjudicatária.

No final da sessão foi informado que a Refer, que se constituiu como assistente neste processo, prescindiu das testemunhas Jorge Tomás e Manuel Torcato, que deviam ser ouvidas na próxima semana.
Redação / CLC