Sem a alegria das festas populares de Lisboa, moradores e comerciantes de Alcântara continuam hoje na saudade da vida antes da pandemia. Concordam com a necessidade de medidas contra a covid-19, mas questionam o porquê de se cancelar tudo.

É péssimo e acho muito injusto, porque existem 'n' [número inteiro indeterminado] eventos por aí”, afirma a moradora Natacha Ferreira, de 27 anos, nascida e criada em Alcântara, bairro lisboeta que se apresenta quase despido de gente e de cor, sem enfeites e sem manjericos, e onde faltam os fogareiros com o cheirinho da sardinha assada.

Considerando que seria possível celebrar o Santo António, inclusive os arraiais e as marchas populares, com as condições sanitárias em que se fazem outros eventos, a jovem expressa a saudade de mais um ano que passa sem que a tradição se volte a cumprir: “já podia ser este ano, mas já que não foi que seja para o próximo”.

Ligada à marcha de Alcântara, em que foi mascote em 1999 e é marchante desde 2009, Natacha Ferreira espera para voltar a bater o pé em 2022, seja a marchar, seja no bailarico dos arraiais.

Passe o tempo que passar / A saudade mora aqui / Para o ano é que vai ser marchar / 90 anos a bater o pé por ti”, lê-se à entrada do bairro, na sede da Sociedade Filarmónica Alunos Esperança, coletividade que organiza a marcha de Alcântara.

Coordenador da marcha de Alcântara, Francisco Ferreira concorda com a decisão da Câmara de Lisboa de cancelar as festas, apelando a que os lisboetas tenham “paciência” para que no próximo ano se possa voltar a festejar.

O trabalho da marcha para o concurso de 2020 mantém-se e vai ser usado em 2022, com o mesmo tema, inscrito nos arcos, figurino, letras e músicas, e com os mesmos marchantes, explica Francisco Ferreira, prevendo uma participação “com mais força, com mais vontade e com mais garra”, após “dois anos de jejum”.

Também com alma do bairro, de quem nasceu e sempre cá viveu, Célia Rodrigues, de 52 anos, considera “um mal necessário” a decisão de não voltar a realizar as festas de Lisboa, à semelhança do que aconteceu em 2020, devido à pandemia da covid-19, mas defende que “não deve existir dois pesos e duas medidas”.

Se podemos ter futebol e finais da ‘Champions’, como pôde, também poderemos ter estas festas de Lisboa porque, ao fim ao cabo, são com os nossos residentes […], mas é o país que temos, portanto, para os internacionais temos tudo, para nós não temos direito a nada”, reclama a moradora de Alcântara.

Ainda que haja menos pessoas nas ruas, Célia Rodrigues antecipa que vai haver ajuntamentos e festas durante este período de santos populares, porque “é uma altura do ano única”, pelo que se vive “um sentimento de falta”.

Não é "alfacinha de gema", mas vive em Alcântara há mais de quatro décadas. Branca Reis, de 73 anos, veio das Caldas da Rainha para Lisboa, com o tempo já se considera uma verdadeira lisboeta e aprecia as festas populares.

Gosto, gosto bastante, mas cancelaram, agora não há nada para ninguém. Nem marchas, nem nada, a gente não tem nada. Cancelaram tudo. Acho que é uma tristeza”, contesta a moradora, manifestando-se contra a decisão da Câmara de Lisboa, por considerar que era possível festejar, através de medidas de controlo da covid-19.

Na churrasqueira Os Carluchos, a funcionar há cerca de 30 anos na Rua de Alcântara, a proprietária Ana Rocha diz que o cancelamento das festas “afeta o comércio e a população em geral”, inclusive a tradição da Romaria de Santo Amaro, que se costuma realizar no final de junho, na freguesia lisboeta de Alcântara.

Além de servirmos mais refeições, sardinhas, tínhamos sempre mais clientes nos dias de festa, porque as pessoas andavam mais na rua, havia mais circulação”, relata a comerciante, sem ter certezas sobre como serão os próximos dias, devido ao crescimento do números de casos de covid-19 em Lisboa.

Se as regras da restauração se mantiverem na capital, Ana Rocha prevê receber mais clientes para almoços e jantares durante o mês dos Santos Populares, com a oferta de todo o tipo de grelhados, inclusive a sardinha, trabalhando à base de reservas, para que se evitem ajuntamentos.

Ver uma casa cheia é sempre gratificante. Atualmente, temos alguns clientes, mas ainda não chegámos ao que estávamos a trabalhar anteriormente, antes da pandemia, […] mas a gente espera por dias melhores”, declara.

No Largo do Calvário, o restaurante Resina, aberto há 96 anos, está a funcionar com praticamente 1/3 da capacidade do espaço, para cumprir com as regras sanitárias, mas nem essa limitação faz ocupar todas as mesas da casa de clientes, inclusive na esplanada.

Prejudica-nos um bocadinho, porque há sempre pessoas a saírem, a quererem vir festejar, a quererem mais uns petiscos. Não havendo a romaria, não sei como vai ser”, refere o gerente João Rodrigues, adiantando que nesta altura, antes da pandemia, “havia muita mais gente nas ruas, principalmente à noite”.

Ainda que com poucos turistas e sem os clientes dos arraiais e dos santos populares, o restaurante mantém-se a trabalhar com os pratos típicos, em que as especialidades são os grelhados, desde sardinhas às entremeadas.

Da nossa dose de sardinhas, são quatro ou cinco sardinhas, dependente do tamanho, com a batata e a salada. Estamos a vender a 6,50 euros”, indica João Rodrigues, assegurando que é sardinha fresca e não congelada.

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