Duas associações de caçadores, a FENCAÇA e a Associação Nacional de Produtores Rurais, apresentaram queixa junto da Ordem dos Médicos Veterinários contra a veterinária e presidente da SOS Animal, Sandra Duarte Cardoso, por causa das declarações da médica a propósito do salvamento do porquinho Tomás. 

O animal foi encontrado numa zona de caça da margem Sul do Tejo no passado mês de outubro, com ferimentos junto aos olhos e patas, e foi resgatado pela SOS Animal, apadrinhado depois pela atriz Jessica Athayde. Segundo o Expresso, Tomás tem agora 13 quilos e vive num santuário para animais. Mas as associações de caça não gostaram dos vídeos partilhados nas redes sociais por Sandra Duarte Cardoso e pela SOS Animal a propósito do resgate, que tiveram milhares de visualizações, e apresentaram queixa na Ordem dos Médicos Veterinários. 

Segundo o Expresso, enviaram uma "carta de repúdio" ao  Conselho Profissional e Deontológico da Ordem dos Médicos Veterinários referindo que as declarações da veterinária “causaram desprestígio à profissão de médico veterinário, por atacar de forma deliberada um coletivo de cidadãos que praticam uma atividade legal, e por forjar toda uma história, para prosseguir os fins de atacar essa comunidade”.

Quando deu a conhecer a história do porquinho Tomás, a veterinária da SOS Animal admitiu tratar-se de uma cria de javali e disse que o procedimento normal dos caçadores era matarem "as mães ou os pais" e "normalmente a ninhada", referindo que acreditava que Tomás fugira de uma caçada. 

Este é o Tomás de Athayde e para que não haja dúvidas é um suíno! Mas podia ser outra espécie qualquer que ia ser igualmente resgatado. Foi encontrado numa zona de caça ao javali, completamente prostrado, escondido e sem forças. Estava a morrer, exausto, com fome, extremamente ferido e muito traumatizado. É um sobrevivente, é um ser que sente, é um ser que sofre, é um ser que ama", escrevia Sandra Duarte Cardoso num vídeo publicado no Facebook a 25 de outubro.

Já no final de novembro, a veterinária publicava fotografias com Tomás e voltava à carga: "Era uma vez um porquinho, filho de um javali e um Duroc, ( ambos porcos) que com 2 meses está deste tamanho e sobreviveu à crueldade de uns pela bondade de outros. Era uma vez uma sociedade dita civilizada que defende a caça e o negócio que fazem dela, como um evento sócio-cultural ou desporto, e tudo fazem para proteger a matança.  Era uma vez uns tempos onde a humanidade desperta para a urgência de proteger o que resta dos ecossistemas e das espécies animais... Era uma vez um punhado de gente que está de pedra e cal para o que der e vier para proteger o que está certo". 

Era uma vez uma menina, levada da breca e rija que nem calhau da serra, não fosse ela filha de celtas.

Cresceu e é agora...

Publicado por Sandra Duarte Cardoso em Sábado, 28 de novembro de 2020

 

Ao Expresso, a presidente do  Conselho Profissional e Deontológico da Ordem dos Médicos Veterinários, Maria Conceição Peleteiro, confirmou que o processo contra a veterinária da SOS Animal está "em fase de instrução". O bastonário da Ordem, Jorge Cid, diz não ter conhecimento dos processos que que entram no Conselho Deontológico. O bastonário não quis responder ao semanário se era sócio de alguma das organizações de caça que apresentaram a queixa à Ordem ou confirmar se era proprietário de um canil e de uma reserva de caça no concelho da Chamusca. 

Reagindo no Facebook, na noite de terça-feira, a presidente da SOS Animal confirmou a queixa de que é alvo e acrescentou: "Estou no entanto completamente descansada por não haver qualquer matéria que pudesse ser passível de sanção disciplinar, e, a justiça pode demorar, mas funciona", escreveu Sandra Duarte Cardoso. Num longo texto, acusa a Ordem dos Veterinários de não ser isenta e diz ter documentos que sustentam a sua afirmação. 

Em 2014 e 2015 o processo de acreditação da minha direção clínica no hospital da SOSAnimal - Grupo de Socorro Animal de Portugal, provou que fazem como querem e violam a lei sem qualquer problema ou consequência. Provou ainda, que embora apresentasse queixa por tudo o que foi feito nesta altura, contra quem de direito, ao CPD em funções, nunca recebi qualquer feedback de abertura de inquérito, e, aquando da mudança de direção, a que está agora em funções, voltei a insistir para ter resposta, nunca veio. Sei ainda de queixas graves, com indícios fatuais e sustentados que não tiveram qualquer resposta,  no entanto, esta “encomenda” teve correio azul", denuncia. 

Sim, é verdade confirmo.

Estou no entanto completamente descansada por não haver qualquer matéria que pudesse ser...

Publicado por Sandra Duarte Cardoso em  Terça-feira, 29 de dezembro de 2020

Que a caça é inaceitável e imoral, já todos sabemos, o que não sabíamos é que são mais do que julgamos e afinal estão em sítios que justifica o porquê deste atraso cívico nesta matéria. O que também ficamos a saber, é que as ordens profissionais precisam urgentemente de revisão de funções e supervisão de atuação", escreve ainda Sandra Duarte Cardoso. 

Bárbara Cruz