A ex-candidata à Presidência da República Ana Gomes admitiu, esta quarta-feira em tribunal, que visitou Rui Pinto à prisão pelo menos quatro vezes e que o "ajudou" a colaborar com a Polícia Judiciária (PJ) e o Ministério Público (MP). 

Soube dois dias antes de se tornar público que Rui Pinto era a fonte do Football Leaks", explicando que foi o advogado francês, William Bourdon, que a contactou. A socialista esteve a ser ouvida como testemunha arrolada pela defesa, no Tribunal Central Criminal de Lisboa.

Durante a  41.ª sessão do julgamento, Ana Gomes disse que escreveu à direção prisional para saber se poderia visitar o hacker - para lhe entregar o prémio whistleblower atribuído pelo Parlamento Europeu - e que chegou a estar duas ou três vezes sozinha com Rui Pinto.

Fiquei com a ideia de que era jovem, cândido, culto e fiquei impressionada porque me pareceu um jovem extraordinariamente culto. Até lhe levei livros", contou.

A socialista referiu que o criador do Football Leaks era muito "relutante com a colaboração com a polícia", mas que foi evoluindo: "acho que o ajudei nesse aspeto".

Falávamos no combate à corrupção e ele deu-me indicações de que sabia do que falava. Sabia muito da engenharia de muitos escritórios de advogados para a lavagem de dinheiro de Isabel dos Santos. Pareceu-me que ele estava a princípio resistente a colaborar com a justiça, mas depois ficou disposto a colaborar para se fazer justiça, não para salvar a própria pele", explicou no Tribunal Central Criminal de Lisboa.

"Vieira foi testa de ferro de um banqueiro"

Já no exterior do tribunal, em declarações aos jornalistas, a ex-eurodeputada disse que Luís Filipe Vieira funcionou "como um barriga de aluguer, como um testa de ferro de um banqueiro", referindo-se a Ricardo Salgado e à queda do BES. 

Criticou ainda o facto de Salgado não ter sido "estranhamente incomodado" e de estar a "viajar e a desfrutar da riqueza que acumulou, enquanto há milhares de portugueses lesados diretamente pelo banco que ele chefiava e todos os portugueses lesados que hoje pagam com as suas contribuições o buracão BES e BESA"

A antiga candidata presidencial sublinhou não saber “nada” de futebol, mas realçou as “implicações perversas na administração dos recursos do país” por parte desta ‘indústria’ e atacou a audição do líder do clube 'encarnado', na segunda-feira, na Assembleia da República.

Quando se vê Luís Filipe Vieira, presidente do Benfica, numa comissão de inquérito na Assembleia da República, a tentar justificar os negócios com Ricardo Salgado, como barriga de aluguer”, disse ainda no interior do tribunal.

No entanto, a antiga candidata à Presidência da República continuou: “Mas eu particularizo, só estou a dizer aquilo que vi na televisão. É óbvio que há uma ligação, e isso passa-se com o maior clube português, mas também se passa com os outros clubes maiores e mais pequenos. Assim se explica que os clubes pequenos em Portugal sejam comprados por magnatas. São esquemas de lavagem de dinheiro.”

Luís Filipe Vieira foi ouvido há dois dias como presidente da Promovalor, enquanto um dos maiores devedores do Novo Banco, na comissão parlamentar de inquérito, na qual defendeu ter sido chamado a prestar declarações por ser também presidente do Benfica, algo que os deputados refutaram.

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Cláudia Évora Inês Pereira / Notícia atualizada às 14:37