O coronel Ferreira Duarte revelou, nesta quinta-feira, que o ex-chefe do Estado-Maior do Exército (CEME) lhe disse que a decisão de o exonerar, em julho de 2017, fazia parte de uma “estratégia de comunicação” para mostrar a transparência da instituição.

Numa “conversa privada” no dia 3 de julho de 2017, o general Rovisco Duarte, ex-CEME, explicou que foi uma “decisão dele", para garantir a transparência e o prestígio da instituição.

O coronel de Infantaria Ferreira Duarte respondia ao deputado do CDS-PP António Carlos Monteiro na comissão parlamentar de inquérito ao furto de armas de Tancos, noticiado em 29 de junho.

O militar era à altura do furto o comandante do Regimento de Infantaria n.º 15, de Tomar, uma das unidades responsáveis por fornecer militares para a vigilância dos paióis nacionais de Tancos e foi, com outros quatro comandantes, exonerado pelo ex-CEME no dia 1 de julho e nomeado para as mesmas funções no dia 18 seguinte.

O coronel, atualmente a frequentar o curso de promoção a general, revelou o conteúdo da conversa mantida com Rovisco Duarte após o presidente da comissão de inquérito, o deputado Neto Brandão, ter explicado que devia responder à questão do deputado António Carlos Monteiro por se relacionar com matéria factual e não da reserva da vida privada.

Segundo o coronel Ferreira Duarte, o general Rovisco Duarte telefonou-lhe a comunicar a decisão antes de a anunciar na televisão, no dia 1 de julho e, no dia 3, tiveram uma conversa na qual o ex-CEME lhe explicou os motivos da decisão.

“E eu compreendi”, disse, admitindo “impactos na vida familiar”, mas frisando acreditar que a decisão “foi tomada em consciência”.

O general CEME “pediu desculpa pelo impacto que a decisão teve nas famílias, o que teve… e que foi uma decisão dele que fez parte de uma estratégia de comunicação externa, que prestigiava a instituição” e que foi necessária, contou ainda, “por razões de clareza” e de garantias “de transparência” na “postura do Exército” enquanto decorressem os três inquéritos que mandou abrir internamente na sequência do furto.

Perante as declarações do coronel Ferreira Duarte, o deputado António Carlos Monteiro questionou se face ao furto o comando do Exército não estaria mais preocupado com a imagem do que com o furto.

Não acredito que a preocupação tenha sido a imagem. (…) Eu entendi que a exoneração era para ajudar a mostrar que a investigação era completamente transparente”, acrescentou.

Mais à frente na audição, com várias perguntas sobre as exonerações, o coronel disse que a “exoneração não é uma punição”, sendo antes “uma figura que existe e é perfeitamente normal”.

E sobre a questão da imagem na gestão dos acontecimentos, o coronel disse que “não partilha da perceção” de que a condução do caso ao nível do comando do Exército tivesse sido feita a pensar “na imagem”.

A imagem é importante, mas não conseguimos criar imagem se não formos credíveis, é muito importante que se acautele a credibilidade”, declarou, sublinhando acreditar que esta é também a visão dos oficiais com quem aprendeu.

Questionado sobre as demissões apresentadas por dois generais na sequência das exonerações dos cinco coronéis, o então comandante das Forças Terrestres, António Menezes, e o general Calçada, o coronel Ferreira Duarte afirmou que nunca lhes perguntou os motivos.

“São dois brilhantes generais que nós temos pena que se tenham ido embora, é a minha opinião pessoal, pela sua experiência e capacidade de comando. Mas não podemos fazer nada quanto a isso”, referiu.

O furto do material militar, entre granadas, explosivos e munições, dos paióis de Tancos foi noticiado em 29 de junho de 2017.

O caso do furto de armas em Tancos ganhou importantes desenvolvimentos em 2018, tendo sido detidos, numa operação do Ministério Público e da Polícia Judiciária, sete militares da Polícia Judiciária Militar (PJM) e da GNR, suspeitos de terem forjado a recuperação do material em conivência com o presumível autor do roubo.

