O curriculum de Ferro Rodrigues esteve esta quinta-feira a ser examinado à lupa, no processo de difamação interposto pelo ex-ministro contra Ferreira de Sousa, no âmbito da Casa Pia.

Nesta segunda sessão de julgamento foram ouvidos Joaquim Aguiar e Ramos Silva, colegas de faculdade dos tempos de juventude de Ferro e Ferreira de Sousa, agora presidente do Centro Interdisciplinar Estudos Económicos.

Ferro recusa ter exercido «pressões»

O processo remonta a 2004, quando Ferreira de Sousa disse, ao Correio da Manhã, que o então ex-ministro do Trabalho sabia dos abusos praticados na Casa Pia, e acusou-o de ser «um grande mentiroso», «inapto para qualquer cargo público». O economista garante que em 1994 contou a Ferro, Paulo Pedroso e Vieira da Silva, que Osvaldo Moleirinho, antigo funcionário do CIDEC, tinha-lhe contado ter sido abusado sexualmente na instituição, enquanto foi lá aluno.

Segundo Ferreira de Sousa, Ferro Rodrigues mente, quando alegou desconhecer o que se passava na Casa Pia, e mente ainda «no seu passado e no seu curriculum». A sessão desta quinta-feira decorreu com a audição de testemunhas arroladas pela defesa na tentativa de provar que o ex-ministro do Trabalho não foi presidente da Associação de Estudantes do ISEG, no ano lectivo de 1969/1970, facto mencionado numa biografia publicada no site do PS e num artigo do Público.

Joaquim Aguiar, assessor político de Ramalho Eanes e Mário Soares em Belém, foi contemporâneo do arguido e de Ferro Rodrigues, no ISEG, e garantiu ao tribunal que o ex-líder do PS não ocupou a presidência da associação de estudantes nesse ano «marcante» para o movimento estudantil. «Foi Ferreira de Sousa quem liderou a associação».

Para Aguiar, esta diferença no curriculum é tão grave quanto a ausência de menção ao 25 de Novembro de 1975. «Foi difícil ganhar o 25 de Novembro. E houve quem ganhasse e quem perdesse», disse, referindo-se a Ferro Rodrigues que, segundo Aguiar, a prestar serviço militar no quartel de Abrantes, optou pelo «Documento COPCON», que defendia o poder popular.

Ferro Rodrigues foi de facto líder dos estudantes, mas só no ano de 1971/72, quando o primeiro embate dos estudantes contra a forma como as aulas eram leccionadas tinha sido já alterada.

Questionado sobre se a biografia poderia ter sido alterada propositadamente, fazendo «aproveitamento político» desta referência, Joaquim Aguiar diz não ter conhecimentos sobre a questão, mas garante que «as operações de cosmética são normalmente feitas ao espelho» - e que a «maquilhagem», usada no curriculum para «recriar o ambiente da época», é «sempre vista pelo próprio».

Porque para Joaquim Aguiar «não é indiferente ser presidente entre 1969 e 1970 ou 71/72. Para interpretar estes 30 anos será fundamental» saber quem esteve na linha da frente nesse ano de 69.

Questionado sobre se pode ter havido um engano nesta referência no curriculum, Aguiar afirmou que «a questão de 69 estava a ser escamoteada, como foi também a posição de Ferro Rodrigues no 25 de Novembro de 1975» ou mesmo a sua importância na criação da UGT.

A defesa arrolou ainda outro colega dos tempos de faculdade, que fez parte da direcção da associação de estudantes com Ferreira de Sousa, garantindo que nessa época Ferro Rodrigues não estava à frente da associação. Joaquim Ramos Silva, professor universitário, admitiu também que «do ponto de vista histórico» estar na associação em 1969 é mais importante do que na década de 70.

Nesta segunda sessão do julgamento, a defesa tinha arroladas como testemunhas, Saldanha Sanches e Maria José Morgado, mas os dois não foram notificados pelo 6.º Juízo Criminal de Lisboa por alteração de morada.
Judite França