Com a voz trémula pela idade avançada e pelo Acidente Vascular Cerebral (AVC) que quase lhe tirou a vida há poucos meses, José Pereira da Silva conta as histórias de Fátima que lhe contou a mãe. Cecília, “uma boa mulher”, assegurava-lhe que tinha assistido a um dos milagres de Fátima.

A minha mãe era já uma mulher adulta nessa altura. Já tinha uma filha. Ela contava-me sempre que tinha assistido ao Milagre do Sol.”

A mãe relatava-lhe que o Sol se transformou. Foi em outubro de 1917.E começaram “a chover flores”. José estica a mão e acompanha a explicação com gestos trémulos:

Ela diz que choviam flores, que esticava assim a mão para as tentar apanhar, mas que quando a abria não estava lá nada. Mas ela tinha visto as flores caírem-lhe na mão.”

Maria do Rosário também tem mais de 80 anos, mas conta com maior vitalidade o testemunho que lhe foi passado pelo sogro. “Foi um dos poucos adultos da aldeia que viram Nossa Senhora”, sublinha.

Sentada no muro da casa onde agora acolhe peregrinos, Maria do Rosário prossegue: “Os pastorinhos diziam ‘olhem lá está ela, lá está ela!’, mas ninguém a conseguia ver. Só viam a azinheira a ceder. O meu sogro viu Nossa Senhora, tal como a descreviam os Pastorinhos.”

O sogro de Maria do Rosário, “um homem muito bom”, como faz questão de sublinhar em vários momentos da entrevista, nunca lhe relatou qualquer represália por corroborar a história de Francisco, Jacinta e Lúcia. Nem mesmo quando “os Pastorinhos estiveram presos, acusados de mentir”.

Um ano de missas na Cova de Iria

Maria do Rosário, ela própria, sente-se agraciada por Nossa Senhora. “Tinha 13 anos, estive muito doente. Em coma, mesmo. O médico, o único que aqui havia, disse ao meu pai que, se me levasse para Coimbra, eu iria morrer no caminho. O meu pai, que era muito crente, pediu por mim a Nossa Senhora e prometeu-lhe que eu iria à missa todos os domingos à Cova da Iria, se ficasse curada. E eu cumpri a promessa”, remata, com orgulho.

Esta quinta-feira, Maria do Rosário não vai sair de casa para ir ao Santuário, situado a menos de dois quilómetros de distância, para ver o Papa Francisco. “Vou vê-lo na televisão, mais descansada”, diz, enquanto recorda as vindas de Paulo VI, João Paulo II e Bento XVI ao Santuário. A todas as visitas papais assistiu no Santuário.

O Papa Francisco já o fui ver a Roma. Estive com ele assim sentada, a esta distância que estou de si. Até pousei a minha mão na perna dele.”

“Pus muita pedra no Santuário”

Também José não conta deslocar-se ao Santuário. A saúde não o deixa. Mas teimou sair do hospital de cuidados continuados onde recupera do AVC “passar estes dias tão importantes em casa”. Em casa, é como quem diz: José teima em ajudar a gerir o hotel da família. Apressa a entrevista porque quer “ir ver como estão as coisas na cozinha”.

José Pereira da Silva conta que ajudou a construir o Santuário. (Manuela Micael/TVI)

Antes, porém, conta-nos como viu nascer o Santuário na Cova da Iria. “Era um deserto. Parti lá muita pedra”, adianta.

Naquele tempo, não havia por aqui onde arranjar trabalho. Os empreiteiros que vieram para ali deram trabalho a muita gente.”

José Pereira da Silva ainda puxa da memória o acidente de trabalho que viu acontecer à sua frente e que lhe mataram um colega: “A placa de pedra caiu em cima dele. Morreu logo ali.”