"Para os vírus não há fronteiras". O alerta é de Filipe Froes, pneumologista e coordenador do gabinete crise da Ordem dos Médicos que foi criado para acompanhar o coronavírus (gabinete este que está a colaborar com a DGS), que esteve, esta segunda-feira, no Jornal das 8 da TVI.

Em entrevista com Pedro Pinto e Miguel Sousa Tavares, o médico começou por dizer que o "risco de pandemia é alto" principalmente porque há "pessoas sem sintomas que podem transmitir a doença".

"Foi isso que aconteceu nalguns países do mundo, nomeadamente na Itália. Na Itália, eles pensavam inclusivamente que o paciente zero fosse alguém que tivesse tido um contacto com a china. Já se descobriu que não é essa pessoa e nem se conseguiu fazer sequer o link epidemiológico – fazer a relação por onde e por quem entrou o vírus em Itália", lembrou.

Por isso mesmo, "o risco de pandemia é alto" e o ponto de não retorno pode estar próximo.

"Nós estamos muito mais próximos do ponto de não retorno para a pandemia. E esta situação que estamos a viver na Europa ou é rapidamente controlada – e daí os esforços enormes que estão a ser feitos para controlar a situação em Itália – ou entramos em pandemia".

E o que significa entrar em pandemia?

"Entramos em pandemia quando houver estas cadeias de transmissão em todos os continentes, ou pelo menos na maioria dos continentes".

Coordenação na União Europeia

Filipe Froes defendeu que, perante este cenário, é necessário mudar a forma como se olha para a doença, principalmente na Europa. 

"Na Europa estamos a viver uma situação muito centrados no que se passa na Itália, mas estamos a esquecer-nos de uma situação que faz fronteira com a Europa, que é o Irão. O Irão para nós é particularmente importante porque eles não têm a capacidade de controlo, não têm serviço de saúde, não tem a capacidade de intervenção que nós temos nos países europeus. A possibilidade dele facilmente se disseminar no Irão e nos países limítrofes e depois entrar na Europa é um pouco mais elevada".

Quando questionado por Miguel Sousa Tavares sobre o facto da "China, que é uma autocracia" não ter conseguido combater a doença, se era a democracia que o iria conseguir, o pneumologista disse que sim, porque "só a democracia permite o acesso transparente a três aspetos essenciais".

"Só há uma maneira de combater qualquer tipo de doença, que é com democracia, porque só a democracia permite o acesso transparente a três aspetos essenciais: ao conhecimento, à transparência e proporcionalidade".

E lembro que a transparência também é necessária nas estruturas europeias, assim como a coordenação, para que o controlo da doença seja eficaz. 

"Tem de haver uma coordenação das estruturas europeias para que todos os países atuem coordenadamente para resolverem os problemas. Tem de haver uma coerência para evitar uma disparidade de atuações que criam intranquilidade, que criam duvida, e nós temos de atuar conjuntamente (...) A Europa já não é um conjunto de países. É um espaço comum de mobilidade de pessoas e mercadorias. Temos que atuar concertadamente e coordenadamente pela Europa. As pessoas têm de perceber que há uma resposta comum que nos protege a todos.", afirmou.

Portugal "não está preparado" para uma pandemia

Pneumologista e coordenador do gabinete crise da Ordem dos Médicos que foi criado para acompanhar o coronavírus, Filipe Froes tem colaborado com a Direção-Geral de Saúde no que ao coronavírus diz respeito. E é peremptório: "Portugal tem escapado imune, mas temos de estar preparados para ter a doença".

"Para uma pandemia, não estamos preparados. O nível de uma pandemia e a resposta que se tem de ter depende de três coisas: transmissibilidade, o número de pessoas atingidas e a gravidade. Entre os dois extremos, entre ter pouquíssimos doentes sem gravidade – todos os países da União Europeia estão preparados – e muitos doentes com muita gravidade – nenhum país da União Europeia está preparado. No meio é que estará o equilíbrio. Em relação à pandemia da gripe A, acho que estamos pior preparados. Temos menos recursos, temos menos camas, temos menos capacidade, temos menos recursos humanos e temos menos diferenciação".

Participante ativo nas reuniões com a Direção-Geral de Saúde, Filipe Froes diz esperar "que a DGS tenha razão" quando diz que Portugal está preparado para o coronavírus. 

"Eu espero que a DGS tenha razão, mas sei que temos menos do que tivemos para a pandemia da gripe A".

O coronavírus Covid-19 surgiu em dezembro em Hubei, no centro da China, país onde estão registados, a nível continental, mais de 79 mil casos, 2.592 dos quais mortais.

O segundo país mais afetado é o Japão, com 769 casos (três dos quais mortais), incluindo pelo menos 364 no cruzeiro Diamond Princess, onde no sábado foi detetada a infeção de um cidadão português.

Segue-se a Coreia do Sul, com 763 casos, sete dos quais mortais.

Além dos mortos na China continental, morreram oito pessoas no Irão, quatro no Japão, duas na região chinesa de Hong Kong, sete na Coreia do Sul, quatro em Itália, uma nas Filipinas, uma em França, uma nos Estados Unidos e outra em Taiwan.

Em Portugal já existiram 14 casos suspeitos, mas após análises foram dados negativos.

Existe apenas um caso de um português infetado, trabalhador num navio de cruzeiros que se encontra de quarentena no porto de Yokohama, no Japão.