Entre os detidos está o diretor da PJM e um civil (que já foi militar), principal suspeito da prática do furto, encontrando-se ambos em prisão preventiva, num caso que levou à demissão de Azeredo Lopes do cargo de ministro da Defesa e cujas implicações políticas levaram à criação de uma comissão parlamentar de inquérito.

Ferreira Duarte soube do furto pelas notícias

O coronel Ferreira Duarte afirmou, também, que soube do furto de material de guerra "pelas notícias", no dia seguinte.

O furto só foi divulgado à comunicação social um dia depois, em 29 de junho, o que levou o PS a manifestar estranheza.

O deputado socialista Diogo Leão observou que se o furto ocorreu no dia 28 seria de esperar que os comandantes das unidades responsáveis pela vigilância dos paióis fossem imediatamente avisados, no sentido de serem tomadas medidas.

O Regimento de Infantaria n.º 15, sedeado em Tomar, era uma das unidades responsáveis por deslocar militares para fazerem a vigilância aos agora desativados paióis nacionais de Tancos, mas à data do furto, 28 de junho de 2017, a unidade que tinha essa missão era a de Engenharia n.º 1, em Tancos, sublinhou o coronel Ferreira Duarte.

O militar desvalorizou o facto de ter sabido apenas pelas notícias, manifestando-se convicto de que “quem tinha de saber, soube imediatamente”, acrescentando que a unidade de Engenharia 1 foi informada.

Nessa altura não era eu que estava responsável pelos depósitos. A responsabilidade do regimento 15 era de março e abril e depois setembro e outubro. Tomámos conhecimento oficialmente e de seguida recebemos diretivas específicas para melhorar e aumentar o pessoal”, disse.

Questionado pelos deputados, o coronel Ferreira Duarte disse que estava ciente das falhas e deficiências das instalações físicas dos paióis, como descreveu o deputado do BE João Vasconcelos, e que por isso mesmo recomendava “cuidados redobrados” aos militares que destacava para as rondas.

Estávamos conscientes do que estava a suceder e tentávamos compensar passando essa informação a quem ia cumprir a missão para terem cuidados redobrados. Essa informação era do conhecimento do escalão superior”, declarou.

As patrulhas podiam ser apeadas ou montadas, realizadas fora do perímetro, em horas que variavam e num percurso em que os militares avaliavam o estado da vedação e a visibilidade para dentro das instalações, referiu, frisando que todos os elementos recolhidos eram enviados à Brigada de Reação Rápida.

Sempre que a equipa que fazia a missão relatava problemas, seja o mato alto, a questão da videovigilância, todas as deficiências encontradas… era um procedimento normal. Se fosse algum incidente específico fazia um relatório imediato, via Regimento, à Unidade que delineava o plano de vigilância”, precisou.

O militar rejeitou a ideia de que o comando do Exército soubesse das deficiências das instalações dos paióis e que mesmo assim nada fazia para as melhorar, pondo em risco a segurança, sublinhando que “alguma coisa estava a ser feita”.

Nós víamos o muro a ser feito. Estava previsto o SICAV [sistema de vigilância eletrónico]. Não andava com a velocidade que gostaríamos”, disse, acrescentando que “a manta é curta”.

Quanto à falta de efetivos, o militar notou que é um problema “transversal” às unidades do Exército e “se calhar às Forças Armadas” e sustentou que, perante os recursos que tem, o Exército tem de fazer opções, assumindo os riscos que daí decorrem.

Agora, com as tarefas acrescidas que temos com o apoio ao combate aos incêndios e emergência, continuamos a fazer as tarefas, mas temos de ser imaginativos”, admitiu.

Evitando dar opiniões pessoais, o militar frisou que o Exército é o primeiro interessado em saber como aconteceu e não foge das responsabilidades, reconhecendo que “alguma coisa correu mal”.