Quase sete anos depois do grande incêndio de Catraia, em Tavira, 205 lesados ainda aguardam por indemnizações e insistem que o incêndio deflagrou após trabalhos da EDP para a ligação de torres eólicas à rede elétrica.

A operação de combate ao incêndio, que lavrou entre 18 e 22 de julho de 2012 na serra do Caldeirão, atingindo os concelhos de Tavira e S. Brás de Alportel, envolveu 2.750 operacionais, 17 meios aéreos e obrigou a retirar de suas casas 351 pessoas.

Em cinco dias o fogo levou quase 25.000 hectares, mas, sete anos depois, ainda se discute, em tribunal, exatamente onde e como começou, dúvidas que motivaram, na passada semana, uma inspeção judicial ao local onde, segundo a Polícia Judiciária, o fogo eclodiu.

Em causa está um processo cível movido contra a EDP por 205 pessoas afetadas pelo incêndio, que querem ser compensadas pela destruição de dezenas de milhar de hectares daquela que era considerada a melhor cortiça do mundo, olivais e colmeias.

“Estavam 12 operários aqui a trabalhar e custa-me a acreditar que não haja nenhum que não tenha a consciência e que venha dizer o que se passou”, declarou à Lusa Carlos Vieira, habitante de Cachopo, durante a diligência.

Carlos Vieira, testemunha no processo, foi uma das dezenas de pessoas que assistiram à diligência que levou ao local testemunhas, advogados e até o juiz, no âmbito do processo que desde 7 de maio está a ser julgado no Tribunal de Tavira.

Quando se deu o início do incêndio, a empresa CME, subcontratada da EDP, procedia à instalação de postes de ligação de torres eólicas à rede elétrica.

O habitante daquela aldeia afirma ter falado, na altura, com um dos trabalhadores que lhe confessou terem tocado com “uma linha na outra, quando estavam a passar umas cordas”.

Foi isso que declarou ao juiz, contrariando a tese da defesa que afirma ter sido uma antiga carvoeira, feita pela população local, que esteve na origem do foco de incêndio.

“De que forma é que começou não sabemos. Sabemos que só cá se encontravam funcionários da CME, mais ninguém”, afirmou Paulo Martins, advogado que representa os 205 afetados que se juntaram na Associação Movimento Serra do Caldeirão.

O advogado considera não ter havido intenção em provocar um incêndio, mas alega que houve “um descuido no âmbito da obra que estava a ser realizada”.

A Associação responsável pela queixa contra a EDP manifestou-se agradada com a inspeção judicial, já que permitiu aos intervenientes da justiça perceber, no local, as discrepâncias entre as diferentes versões contadas em tribunal.

“Muitas das pessoas que aqui vieram hoje sentiram-se revoltadas, porque ouviram coisas que, sabiam, não correspondiam à verdade”, afirma Ana Clara Santos, da Associação Movimento Serra do Caldeirão.

Porém, nem todos os afetados se juntaram à associação: “Muitas pessoas ficaram de fora, por medo” de integrarem um processo movido contra uma empresa privada, que responsabilizam pela origem do incêndio, “e que não é uma empresa qualquer”, remata.

As alegações finais estão marcadas para o dia 5 de Julho, no Tribunal de Tavira.